Nossa melhor esperança para uma volta à normalidade é o
desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19. Há uma verdadeira corrida
mundial por um imunizante. Apenas três meses após a identificação da doença,
surgiram vários candidatos a vacina, alguns dos quais já estão sendo ministrados
a humanos para testar a segurança e a intensidade da resposta imune.
É um feito notável, considerando que avanços em pesquisas de
novas vacinas costumam medir-se em anos, não em meses. Ainda assim, não temos
nenhuma segurança de que poderemos contar logo com um imunizante, se é que o
Sars-Cov-2 é um vírus “vacinizável”. Nem todos são. Um prazo muito repetido na
imprensa é o de um ano e meio a dois anos para um produto que possa ser usado
em escala comercial.
Enquanto isso, na blogosfera nerd norte-americana, já há
quem cogite apelar para a variolação. Para os muitos leitores que não devem
estar familiarizados com o termo, a variolação é o ancestral das vacinações.
Historicamente, consistiu em inocular pessoas com uma dose baixa do vírus da
varíola, o que normalmente produzia uma infecção branda, mas que ainda assim
proporcionava imunidade.
Da China medieval à África do século 20, foi praticada em
diferentes épocas em várias partes do mundo. Caiu em desuso depois que Edward
Jenner desenvolveu a primeira vacina de verdade contra a doença, no final do
século 18.
A ideia de inocular propositalmente o Sars-Cov-2 em
voluntários parece hoje maluca, mas, dependendo de como a epidemia evoluir,
poderá deixar de ser. Meu receio, se a proposta dos passaportes de imunidade
—que, diga-se, faz todo o sentido— prosperar, é que gente vulnerável que
precisa desesperadamente trabalhar adote uma forma selvagem de variolação,
expondo-se ao vírus sem preocupar-se com a dose no contágio nem com o
necessário isolamento posterior, o que só agravaria a situação.

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