Não sou médico, nem
cientista. É uma temeridade escrever sobre a cloroquina agora que sua
composição química ganhou componentes ideológicos. Abordo o tema com minha
experiência da campanha contra a Aids, que pude seguir ativamente, com mandato
e sem estar preso em casa.
Desconfio também da
experiência do general que vê na batalha de hoje uma repetição da batalha do
ano passado, do político que vê na campanha atual uma réplica da campanha
anterior.
Ainda assim, vou
tateando. No combate à Aids ficou mais ou menos evidente que nenhum remédio em
si era uma espécie de bala de prata contra o vírus. Os remédios eram combinados
num coquetel.
Imagino que alguma
coisa assim esteja acontecendo no combate ao coronavírus. Quando surgiram os
rumores da pesquisa francesa liderada por Didier Raoult, Trump ainda não havia
anunciado sua predileção pela cloroquina.
Os rumores na
internet eram de que a hidroxicloroquina estava associada à azitromicina e que
estava sendo usada no Hospital do Coração.
Liguei para
confirmar, e o hospital desmentiu, dizendo que aquilo era fake news. Não
noticiei nada, porque achava que, mesmo com desmentido, haveria corrida.
Nos EUA, Anthony Fauci,
o homem que comanda a luta contra o coronavírus, fez também uma advertência
sobre o perigo da notícia, pois os estoques poderiam ser esgotados.
Em seguida, li a
história de um médico chinês de pouco mais de 30 anos, imigrante nos EUA. Ele
foi contaminado pelo coronavírus e esteve entre a vida e a morte. A colônia
chinesa estabeleceu os contatos com Wuhan, cujos médicos tinham já uma grande
experiência. Recomendaram hidroxicloroquina com Kaletra, um remédio usado
também contra a Aids. Isso fortaleceu para mim a ideia de que a cloroquina
estava associada a um outro remédio, uma tática combinada como foi, guardadas
as proporções, no caso da Aids.
Continuei atento ao
movimento dos chineses, com os poucos recursos que tenho para segui-los. Li que
a China pirateou outro remédio experimental contra o coronavírus, o Remdesivir.
A patente é da
empresa americana Gilead, que deve faturar mais de US$ 2,5 bilhões com ele,
apesar do avanço chinês sobre sua fórmula.
O Remdesivir é um
antiviral mas não pode também ser considerado uma bala de prata. Seu uso foi
aconselhado pela Agência Europeia de Medicina em casos muito graves, como um
tratamento compassivo.
De novo, apesar de
serem batalhas diferentes, a experiência da luta contra a Aids ilumina o
caminho, até que uma outra luz mais forte e direta me conduza.
O Brasil resolveu
inicialmente o problema da cloroquina comprando-a da Índia. Esse país vende
remédios assim como a China vende equipamentos médicos. O Ocidente se aproveita
dos preços baixos de ambos até que descobre sua dependência.
Mas em breve
poderemos chegar à possibilidade de um coquetel ou uma simples associação de
remédios. Nesse momento, veremos a possibilidade de distribuí-los
gratuitamente.
Foi assim com o
coquetel da Aids. Muita discussão com a equipe econômica por causa dos custos.
O problema seguiu adiante mesmo depois da vitória da gratuidade.
Apareceu então, com
intensidade, o problema das patentes. Até que ponto um respeito religioso pelos
direitos dos laboratórios multinacionais não era um obstáculo para a salvação
das vidas?
Felizmente, na
época, tínhamos um ministro da Saúde, José Serra, que compreendeu bem o dilema
e soube defender o que me parece uma posição correta no debate planetário sobre
patentes.
A cloroquina,
graças ao empenho de Trump e Bolsonaro, ganhou destaque na cena, mas o
Remdesivir, a julgar pela apropriação chinesa, também merece um exame.
Na verdade, há pelo
menos oito atores, remédios em teste, que foram ofuscados pela cloroquina e
mereciam mais atenção. Nenhum deles é de direita ou de esquerda. São fórmulas
químicas, e sinto-me meio acaciano a formular essa frase.
No entanto, o vírus
já foi politizado, os remédios são politizados de uma forma equivocada. A
questão que nos espera é testá-los adequadamente e garantir que cheguem às
pessoas e discutir os direitos de patente num mundo devastado pela pandemia.
Artigo publicado no
jornal O Globo em 13/04/2020

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