A capa da revista “Veja” de 1º de julho de 1992 trazia uma
pergunta que voltou a circular no Brasil desde sexta-feira: “No que vai dar a
crise”? As opções eram as seguintes: a) impeachment; b) renúncia; c)
parlamentarismo já; d) Collor continua, forte; e) Collor continua, fraco.
Àquela altura dos acontecimentos, a revista cravava a última alternativa como a
mais provável.
A despeito das fortes denúncias de corrupção envolvendo o
então presidente e seu tesoureiro de campanha PC Farias, a princípio pouca
gente acreditava que a CPI criada para investigá-los realmente levaria ao fim
prematuro do governo.
Desde que seu irmão Pedro o acusou, Collor articulava nos
bastidores para encontrar uma saída. Uma trama de negociações começou a ser
costurada com os poderosos Antonio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen
(caciques do PFL, atual DEM), Ulysses Guimarães (presidente do PMDB, hoje MDB)
e Mário Covas (líder do PSDB) e tudo parecia indicar que fechariam um acordo:
lançariam PC Farias aos leões da CPI e da opinião pública, enquanto Collor
seria poupado, loteando seu ministério à coalizão formada pelos maiores
partidos de então.
Nas últimas três semanas Bolsonaro movimentou-se
intensamente na direção de partidos que podem lhe dar proteção para enfrentar a
crise. De acordo com sua agenda oficial, divulgada na página do Palácio do
Planalto na internet, o presidente recebeu recentemente lideranças do PP (Ciro
Nogueira), Republicanos (Marcos Pereira), PSD (Gilberto Kassab), Democratas
(ACM Neto), MDB (Eduardo Braga e Baleia Rossi) e PL (Jorginho Mello). Dada a
frequência das visitas dos deputados Fábio Faria (PSD-RN) e Arthur Lira (PP-AL),
ambos herdeiros de famílias tradicionais de políticos, Bolsonaro está buscando
não apenas uma conexão com o Centrão, mas também com os clãs nordestinos.
Um acordo entre Bolsonaro e os principais partidos do
Centrão sempre fez sentido. Eles partilham de uma visão conservadora da
sociedade, encaram a política como um meio de perpetuar seu poder e de sua
família e não têm pudores de trocar de lado caso as circunstâncias mudem. A
grande questão que se coloca, hoje, é o timing dessa aproximação.
Bolsonaro poderia ter feito essa opção assim que tomou posse
– afinal de contas, um contingente enorme de deputados e senadores foi eleito
com o apoio dos mesmos “ismos” que o conduziram ao Palácio do Planalto, como o
antipetismo, o lavajatismo, o liberalismo na economia e o conservadorismo nos
valores morais. Com popularidade em alta, o ex-capitão poderia ter abrigado em
seu ministério representantes dessas correntes vindos do Centrão, e assim teria
consolidado sob a sua liderança uma base governista praticamente imbatível.
Mas não foi esse o caminho escolhido, e agora o preço subiu
bastante. Desgastado nas últimas semanas, o presidente senta-se à mesa de
negociações com muito menos cacife do que possuía em janeiro de 2019. Uma parte
de seus apoiadores originais já tinha abandonado o barco com a condução
errática do país em meio à pandemia e um outro tanto desertou junto com Sergio
Moro. Após 16 meses maldizendo o “toma lá dá cá” e a tal “velha política”, será
difícil para Bolsonaro explicar para o seu eleitor-raiz essa mudança de rumo –
e uma nova leva de bolsonaristas pode virar a casaca.
Hoje em dia Bolsonaro também tem muito menos a oferecer ao
Centrão. É óbvio que sempre existirão cargos e orçamento a distribuir, mas com
uma severa recessão mundial à espreita, o butim encolheu significativamente. Em
vez de sócios na época de prosperidade e fartura prometida por Paulo Guedes há
bem pouco tempo, deputados e senadores do Centrão poderão se tornar devedores
solidários num governo quebrado em meio a milhões de desempregados e
empresários falidos.
Em qualquer curso de negociação aprende-se como a
credibilidade é importante. Desde o fim da ditadura, a maioria dos presidentes
brasileiros enfrentou graves crises econômicas ou de governabilidade que
colocaram em risco o comando do país. Collor e Dilma sucumbiram – e não por
acaso, eram aqueles com menor habilidade política. Sarney, FHC, Lula e Temer,
todos eles macacos-velhos em lidar com o Congresso, de uma forma ou de outra
driblaram as adversidades e chegaram ao fim dos seus mandatos.
Em quase três décadas como deputado, Bolsonaro nunca se
notabilizou pela liderança – ao contrário, o baixo clero foi sempre a sua casa.
Alçado à Presidência do país, nunca se empenhou em criar um clima positivo com
o parlamento. Diante desse histórico, os partidos do Centrão não têm quaisquer
garantias de que seu apoio terá como contrapartida estabilidade e segurança por
parte do Palácio do Planalto.
Para completar o quadro, a incerteza quanto ao futuro é
outro obstáculo à celebração de um pacto com o Centrão. Depois das denúncias
apresentadas pelo ex-ministro Moro, ninguém sabe o que ainda pode sair da caixa
de Pandora das investigações levadas a cabo pela Polícia Federal a respeito do
envolvimento de seus filhos com a disseminação de “fake news”, o escândalo das
rachadinhas e a atuação das milícias.
Na crise do governo Collor, a negociação com os principais
partidos ruiu à medida que se acumularam evidências do relacionamento do
ex-presidente com as atividades criminosas de PC Farias e o favorecimento de
sua família – e a população, em massa, foi às ruas pedir a sua cabeça. Poucas
semanas após a publicação da capa da revista “Veja”, as apostas rapidamente
mudaram do prognóstico “Collor continua, fraco” para “impeachment”. E ao final
resultaram em “renúncia”.
Pouca credibilidade, apoio popular em queda, uma forte
recessão à frente e incertezas quanto à lisura das atividades de seus filhos –
por mais lucrativo que seja fazer parte do governo, é difícil vislumbrar o que
o Centrão teria a ganhar com uma associação a Bolsonaro nas condições atuais de
seu mandato.
*Bruno Carazza é mestre em economia, doutor em direito e
autor de “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político
brasileiro”.

Nenhum comentário:
Postar um comentário