A história humana é marcada pela tensão entre os benefícios
de nos aglomerarmos em cidades e os custos das doenças infecciosas. Assim
observou Matthew Yglesias, do jornal Vox, sobre o coronavírus. Já no ótimo
livro Cidade Caminhável, pré-covid, o urbanista Jeff Speck pontificara sobre as
vantagens do adensamento, criticando as espaçadas cidades americanas baseadas
em desenhos tidos como mais salubres.
Os ganhos econômicos da cidade densa podem ser vislumbrados
em um “experimento” do governo americano no século passado, que pagou para que
famílias pobres se mudassem para partes ricas de sua cidade. Como mostrou Raj
Chetty, de Harvard, a nova vizinhança se mostrou fundamental para a mobilidade
social. Isto é, o bairro em que uma criança cresce afeta o seu salário quando
adulto.
Ainda que o mecanismo não seja completamente compreendido
pelos economistas, especula-se que estar mais próximo de melhores serviços e de
pessoas mais escolarizadas e de maior renda contribua para o resultado. Assim,
cidades com regras rígidas de construção, ao empurrar os mais pobres para
periferias distantes, os sentenciariam a um futuro pior.
Ninguém deve fazer isso tão bem quanto a aniversariante do
dia, Brasília. Passadas seis décadas da sua inauguração, sua utopia de
igualdade deu lugar a umas das capitais mais desiguais do Brasil. Seu
zoneamento rígido faz com que parte expressiva da população tenha de viver bem
longe do seu Plano-Piloto. A partir dali, garimpam oportunidades em uma
economia em que boa parte da renda é distribuída pelo instrumento elitista do
concurso público.
As anedotas são abundantes. Mais de 300 mil pessoas moram em
Águas Claras ou em Águas Lindas. A primeira é espécie de zona franca das
restrições do distante Plano-Piloto, vendida por corretores de imóveis como a
“Manhattan do Cerrado”. Edifícios altos, próximos uns dos outros, sem os
enormes descampados do plano de Lúcio Costa. Dos anos 90 para cá, Águas Claras
virou destino de uma elite que não está disposta aos preços inflados do avião.
“O coronavírus chegou em Brasília, já fez dois concursos e financiou um
apartamento em Águas Claras”, diz a piada.
Os nomes são parecidos, mas Águas Claras contrasta com Águas
Lindas. A primeira tem o IDH da Noruega, a segunda, o da Palestina. Ali moram
os que rumaram para Brasília, mas não conseguiram lugar nos quase 6 mil km2 do
Distrito Federal. Águas Lindas já é o quinto município mais populoso de Goiás.
É um dos mais violentos do Brasil, com taxas de homicídios que rivalizam com as
da Baixada Fluminense.
Dentro do DF, a cidade planejada convive com o que pode ser
a maior favela do Brasil: se chama Sol Nascente. De ocupação recente, ela se
situa nas imediações da cidade-satélite de Ceilândia. Ceilândia foi criada nos
anos 70, com a realocação de populações que ocupavam áreas públicas no
Plano-Piloto, no âmbito da Campanha de Erradicação de Invasões (CEI, que
batizou a cidade). O Sol Nascente é a Ceilândia da Ceilândia.
Ceilândia aparece nos versos de Faroeste Caboclo, a famosa
canção de Renato Russo de 1987 (é o lugar onde o protagonista é assassinado). O
filme, de 2013, porém, não foi filmado lá: para imitar as condições da
cidade-satélite brasiliense na época, as cenas foram filmadas nas ruas sem asfalto
do Jardim ABC. Essa “nova Ceilândia” fica formalmente em um município goiano. A
apenas 2 km dali, ergue-se um gigantesco condomínio, franquia do Alphaville na
capital de maior PIB per capita do País.
Há exatos dez anos, Niemeyer afirmava que a evolução do
desenho igualitário para uma cidade desigual o entristecia, no que avaliou como
“divisão intolerável”.
Após o trauma da pandemia e diante do remédio do
distanciamento social, o economista Tyler Cowen receia que esse tipo de
zoneamento excludente ganhe ímpeto, à medida que fortaleça o movimento
conhecido como Nimby (“no meu quintal não”, em inglês). São os que defendem
regras rígidas para as construções a fim de evitar a desvalorização dos seus
imóveis e mais trânsito na vizinhança – às vezes, também com alegadas
preocupações ambientais.
Já no polo contrário, a visão liberal se preocupa com a
redução da oferta de imóveis que pressiona o preço dos aluguéis, e com o
espraiamento decorrente que afasta os mais pobres de oportunidades. O êxito no
combate à pandemia de metrópoles densas como Hong Kong e Cingapura deverá ser o
contraexemplo contra a brasilianização.
Este é um ano de eleições municipais: a experiência de
Brasília mostra que elas podem importar tanto para a desigualdade quanto o que
se decide no Congresso Nacional.
* DOUTOR EM ECONOMIA

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