O texto da Proposta de Emenda Constitucional 10/2020, mais
conhecida como “PEC do Orçamento de Guerra”, recentemente aprovado pelo Senado,
introduziu um novo complicador para as empresas que, se aprovado pela Câmara
dos Deputados, trará uma grande insegurança jurídica, de acordo com consultores
ouvidos pelo Valor.
O recebimento de benefícios creditícios, financeiros e
tributários, direta ou indiretamente, concedidos no âmbito dos programas
oficiais de combate aos efeitos da pandemia, estará condicionado ao compromisso
das empresas de manutenção de empregos, “na forma dos respectivos
regulamentos”, de acordo com o artigo 4º do texto do Senado.
Uma das medidas adotadas pelo governo para redução dos
efeitos do novo coronavírus na economia, logo no início da pandemia, foi adiar
o pagamento de PIS, Pasep e da Cofins, bem como da contribuição previdenciária
patronal. Os empresários pagarão as quatro contribuições devidas em abril e em
maio apenas em agosto e em outubro.
Esta foi uma forma de dar mais fôlego de caixa às empresas,
que tiveram suas vendas drasticamente reduzidas do dia para a noite.
Tecnicamente, o procedimento é conhecido como diferimento. A questão é que
todas as empresas, mesmo aquelas que estão demitindo trabalhadores, terão
direito de adiar o pagamento das quatro contribuições. Quando o diferimento foi
autorizado, ainda em março, a instrução normativa da Receita Federal não
condicionou o benefício à manutenção do emprego.
Pode-se alegar, portanto, que o artigo da PEC, caso aprovado
pela Câmara, terá vigência posterior ao início do diferimento das quatro
contribuições. A lei não pode retroagir para prejudicar o contribuinte. Ocorre
que, segundo avaliação da área técnica do governo, é muito provável que as
empresas não tenham caixa em agosto e outubro para pagar os tributos do mês e
os atrasados. Por isso, os técnicos não descartam que os débitos tributários
referentes a abril e maio venham a ser, posteriormente, objeto de um novo
Refis, ou seja, de um parcelamento em condições favorecidas, que já está sendo
chamado de “coronarefis”.
Se isto ocorrer, será um novo benefício tributário a ser
concedido às empresas em relação a fatos ocorridos no período da pandemia.
Neste caso, o artigo da PEC poderá ser acionado e em que medida? O texto diz
que a manutenção do emprego será exigida, “na forma dos respectivos
regulamentos”, sem explicar o que isso significa, talvez indicando a
necessidade de uma regulamentação.
A exigência da manutenção do emprego, no entanto, se aplica
a todos os outros benefícios que estão sendo concedidos pelo governo durante a
pandemia, inclusive os creditícios e os financeiros. Há, por exemplo,
empréstimos em condições especiais que estão sendo colocados à disposição das
empresas. O Banco Central será autorizado também a comprar títulos privados e a
realizar uma série de operações financeiras que, de forma direta ou indireta,
pode resultar em benefício para alguma empresa ou instituição financeira.
Diante da amplitude da medida, com consequências jurídicas
imprevisíveis, um político de grande experiência disse ao Valor que o Senado
colocou o artigo na PEC para ficar bem com o eleitorado, ao mostrar sua
preocupação com o emprego, mas certo de que ele será derrubado pela Câmara, com
desgaste para os deputados. É, pode ser. Mas, vale lembrar a famosa pergunta
feita por Garrincha, na Copa do Mundo de 1958: “Já combinaram com os russos?”.
O artigo 9º da PEC aprovada pelo Senado determina que as
instituições financeiras que venderem ativos ao BC, durante a pandemia, não
poderão aumentar a remuneração, fixa ou variável, de diretores e membros do
conselho de administração, no caso das sociedades anônimas, e dos
administradores, no caso de sociedades limitadas.
De acordo com a PEC aprovada pelo Senado, a remuneração
variável inclui bônus, participação nos lucros e quaisquer parcelas de
remuneração diferidas e outros incentivos remuneratórios associados ao
desempenho.
Mas, não está claro o período da vigência da proibição. A
PEC aprovada pelo Senado diz que o Banco Central editará regulamentação sobre
as exigências de contrapartidas “durante a vigência desta emenda
constitucional”. Não seria durante a vigência da situação de calamidade pública,
ou seja, até 31 dezembro deste ano?
Há também outra redação confusa na PEC do “Orçamento de
Guerra”. Mas, neste caso, a confusão já vem do texto inicial aprovado pela
Câmara. O artigo 5º diz que será dispensado o cumprimento da chamada “regra de
ouro”, durante ‘a integralidade do exercício financeiro em que vigore a
calamidade pública nacional”.
A Constituição proíbe que o governo aumente o seu
endividamento para custear despesas correntes. Só pode fazer isso para
financiar investimentos e para amortizar a dívida, ou seja, despesas de
capital. Este princípio é conhecido como “regra de ouro” das finanças públicas.
Como observa a nota técnica 95/2020, da Consultoria de Orçamento da Câmara dos
Deputados, desde meados do ano passado já se projetava descumprimento da “regra
de ouro” em 2020.
O Orçamento da União deste ano foi aprovado com montante de
operações de crédito superior em R$ 343 bilhões às despesas de capital, lembram
os consultores legislativos Vinícius Leopoldino do Amaral e Fernando Moutinho Ramalho
Bittencourt, autores da nota técnica. Tais operações de crédito em excesso,
assim como as despesas por elas custeadas, encontram-se pendentes de
autorização, observam.
Como o regime extraordinário da PEC visa atender às
necessidades decorrentes da pandemia, a suspensão do cumprimento da “regra de
ouro” não poderia ser aplicada a situações anteriores ao surgimento do novo
coronavírus. Os autores concluem que a suspensão da “regra de ouro” teria que
ser parcial e somente aplicável às repercussões geradas pela pandemia. Mas isto
não é o que está escrito na PEC, que suspende o cumprimento da “regra de ouro”
durante “a integralidade do exercício financeiro em que vigore a calamidade”.

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