A covid-19 não vai apenas ceifar centenas de milhares de
vidas. Algumas ideias do pensamento econômico liberal também correm o risco de
morrer. O entendimento de que a austeridade fiscal é uma virtude absoluta e
incondicional, por exemplo, está sob séria ameaça. Não que a tese gozasse de boa
saúde. Ao contrário, ela já estava no grupo de risco desde a crise de 2008,
quando os países ricos gastaram o que não tinham para evitar que a recessão
fosse ainda mais profunda. Nesta nova crise, mais ampla e mais intensa,
novamente os cânones da economia liberal foram mandados às favas em favor de
uma ação pragmática. Gastar é tudo o que os governos podem fazer hoje.
O conceito de Estado mínimo já tinha sido conspurcado em
dois livros recentes com títulos autoexplicativos, ambos certamente merecedores
da ojeriza de nosso ministro da Economia (Austerity, the Great Failure, de
Florian Schui, e Austerity, the History of a Dangerous Idea, de Mark Blyth).
Para ambos, a austeridade é um mal desnecessário. Ela não funciona e está
fundamentada apenas em princípios ideológicos e morais. Atacando por outro
flanco, a Moderna Teoria Monetária também corroeu a ortodoxia econômica.
Para a principal porta-voz dessa vertente, Stephanie Kelton,
que foi assessora econômica da campanha de Bernie Sanders, o governo não deve
se preocupar com o crescimento da dívida pública desde que isso não ameace a
inflação. Um Estado soberano que emite sua própria moeda sempre poderá se
financiar por meio de novas dívidas. Mesmo o argumento de que as novas gerações
herdarão o fardo de resgatar uma dívida pública maior é rechaçado com o exemplo
da economia americana no pós-guerra. Os baby boomers nasceram devendo muito,
mas ainda assim viveram um longo período de prosperidade que diluiu o ônus da
dívida pública emitida pela geração que os antecedeu.
Nesta terra onde canta o sabiá, a tese do Estado mínimo está
gravemente enferma. A descoberta de que o governo federal não tem dinheiro, mas
ainda assim pode gastar centenas de bilhões é tão atordoante quanto
encantadora. Governadores e prefeitos acharam o máximo serem ressarcidos da
queda dos impostos sem que tenham de oferecer nenhuma contrapartida. Mas não só
eles. O núcleo duro dos militares que cerca o presidente também se empolgou. Se
não há o deus da austeridade, tudo é permitido.
O programa Pró-Brasil, anunciado na semana passada, é tosco,
foi improvisado e está longe de fazer decolar os investimentos. Marca, no
entanto, uma ruptura clara com os ditames austeros do Ministério da Economia. A
desarticulação política do próprio governo auxilia no desmantelamento dos
princípios ideológicos ultraliberais do ministro Paulo Guedes. É a casa da mãe
Joana (e ela saiu para comprar pão).
Resta à equipe econômica abjurar a explosão de despesas e
tentar organizar a fila dos pedintes. Desde o início, os economistas do governo
aderiram ao aumento dos gastos com o mesmo entusiasmo com que um congregado
mariano participa da turma da pipoca no carnaval de Salvador. Essa estratégia é
contraproducente porque cria resistências dentro do próprio governo. Sem capacidade
de articulação política, o Congresso Nacional vai se embriagar com a
possibilidade de aumentar os gastos públicos.
Pode haver muita discussão acadêmica sobre as teses liberais
de Paulo Guedes, hoje internadas, moribundas, na UTI. Mas a volta do populismo
fiscal seria um preço muito alto a pagar pela incúria de um governo que parecia
ter jurado a cruz da austeridade. Quando o mundo não acabar, se o mundo não
acabar, será extremamente difícil para um governo acuado pela inépcia retomar
os cânticos e louvores ao equilíbrio fiscal.
* Economista, foi diretor de política monetária do Banco
Central e professor de Economia da PUC-SP e da FGV-SP.

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