Um meme circulou nesses dias na internet mostrando animais
invadindo cidades vazias em razão do isolamento contra a contaminação do
coronavírus. Há quatro imagens. A primeira mostra cervos nas ruas de uma cidade
no Japão. Na segunda veem-se cabras circulando num adensamento urbano no País
de Gales. A terceira são peixes nas agora cristalinas águas de Veneza. E a
quarta mostra brasileiros vestidos de verde e amarelo, pregando a intervenção
militar, a volta do AI-5 e o fim da quarentena, e tem como legenda “gado no
Brasil”.
Era para ser uma brincadeira? Claro. Mas o fato é que a
brincadeira retrata muito bem o tipo de gente que sai às ruas para pedir que se
cometam atentados contra a vida e contra a democracia. São pessoas que se
aglomeram e seguem na mesma direção num comportamento de manada causado por um
agente que eles nem sempre conhecem ou conseguem identificar. No caso dos
bolsonaristas, a origem é o “gabinete do ódio” do Palácio do Planalto. Ou
alguém tem dúvida sobre quem produz as convocações para essa manada? Inquérito
determinado pelo Supremo Tribunal Federal vai responder a essa questão.
As pessoas que carregam cartazes pedindo a intervenção
militar, o fechamento do Supremo e do Congresso parecem estar em estado de
euforia gerado pelo uso da codeína presente em certos xaropes. Os viciados,
quando sob o efeito da droga, são chamados de “bois”, porque ficam muito
excitados, respondem rapidamente a estímulos externos e são facilmente
manipulados. Como não enxergam nada à frente, atropelam tudo o que se interpõe
no seu caminho. Por estarem cegos, acabam sendo violentos.
Veem-se repetidamente agressões a jornalistas ou a qualquer
um que pense de maneira diferente da manada. Os gritos que ela produz são
insolentes, autoritários, nervosos. O sentimento de euforia de grupo causa uma
impressão de impunidade, e a manada sente que adquiriu superpoderes e se
comporta como se fosse inalcançável. O mais grave é que, além dos sentidos, o
intelecto dessas pessoas também parece sofrer descompensações causadas pelo
efeito manada. Mas, ao contrário da emoção, que só é mexida quando a manada
está reunida, a razão parece sofrer dano permanente.
Só assim se explica a crença de que o presidente Jair
Bolsonaro é o novo que veio para expurgar o Brasil da velha política. Esse é o
maior e o pior de todos os enganos da manada. Bolsonaro é político mais velho
do cenário político nacional. O que ele ambiciona, e faz com que a manada
também ambicione como se fosse original, é a volta a um passado tão distante
quanto macabro. A manada é burra, não há outra forma de entender os pedidos de
intervenção militar com Bolsonaro no poder. Se concretizado, teríamos um Estado
militar/miliciano de consequências nefastas para todos, inclusive para a
manada.
Além das permanentes loas ao passado remoto, o presidente
também pratica a política corriqueira do passado recente. Ele e seus filhos
cometeram enquanto parlamentares as famosas rachadinhas, a maneira mais sórdida
de se fazer um dinheiro rápido. Retiravam parte dos salários dos servidores dos
seus gabinetes e o embolsavam. E a afirmação de que não iria negociar nada
feita na porta do QG diante da manada era uma mentirinha típica do velho
político. Bolsonaro está negociando, sim, e com o que há de pior na política
nacional.
Seus interlocutores no Congresso e nos partidos são, entre
outros, o ex-deputado Valdemar Costa Neto (criminoso condenado tanto no
mensalão quanto no petrolão), o senador Ciro Nogueira (investigado pela
Lava-Jato), o ex-prefeito e ex-deputado Gilberto Kassab (processado por
improbidade administrativa, financiamento ilegal de campanhas e contratação
ilegal de empresas), o deputado e ex-ministro Marcos Pereira (denunciado pela
Lava-Jato por receber propinas da Odebrecht) e o ex-deputado Roberto Jefferson
(criminoso condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro).
A síndrome que acomete a manada que acredita em Bolsonaro
poderia ser também chamada de efeito “Maria vai com as outras”. Mas aí, não.
Esses homens e mulheres não toleram o gênero feminino.

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