Desde que o
presidente Jair
Bolsonaro venceu a eleição presidencial de 2018, foi exibido
ao teatro político nacional uma inédita moldura de como o Brasil
pretendia defender
os seus interesses estratégicos e projetar o seu poder nas relações
internacionais.
Apesar das
desconfianças e da perplexidade com a heterodoxia da nova orientação da
“política exterior” do País, políticos, diplomatas, militares, acadêmicos e
empresários imaginaram que a realidade iria servir como barreira
natural de contenção para as descalibradas aventuras que se
prenunciavam e o pragmatismo, logo acabaria, com o tempo, predominando sobre a
frívola proposta que foi apresentada à Nação.
O novo corolário
doutrinário das relações exteriores do País trazia consigo um equívoco de
concepção: desprezar na largada os tabuleiros de fácil e imediata maximização
dos interesses nacionais em troca da projeção de hipotéticas vitórias em
tabuleiros mais volúveis e de alta complexidade – e isso, obviamente, sem os
necessários recursos que delimitam o poder real de dissuasão de um país.
China
e EUA foram transformados em dilema. O presidente, durante a campanha e após a campanha, não poupou
esforços para atacar um país e louvar o outro. O inquilino da Casa Branca
tornou-se referência moral e padrão estratégico a ser seguido pelo Palácio do
Planalto. Até os erros, inertemente, são macaqueados.
No marco dessa
difusa equação, a reafirmação de lealdade a esse alinhamento passou a estar
consubstanciado no constante
antagonismo com a China, na agressividade retórica na América do Sul e
no abandono do equilíbrio dos temas médio orientais.
O bolsolavismo
acreditava que poderia modular duas narrativas, que, apesar de ambivalentes,
poderiam funcionar sem custo diplomático. Erro crasso! Em seu torpe ideário,
provocar um choque frontal com os chineses serviria a dois propósitos: 1)
alimentar os ignorantes agitadores digitais de sua bolha ilusória nas redes
sociais; e 2) reforçar os laços com Washington de aliado obediente e
comprometido com a causa anti-China. A sua turva visão não alcançou, até o
momento, a compreensão de que os EUA querem seguidores e não sócios na partilha
de qualquer espólio comercial envolvendo o mercado chinês.
Irritar a China
publicamente e contemporizar os danos nos bastidores – para capitalizar com
americanos e aplacar a ira dos chineses – é uma estratégia falida. É como
caminhar no fio da navalha com uma granada na cintura.
Os bolsolavistas
não sopesaram em seus cálculos a virulência da reação chinesa. Julgaram que o
pragmatismo chinês amorteceria a sua infantilidade institucional e o que
prevaleceria, ao fim e ao cabo, são os negócios – puxados sempre pelos
competentes adultos do Ministério da Agricultura e pela prudência dos generais.
O governo Bolsonaro
criou um falso e desnecessário dilema para definir o papel do Brasil no
contexto das relações do Brasil-China-EUA. Elevar as relações entre Brasília e
Washington ao patamar de uma parceria estratégica – ou mesmo uma aproximação
nos termos imaginados por Bolsonaro – não deveria excluir a expansão da relação
política e comercial com Pequim. Uma agenda profícua com a China não deveria
implicar, por outro lado, distanciamento dos EUA.
Para jogar no
tabuleiro geoestratégico em meio às duas superpotências mundiais – cujos
recursos de poder são superiores aos nossos –, o Brasil precisa ter clareza das
consequências. Atacar Pequim, sem ter para onde escoar as suas commodities e
sem saber como substituir os investimentos no setor energético e de
infraestrutura do País, é de um amadorismo atroz.
Enquanto o
bolsolavismo não quebrar a criptografia das regras de engajamento que regulam
as relações sino-americanas, é melhor o Brasil manter uma distância segura em
relação a esse embate.
A diplomacia do
governo Bolsonaro não dá sinal de querer ser governada pela razão, pelo
pragmatismo ou em defesa dos interesses estratégicos do País, mas, sim,
monetizar em votos apoiadores fanáticos a serviço de seu projeto de poder –
mesmo que isso arruíne a relação do Brasil com China, França, Alemanha,
Argentina ou o inimigo fabricado da vez.
HUSSEIN KALOUT, 43, é Cientista Político, Professor de
Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário
Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018) e
atuou como consultor das Nações Unidas e do Banco Mundial. Escreve
semanalmente, às segundas-feiras.

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