Trauma da Guerra do Paraguai iniciou aversão brasileira a
conflitos
No dia 1º de março, o Brasil completou 150 anos
ininterruptos de paz com seus dez vizinhos. Nenhum outro país com tão vasta
vizinhança ostenta essa tradição pacífica.
Em 1º de março de 1870, terminava, com a morte do ditador
paraguaio Francisco Solano López, a Guerra do Paraguai contra a Tríplice
Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai. Em Assunção, manifestações
oficiais relembraram a efeméride; no Brasil, passou em brancas nuvens.
Repetiu-se o que ocorrera no centenário do fim do conflito
(1970). Nos cinco anos anteriores à data, os jornais guaranis recordaram dia a
dia o que acontecera um século antes. O Brasil guardou silêncio, fiel à lição
do barão do Rio Branco de que há vitórias que não se devem comemorar.
Somente no aniversário do fim do conflito, o ministro do
Exército emitiu nota exemplar, afirmando que o Brasil tinha preferido esperar
para comemorar cem anos de paz a um século de guerra. Era, e é, a melhor
maneira de celebrar a maior tragédia da história sul-americana.
Passado tanto tempo, a Guerra do Paraguai continua a
suscitar acusações e dúvidas que merecem esforço de elucidação. A quem cabe,
por exemplo, a culpa pelo conflito?
As hostilidades começaram em 11 de novembro de 1864, quando, sem declaração de guerra, os paraguaios capturaram o vapor brasileiro que conduzia o presidente (espécie de governador) designado para Mato Grosso. Em fins de dezembro, duas colunas invadiram o território mato-grossense.
As hostilidades começaram em 11 de novembro de 1864, quando, sem declaração de guerra, os paraguaios capturaram o vapor brasileiro que conduzia o presidente (espécie de governador) designado para Mato Grosso. Em fins de dezembro, duas colunas invadiram o território mato-grossense.
López protestara em agosto de 1864 contra a intenção brasileira
de intervir na guerra civil uruguaia e advertira o Brasil das consequências de
um ataque a seus aliados do Partido Blanco. Não houve, no entanto, nenhuma
ameaça ou agressão direta contra o Paraguai da parte da Corte do Rio de
Janeiro.
Não existia, assim, justificativa para o Paraguai invadir o
Mato Grosso, em seguida o Rio Grande do Sul e ocupar Uruguaiana. Aliás, a fim
de atacar o território gaúcho, López violou o território argentino,
possibilitando a aliança com o Brasil que não teria ocorrido sem essa
provocação.
Como se explica que um país cuja população em 1860 se
estimava em cerca de 400 mil habitantes desafiasse a Argentina, com 1,7 milhão,
o Brasil, com 9 milhões, e o Uruguai, com 250 mil, num total de menos de meio
milhão contra 11 milhões?
A explicação emerge da comparação dos efetivos dos exércitos
prontos a entrar em combate, em que o Paraguai levava vantagem de quase três
contra um (77 mil homens contra 18.300 do Brasil, 6 mil da Argentina e 3.100 do
Uruguai, totalizando 27.400 aliados).
Daí a estratégia de López de tentar, por meio do efeito
surpresa de uma ofensiva fulminante, vitória que lhe permitisse resolver em
favor de seu país as questões fronteiriças e de liberdade de navegação
pendentes com o Brasil. Fracassada a guerra-relâmpago com a derrota guarani na
batalha naval do Riachuelo e a capitulação das forças de ocupação de Uruguaiana
(setembro de 1865), só então a luta se deslocou para o território paraguaio,
invadido pelo Passo da Pátria (abril de 1866).
Seguiu-se vagaroso avanço aliado até que, já sob o comando
do Duque de Caxias, a guerra entrou na decisiva fase das batalhas da dezembrada
(dezembro de 1868), culminando na ocupação de Assunção (1/1/1869).
Doente, Caxias retornou ao Rio, convencido de que o conflito
acabara. Temendo que o perigo só cessaria com o fim de López, dom Pedro 2º
resolveu continuar a luta, numa decisão controvertida, análoga à tomada pelos
Aliados contra Hitler.
A guerra se prolongaria ainda por 15 meses, durante os quais
se concentrou boa parte do pior em matéria de devastação, atrocidades, morte em
combate de crianças e da maioria da população masculina paraguaia. Os números
dessa época são incertos, mas o Paraguai pode ter perdido 250 mil vidas, mais
da metade de seus habitantes.
Dos 140 mil brasileiros que participaram da guerra, morreram
cerca de 50 mil, mais de um terço, aos quais se somam 18 mil dos 30 mil
argentinos e 5 mil dos 5.500 uruguaios. Mais de dois terços pereceram não em
combate, mas em consequência de doenças, fome, exaustão e migrações forçadas da
população civil obrigada a seguir o ditador.
O esforço de guerra custou ao Brasil o equivalente a 11 anos
do Orçamento anual, gerando déficit contínuo nas duas décadas seguintes. Foi o
que inspirou o célebre desabafo do barão de Cotegipe: “Maldita guerra,
atrasa-nos meio século”.
