James Carville é um
consultor político que em 1992 assessorou Bill Clinton na disputa pela
Presidência dos EUA, então ocupada por Bush pai. Reza a lenda que Carville
afixou numa das paredes do comitê de campanha um cartaz com três lembretes para
que o candidato democrata não perdesse o foco durante os debates. Diziam eles:
“Não se esqueça do sistema de saúde”, “Mudança vs Mais do Mesmo” e “A economia,
estúpido”.
Muito antes de
Carville, economistas e cientistas políticos já estudavam as íntimas relações
entre a política econômica e seus impactos nas urnas. Políticos normalmente se
esquecem disso, mas além de eleitores, somos empregados, empresários,
profissionais liberais ou aposentados. E percepções sobre crescimento,
desemprego e inflação afetam nossas decisões de votar tanto ou mais do que
preferências ideológicas ou inclinações por este ou aquele candidato.
William Nordhaus,
vencedor do prêmio Nobel de economia em 2018, lançou em 1974 a hipótese de que
políticos são tentados a se valer da política econômica como estratégia para se
reelegerem ou fazerem seus sucessores. De acordo com sua teoria dos ciclos
político-econômicos, governantes tendem a adotar políticas restritivas no
início do governo, aprovando reformas e apertando o cinto das despesas enquanto
sua popularidade está alta. À medida em que o mandato se aproxima do fim, é
hora de afrouxar as rédeas e expandir os gastos e o crédito, apostando que o
crescimento dos empregos e dos lucros lhes trarão mais votos.
Em 2018, ao se
colocar à disposição de Bolsonaro para ser o seu Posto Ipiranga, Paulo Guedes
prometeu mundos e fundos. Com números espetaculosos, convenceu o ex capitão de
que valeria a pena apoiar um programa amargo de reformas no primeiro ano de
governo (Previdência, privatizações e cortes de despesas), pois dali em diante
os investimentos iriam bombar e o crescimento, deslanchar.
Seguindo a receita
de bolo do ciclo econômico-eleitoral, Guedes persuadiu Bolsonaro de que as
medidas liberais se reverteriam em uma fácil reeleição em 2022.
No entanto, o mesmo
antigo compositor baiano que dizia que “tudo é divino, tudo é maravilhoso”
também nos alertava que “a vida é real e de viés”. E se no início do ano,
quando tudo parecia tranquilo, Bolsonaro já estava incomodado com a demora de
Guedes em entregar os resultados prometidos, a pandemia causada pelo novo
coronavírus torna ainda menos provável que os planos de Guedes se
concretizarão.
Analisando as
pesquisas de opinião pública conduzidas pelo Ibope nos últimos 35 anos, fica
evidente como a gestão da economia foi determinante para as ambições eleitorais
de praticamente todos os presidentes brasileiros. José Sarney, por exemplo, viu
sua aprovação cair da casa dos 70% no lançamento do Cruzado para menos de 10%
após os sucessivos fracassos de seus planos heterodoxos. O mesmo aconteceu com
Collor: engana-se quem imagina que sua popularidade despencou com as denúncias
de corrupção. Com a inflação subindo e a economia em recessão, sua avaliação
positiva já estava abaixo de 20% quando Pedro Collor contou tudo. Daí em diante
foi só ladeira abaixo.
FHC segurou o
quanto pôde para se reeleger, mas viu a sua reprovação crescer de 20% para 50%
com a liberação do câmbio no início de 1999. A partir desse ponto seu segundo
mandato se arrastou em meio a políticas fiscais e monetárias restritivas para
salvar o Real, racionamento de energia e problemas externos como a crise na
Argentina e os atentados terroristas nos Estados Unidos. Como resultado, o
projeto de permanência do PSDB no poder foi abortado com a derrota de José Serra
em 2002.
Lula foi o único
presidente do atual ciclo democrático a conseguir aplicar as recomendações do
manual da teoria do ciclo político-econômico. Com Antonio Palocci no Ministério
da Fazenda, foi dada continuidade à política contracionista de Pedro Malan nos
primeiros dois anos de governo, comprando credibilidade nos mercados interno e
externo. Com o mensalão batendo às portas do seu gabinete, Lula abriu as
torneiras do gasto público e do crédito dos bancos oficiais para estimular a
economia e impulsionar sua popularidade. Sua aprovação subiu de 30% em meados
de 2005 para atingir impressionantes 80% em 2010, atropelando a crise
financeira de 2008 e elegendo com facilidade a sua sucessora para o Palácio do
Planalto.
A história de Dilma
na Presidência pode ser contada em três atos.
Enquanto a economia
rodava acelerada pela política expansionista de Guido Mantega, seus índices de
aprovação giravam em torno de 60%. A insatisfação popular com a classe política
irrompeu com os protestos de rua de 2013, e dali até a reeleição Dilma se
equilibrou entre 30% e 40% de popularidade.
Mas então a
tempestade perfeita se formou: os excessos econômicos do passado cobraram seu
preço no mesmo momento em que o maior escândalo de corrupção da história
brasileira atingia o PT e os principais partidos da coalizão governista. Com
sua reprovação batendo em 70% da população, todos sabem o que aconteceu.
A crise da covid-19
marca o fim prematuro da primeira fase do governo Bolsonaro. Ninguém sabe qual
será o saldo macabro de mortes da pandemia no Brasil, e muito menos qual a
duração e a gravidade dos seus efeitos econômicos. Simulações do Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID) estimam que a economia brasileira
crescerá de 2,3% a 4,4% menos do que o esperado, enquanto no mercado já há
instituições financeiras que trabalham com uma recessão de 5%, segundo o
boletim Focus do Banco Central.
Se o cenário de
desemprego recorde e quebradeiras no setor privado se concretizar, e de mãos
atadas pela piora fiscal provocada pelas medidas de socorro contra a pandemia,
a maldição de Carville (“é a economia, estúpido!”) assombrará os 30 meses que
separam Bolsonaro das eleições de 2022. Haja cloroquina para tentar evitar a
queda na sua popularidade.
*Bruno Carazza é
mestre em economia, doutor em direito e autor de “Dinheiro, Eleições e Poder:
as engrenagens do sistema político brasileiro”.

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