Não existem políticas monetária e fiscal que salvem o
crescimento da economia neste ano, segundo disse ao Valor uma importante fonte
da área econômica. “Quem está falando em crescimento zero do PIB [Produto
Interno Bruto] em 2020 está sendo otimista”, acrescentou. O entendimento
predominante no comando do Ministério da Economia é que medidas fiscais e
monetárias serão adotadas para preservar vidas e empresas, principalmente, e
para evitar que a crise se prolongue por tempo excessivo.
Esta fonte lembrou que, há 15 dias, o mercado ainda
acreditava que era possível o Brasil crescer 1,7% neste ano. “Hoje, vários
analistas estão projetando recessão”, disse. A mudança de cenário está
ocorrendo muito rapidamente, o que mostra que os efeitos da crise do novo
coronavírus na economia estão se disseminando em velocidade exponencial, da
mesma forma que a contaminação das pessoas, apesar das medidas de política
monetária que o Banco Central vem adotando.
Qual será o custo para os cofres públicos das medidas
fiscais que serão adotadas pelo governo? Ninguém sabe. Tudo dependerá das ações
adotadas para dar sustentabilidade ao combalido sistema de saúde do país,
garantir uma renda mínima aos trabalhadores que serão diretamente atingidos
pela desaceleração da economia e estímulos fiscais que permitam às empresas,
não apenas as pequenas, manterem seus negócios, evitando uma recessão ainda
mais profunda. Tudo isso representará custos adicionais aos cofres públicos.
Também não é possível projetar o resultado fiscal deste ano.
Tudo vai depender do montante da despesa adicional e da redução das receitas,
em decorrência da desaceleração da economia. Neste momento, os técnicos do
Ministério da Economia estão fazendo projeções com vários cenários para o
crescimento do PIB, para os juros, a inflação e o preço do petróleo. Em uma
estimativa preliminar, que não considera a recessão e a não aprovação do
projeto que permitirá a privatização da Eletrobras, a receita da União vai cair
pelo menos R$ 70 bilhões em relação ao que está projetado no Orçamento deste
ano.
Há ao menos duas certezas neste momento. As medidas que
serão adotadas para minorar os efeitos causados pela epidemia do coronavírus
vão aumentar substancialmente o déficit primário deste ano e também a dívida pública
bruta, pois as despesas adicionais serão feitas com aumento do endividamento.
Qual será a nova estimativa para o déficit público neste ano? Ninguém sabe.
Poderá superar R$ 250 bilhões, dependendo das medidas que o governo será
obrigado a adotar para salvar vidas e empresas. “O resultado primário das
contas públicas passou a ser secundário”, disse ao Valor uma importante fonte
da área econômica.
Há um custo adicional para o Tesouro a ser considerado,
pois, da mesma forma como ocorreu durante a crise financeira internacional de
2008, o governo federal terá, necessariamente, de ajudar financeiramente os
governos estaduais e as prefeituras. Os Estados e municípios também terão forte
queda de receita em virtude do desaquecimento da economia. Como os brasileiros
moram nos municípios, é lá em que os maiores problemas sanitários irão ocorrer
e a ajuda federal será indispensável, mesmo porque, ao contrário da União,
governadores e prefeitos têm limites rígidos de endividamento.
A fim de abrir espaço para fazer os gastos necessários ao
combate do novo coronavírus, a ideia inicial do Ministério da Economia era
simplesmente aumentar a meta de déficit primário deste ano, que está atualmente
fixado em R$ 124 bilhões. Isso seria feito com o envio de uma proposta ao Congresso
Nacional, alterando a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).
No dia 22 de março, o governo terá que divulgar o relatório
de avaliação de receitas e despesas da União. Neste momento, a equipe econômica
mostraria o tamanho do rombo nas contas e o montante do contingenciamento das
dotações orçamentárias que deveria ser feito. Nesta estratégia, o governo
anunciaria os cortes. Depois que a mudança da LDO fosse aprovada pelo
Congresso, o que poderia ocorrer em duas semanas, o governo anunciaria um
descontingenciamento das dotações.
O problema desta estratégia, que foi discutida na reunião da
Junta Orçamentária realizada no Palácio do Planalto na terça-feira, é que o
cenário da economia está muito volátil e ninguém sabe onde vai parar. Não é
possível para a equipe econômica também dimensionar o valor das despesas
adicionais que o Tesouro terá que bancar durante a crise do novo coronavírus.
Assim, havia o risco, ao adotar essa linha de atuação, de definir uma nova meta
de déficit que poderia ser superada meses depois, forçando o governo a pedir
nova mudança de meta ao Congresso, com grande desgaste político.
A opção foi por acionar o artigo 65 da Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF), como o Valor tinha antecipado no dia anterior.
Este artigo da LRF permite que o governo decrete situação de calamidade pública
e, com isso, deixe de cumprir a meta fiscal do ano, entre outras vantagens.
Também são dispensadas licitações ou concorrência pública para compras e obras
emergenciais. A calamidade, no entanto, precisa ser reconhecida pelo Congresso.
Na situação de calamidade, o governo deverá adotar um
receituário parecido com aquele utilizado pelo governo do ex-presidente Luiz
Inácio Lula da Silva na crise financeira internacional de 2008. Ou seja, será
necessário garantir liquidez às empresas, fazer desonerações que reduzam custos
de produção e conceder estímulos fiscais, além de programas de ajuda financeira
às pessoas. “Mas o essencial é não fazer igual ao que o PT fez”, advertiu um
integrante do governo. “O PT tornou permanente medidas que deveriam ser apenas
emergenciais”, explicou. E esta teria sido uma das principais causas da crise
que resultou na maior recessão da história do país.
A maior preocupação da atual equipe econômica é justamente
esta, não passar a ideia ao mercado que está adotando uma política semelhante
àquela que teria levado o país à bancarrota. “A partir do próximo ano, quando a
crise do coronavírus passar, teremos que ter uma trajetória de redução do
déficit e de reequilíbrio das contas públicas”, previu a fonte. A estratégia,
portanto, é evitar aumento de despesa obrigatória permanente, pois, do
contrário, não será possível manter o teto de gastos quando a crise do novo
coronavírus for superada.
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