Iniciada quando findava a Guerra de Secessão americana, a do
Paraguai se assemelha a ela na duração e ferocidade da luta, antecipando o
estilo de conflito total do futuro. Guardadas as proporções, os danos em vidas
e destruição foram também devastadores.
Para o Império brasileiro, ela encerra o ciclo de choques
militares com os vizinhos da bacia do Prata, iniciado logo depois da
Independência com a Guerra da Cisplatina (1825 a 1828) e prosseguido com as
intervenções no Uruguai e na Argentina após 1850. Sequência dos atritos
coloniais entre Espanha e Portugal, essa fase instável termina com a
consolidação dos Estados nacionais e de suas fronteiras nas décadas finais do
século 19.
Joaquim Nabuco julgou que a Guerra do Paraguai teve
importância tão decisiva para os destinos dos países do Cone Sul que pode ser
considerada o “divisor de águas” da história dessas nações. Ela teria marcado o
“apogeu do Império, mas dela também procedem as causas principais da decadência
e da queda da dinastia”.
O triunfo da monarquia representou o brilho final de uma
estrela que se apagava. Por volta de 1880, a política exterior do Brasil
atingira todos seus objetivos: afastara do poder seus inimigos em Assunção,
Montevidéu, Buenos Aires; evitara a eventual reconstituição de uma união dos
demais contra o Império; obtivera a livre navegação dos rios e as fronteiras
que desejava com uruguaios e paraguaios.
Depois de 30 anos de variados conflitos, era como se a
monarquia, exausta, tivesse perdido a energia para reformar-se a si própria,
modernizando a estrutura social do país, debilitada pela escravidão.
Nessa mesma época, a Argentina e, em menor grau, o Uruguai
logravam pôr fim à longa instabilidade da fase formativa, atraíam capitais
ingleses e imigrantes europeus que as transformariam em nações mais modernas e
prósperas que o Brasil.
A Guerra do Paraguai é tema histórico que se presta a
controvérsias e geração de mitos a serviço de interesses ideológicos e
políticos. O revisionismo argentino inventou a tese fantástica de que a causa
de tudo seria a influência da Inglaterra imperialista. Entre os absurdos da
fábula, omite-se que, no começo do conflito, o Brasil estava de relações
rompidas com Londres desde a Questão Christie (1862 a 1865).
A tese deu origem no Brasil a panfletos como o que denunciou
o suposto genocídio que teria provocado 1 milhão de vítimas num país cuja
população não atingia nem a metade desse número. A pior distorção, obra tardia
de partido político paraguaio, consistiu na metamorfose do tirano sanguinário
que foi Solano López num estadista sacrificado no altar da pátria.
Quem desejar pisar em terreno firme nessas questões, dispõe
de reconstituição primorosa da terrível tragédia, “Maldita Guerra”, de
Francisco Doratioto, maior conhecedor brasileiro de história paraguaia. Livro
até agora definitivo pela solidez da análise dos documentos, dele extraí dados
e análises deste artigo.
A Guerra do Paraguai e as intervenções no Prata nos legaram
herança amarga de perdas humanas e atraso econômico e social. Data da guerra
encerrada um século e meio atrás a “questão militar”, a tendência do Exército
de intervir na política, um dos fatores da queda da monarquia e fenômeno
perturbador da democracia que se prolonga até nossos dias.
Os brasileiros como Rio Branco e Nabuco, que viveram na
juventude as angústias da luta contra o Paraguai, adquiriram horror à guerra e
às intervenções em países estrangeiros. Passaram a cultivar diplomacia avessa a
julgar publicamente os demais, escrupulosa na observância do princípio de não
se imiscuir na política interna dos vizinhos.
O esquecimento dessas lições de nossa história abriu caminho
à volta da prática lamentável de condicionar a amizade com os vizinhos a
distorções ideológicas. Não surpreende que isso tenha provocado perigosa
deterioração do relacionamento com a Venezuela, a ponto de gerar tensão militar
na fronteira e grave retrocesso na relação com a Argentina, nosso principal
vizinho.
A República inseriu em sua Constituição a proibição da
guerra de conquista. Posto à prova na crise do Acre, quando o país chegou perto
do conflito, o compromisso com a paz foi mantido graças ao gênio diplomático de
Rio Branco, que não se cansava de repetir que “o recurso à guerra é sempre
desgraçado”. Mais tarde, nos anos 1970, o Tratado de Itaipu deu impulso ao
projeto bilateral para ajudar o Paraguai no seu desenvolvimento econômico-social.
Finalmente, o ex-presidente José Sarney inaugurou com o
ex-presidente argentino Raul Alfonsín processo de edificação de confiança mútua
que culminaria em duas das maiores conquistas da política externa: o Mercosul e
o abandono dos projetos secretos para construir a bomba atômica.
Superando dois séculos de confrontos, essas duas realizações
complementares transformaram a bacia do Prata de antigo cenário de guerras em
espaço de integração entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Nosso dever é
não permitir que desvarios ideológicos ponham em risco a tradição de paz com os
vizinhos, maior título de glória do povo brasileiro.
*Rubens Ricupero, foi secretário-geral da Conferência das
Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, ministro do Meio Ambiente e da
Fazenda (Governo Itamar Franco) e embaixador em Genebra, Washington e Roma.
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