Não se sabe se os governos do mundo terão capacidade de
conter o avanço do novo coronavírus, é óbvio dizer. Teriam capacidade de evitar
que a epidemia ou pandemia derrubem o crescimento das economias? Hum.
Fora da China, o efeito mais evidente da doença é o pânico
nos mercados financeiros, que pode vir a ter impacto na economia real, mas é
apenas uma parte do problema ou seu mero começo.
Como já deve estar claro para qualquer leitor de jornais, a
parada chinesa limita o fornecimento de materiais para indústrias mundo afora,
fábricas que podem vir a produzir menos ou mesmo parar.
As notícias sobre a doença podem também baixar a confiança
de consumidores e levar empresas a colocar o pé no freio de novos negócios. Os
tombaços no mercado financeiro induzem as pessoas a pouparem mais: veem seu
patrimônio diminuir ou pelo menos sentem o cheiro de queimado.
O recurso mais imediato de que os governos dispõem para
conter uma desaceleração econômica é a redução da taxa básica de juros. Mas o
que a política monetária (mexer nos juros) pode fazer a respeito de choques
negativos de oferta (redução e/ou encarecimento abrupto da produção, para
simplificar) e de quedas abruptas na confiança? Muito pouco.
Além do mais, as taxas de juros em todo mundo rico estão em
nível zero ou abaixo de zero, afora nos Estados Unidos, onde de qualquer modo
estão muito baixas. Existem malabarismos monetários para fazer com que as taxas
de juros fiquem ainda mais negativas, mas o efeito disso, ainda mais nesta
situação, parece ser pífio.
Os governos podem gastar mais, é verdade, a fim de dar um
empurrão na economia. Como é tão sabido, aprovar gastos, planejar investimentos
e tocar o início das obras é um processo lento.
É atualmente ainda mais lento devido à grande resistência ao
aumento das dívidas públicas. Seria melhor do que nada, no entanto. Talvez antecipasse
a uma recuperação mais rápida da economia, tudo mais constante.
Mas o mundo gira e a epidemia roda: pode haver mais
novidades ruins. Uma parada súbita em economias centrais teria impacto no
emprego, abatendo ainda mais ou decisivamente o ânimo dos consumidores.
Pânicos em mercados financeiros também podem provocar
acidentes (muita gracinha dos donos do dinheiro grosso apenas é descoberta
quando há variações grandes de preços na finança).
De resto, a parada longa dos negócios tem obviamente implicações
financeiras para as empresas da economia “real”, que podem simplesmente ver o
caixa vazio, o que agora já uma preocupação na China.
É verdade também que uma desaceleração da epidemia pode
inverter ou conter a espiral negativa da confiança. Quanto ao ritmo de expansão
da doença, os chutes são parecidos com os dos “economistas de mercado”.
Há quem aposte em uma desaceleração (ao menos na China) já
na virada para março; para outros, a coisa fica menos feia apenas lá por maio,
graças às quarentenas e barreiras e à chegada do tempo mais quente.
A especulação esperançosa menos irrealista é torcer para que
os governos do mundo sejam capazes de desacelerar a epidemia. Esse seria o meio
mais eficaz de conter o impacto da doença na atividade econômica, muito mais
que a política econômica, para nem falar, obviamente, na contenção do desastre
humanitário. Ênfase no “seria”.
Por ora, a julgar pelo que dizem entendidos médicos e
economistas mais razoáveis, ainda se trata de uma questão de fé.

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