Se hoje o presidente da República batesse à porta das
pessoas sugerindo estricnina para tratar cólicas, possivelmente não seria
removido em uma camisa de força. Provavelmente surgiria aí um debate nacional.
Especialistas de coisa nenhuma sairiam dos bueiros para adulá-lo, o bom senso
se insurgiria, carreatas de novos e velhos ricos cafonas enfeariam as ruas e
estaria instalada mais uma balbúrdia.
A atual pandemia já matou mais de 100 mil pessoas, com uma
média subestimada de cerca de 100 mortos por dia no Brasil. Brincar com isso,
desprezar isso, é só irresponsabilidade?
Entre um passeio e outro à padaria, Bolsonaro se insurge
contra o mundo e busca sabotar o trabalho do ministro que se recusou a aderir
ao batalhão dos paspalhos.
Em um caso que envolve vidas, muito mais de cem mil, você
prefere estar ao lado da ciência, do bom senso, da razão ou ao lado da ala
cafajeste do empresariado e de gente como o profeta Osmar Terra, que há alguns
dias disse que a Covid-19 mataria menos gente do que a gripe sazonal do Rio
Grande do Sul. Era uma aposta corajosa, que, em suas próprias palavras, poderia
desmoralizá-lo por completo —e nesse ponto não podemos negar que ele estava
coberto de razão.
Poupem-me da suposição de que Bolsonaro esteja preocupado
com os miseráveis. Em toda a sua longa carreira política,só se lembrou de
pobres para defender a sua esterilização em massa. O presidente nem esconde que
seu real temor é ser culpado pela debacle econômica, levando seu governo, de
vez, para o beleléu.
Não há, em um momento como esse, “ninguém em sã consciência
preocupado com popularidade”, assegurou nesta segunda (13) Sergio Moro, mestre
em dizer pouco falando muito e em dizer muito não falando nada.
Embora também odeie artigos que deixam as perguntas no ar,
transfiro ao leitor e à leitora a conclusão.É correto chamar Bolsonaro só de
irresponsável? Como diziam e dizem colegas muito mais gabaritados do que eu,
cartas à Redação.

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