Em julho de 2015, o economista Nilson Teixeira fez uma
profecia terrível: a recessão que atingira o país no segundo trimestre do ano
anterior seria a mais longa da história e a recuperação, a mais lenta.
Infelizmente, acertou. A “Grande Recessão” durou três anos (2014/16) e
registrou contração do PIB de 6,2%. A recuperação tem sido medíocre: entre 2017
e 2019, o crescimento acumulado pode ter sido de apenas 3,8%, muito inferior,
portanto, à queda ocorrida no triênio anterior.
Economista-chefe do Credit Suisse quando fez o vaticínio,
Nilson, hoje sócio da gestora Macro Capital, e sua equipe projetaram números
menos pessimistas que os revelados mais tarde pela realidade. Ainda assim, a
previsão contrariava a tradição da economia brasileira, de recuperação rápida
de crises. A severa crise fiscal, um governo fraco e sem nenhuma intenção de
promover reformas e corrigir os erros que provocaram a “Grande Recessão”
compunham um quadro tão desolador que a superação levaria tempo.
Ninguém esperava, porém, que o PIB fosse recuar 3,5% em 2015
e 3,3% em 2016. Nos últimos três anos, o crescimento foi desanimador,
contrariando as expectativas da maioria dos analistas – de 1,3% em 2017 e 2018
e de 1,16% em 2019, considerando para o ano passado a mediana das expectativas
do mercado captadas pelo Banco Central.
O gráfico abaixo mostra que, em termos de crescimento
econômico, a segunda década deste século foi perdida. Não foi à toa que os
brasileiros respaldaram dois movimentos políticos: o primeiro, em 2016, de
apoiar nas ruas o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT); o
seguinte, eleger o candidato que se apresentou bem cedo, nas redes sociais,
como o anti-PT, o político que revogaria as políticas que afundaram o Brasil na
crise mais longa e profunda de sua história.
Fernando Henrique Cardoso costuma dizer que, para tirar um
presidente do cargo na nossa democracia é preciso cumprir três condições (não
basta apenas uma delas): ter apoio das ruas (manifestações populares
demonstrando insatisfação), maioria de votos no Congresso e pelo menos uma
razão de natureza técnico-jurídica que justifique o questionamento do chefe do
Executivo. Essas condições estiveram presentes tanto no impeachment de Fernando
Collor, em 1992, quanto de Dilma, em 2016.
Ao apoiarem a queda de Dilma, as ruas deixaram claro que,
neste momento, apoiam agenda oposta à da ex-presidente. Mesmo tendo sido eleita
pela extraordinária popularidade de seu antecessor e então mentor (Lula), Dilma
abandonou a política econômica que herdou dele. Desta forma, rompeu com o
consenso que vigorava na área econômica desde 1999, desde o início do segundo
mandato de FHC. Abraçou o populismo fiscal sem constrangimento e, em 2015,
reeleita com dificuldade e prometendo aprofundar o que já tinha dado errado,
esboçou correção de rumo ao adotar política fiscal austera, contrariando o que
prometera a seus eleitores. Mas, logo, à semelhança do escorpião da fábula,
voltou ao seu normal, desistiu do ajuste, rompeu com aliados e foi destituída do
cargo.
O capital político do vice Michel Temer, que assumiu a
Presidência em maio de 2016, era implantar a agenda anti-Dilma. Em pouco tempo,
reformas que se diziam impossíveis, como a fixação de um teto para o aumento
dos gastos da União, foram aprovadas no Congresso. No meio do caminho,
entretanto, Temer perdeu seu capital político no episódio da gravação de
diálogo embaraçoso com o empresário Joesley Batista, mas isso, ao contrário do
que imaginou a elite política do país, não abalou o apoio da população à agenda
econômica adotada desde a queda de Dilma.
Essa agenda não é de um grupo político específico, à direita
do espectro partidário. Ela é necessária, urgente, absolutamente racional, de
quem tem um mínimo de consciência, ética e responsabilidade em relação ao
contrato social que rege ou deveria reger a vida dos mais de 200 milhões de
viventes da Ilha de Vera Cruz. Dos presidentes eleitos pelo voto direto desde a
redemocratização, cinco abraçaram essa agenda de uma forma ou outra, deixando
Dilma na incômoda posição de exceção, o que só agrava sua avaliação.
Jair Bolsonaro, deputado de uma nota só (a defesa dos
interesses corporativistas dos militares), percebeu isso, mas Geraldo Alckmin,
do PSDB, e Fernando Haddad, do PT, não. O tucano nunca fez oposição aguerrida
ao PT nem defendeu o receituário econômico com que FHC, a maior liderança de
seu partido, governou o país de 1995 a 2002. O petista defendeu em sua campanha
os anacronismos perpetrados pelas políticas da presidente deposta, o que leva a
crer que Lula, sabido que só ele, colocou Haddad na disputa porque, claro,
sabia que ele trataria de ser derrotado.
Setores da esquerda brasileira que ainda não superaram a
Queda do Muro logo trataram de rotular a agenda em vigor de liberal. É uma
forma de constranger formadores de opinião porque, no Brasil, lucro é coisa do
cão babão.
Bolsonaro é um presidente que incomoda bastante, mas muito
mesmo, quem preza por uma sociedade civilizada, que não tolera discriminação de
qualquer espécie, inclusive, porque é isso o que prescreve a Constituição de
1988. Incomoda seu excesso de gesticulação na área ambiental, onde o Brasil,
desde a Rio 92, se destacou como um ator crucial. Incomoda com seu discurso em
defesa do uso de armas e que tais. Espera-se que tudo isso e muito mais não
ameacem o cumprimento da agenda econômica defendida hoje pela maioria dos
brasileiros.

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