A liberdade de imprensa é um bem da sociedade, quando um
jornalista é atacado isso corrói a democracia. Quando acontece, como agora, a
agressão a uma jornalista, de forma desrespeitosa, todas as mulheres em
qualquer profissão ficam mais vulneráveis. Essas declarações são da ministra
Cármen Lúcia do Supremo Tribunal Federal (STF), que eu entrevistei ontem, sobre
violência contra a mulher e as recentes ofensas a jornalistas. Sobre o
crescimento da violência contra a mulher, ela disse que isso define o país. “Uma
sociedade que bate em mulher, mata a mulher, não é uma sociedade do bem-estar”.
No domingo será o Dia da Mulher, e como em todos os anos os
debates ocorrem antes e depois do dia 8. E é fundamental que o tema esteja em
pauta porque tem aumentado muito os casos de feminicídio e de agressões físicas
e verbais. A ministra falou também de outro tipo de violência, a que se dá
através da exclusão de participação. A mulher é sub-representada em qualquer
instância da estrutura de poder. Inclusive no Judiciário:
— Vamos ter eleição este ano, mas não teremos no TSE nenhuma
mulher, nem como substituta. Saindo a Rosa (ministra Rosa Weber) não teremos
nenhuma. Passei uma resolução no Conselho Nacional de Justiça para tentar
colocar mais mulheres nos órgãos colegiados. Vejo uma luta enorme das mulheres.
É preciso olhar o conjunto, porque somos uma sociedade machista. Não gostar de
mulher é direito, ofender a mulher é crime. É preciso respeito por todos.
Perguntei especificamente sobre as agressões contra as
mulheres jornalistas que houve recentemente através das redes sociais,
estimuladas por pessoas do governo, inclusive o presidente:
— Acho isso muito grave. Primeiro é mais uma manifestação de
um Brasil varonil. O Brasil é feito só de varões? No caso de profissões como a
do jornalismo que dão voz e vez aos que não têm as informações, nem a voz para
se manifestar. A imprensa cumpre esse papel. Não há democracia sem imprensa
livre. Não há democracia sem que o jornalista possa exercer de forma
independente, plenamente e sem peias, a sua profissão. O que seria de nós se
não houvesse uma imprensa livre, disposta a falar. Nós cidadãos dependemos
dela, nós, inclusive, servidores públicos. Quando está bem, a imprensa elogia,
como acontece agora com o ministro da Saúde. Por outro lado, essa mesma
imprensa tem o dever de crítica para que a gente saiba o que precisa melhorar.
Segundo, a agressão à imprensa é um mal que é feito a toda a sociedade, porque
isso corrói a democracia. No caso de uma jornalista criticada dessa forma
desrespeitosa, quando isso acontece é como se todas as mulheres em todas as
profissões ficassem mais vulneráveis.
A ministra falou também de um outro efeito colateral. A de
que jovens jornalistas possam se sentir intimidados, diante do ataque aos
profissionais mais experientes e mais reconhecidos na profissão.
Perguntei sobre o risco do avanço da censura, e a ministra,
autora do contundente voto “cala a boca já morreu”, deixou claro que nenhuma censura
é tolerável:
— Não pode haver censura. A Constituição não permite nenhuma
forma de censura. Simples assim. Constituição é lei. Não é aviso, não é
proposta, não é sugestão. Não é alternativa para se cumprir ou não. Quando se
censura, você não amordaça apenas uma pessoa, mas põe um cala boca na história
de um povo.
Sobre o atual conflito entre poderes, a ministra Cármen
Lúcia disse que isso também contraria o espírito da lei maior.
— A Constituição brasileira estabelece expressamente que os
poderes são independentes e harmônicos entre si. Os agentes públicos que ocupam
cargo nos órgãos de cúpula de todos os poderes têm o dever constitucional de
não contribuir para a desarmonia. Se a Constituição determina harmonia, a
desarmonia é inconstitucional. Simples assim.
Ao fim da entrevista, a ministra voltou a falar da
discriminação contra a mulher, contando que o texto constitucional é até
redundante para deixar claro. Estabelece a igualdade, e depois fala de não
haver diferença entre homens e mulheres:
— O que a gente busca é a igualação, a dinâmica da
igualdade, a conquista de novos espaços, é vencer o preconceito. É preciso
respeito pela palavra do outro, pela mulher, pelo índio, pelo gay. Nós
merecemos respeito, todos nós pela humanidade.

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