O ministro da Saúde, Nelson Teich, na reunião com os
governadores do Nordeste, repetiu algumas vezes que é preciso olhar “os modelos
matemáticos” para “entender o problema”. Para os governadores que vivem o drama
real e imediato da pressão no sistema de saúde, pareceu meio apavorante que o
ministro queira tempo para saber como agir. Um dos participantes da reunião
disse que “ou ele terá um choque de realidade e vai virar um novo Mandetta ou
pode ser um desastre monumental. Em crises como esta não costuma haver meio
termo.”
No meio desse conflito federativo, todos os governadores com
quem eu falei elogiaram a disposição de Teich para o diálogo. Isso, que deveria
ser rotina numa federação, a esta altura parece até uma concessão de tão
obstruídos que estão os canais. Os governadores focaram na ampliação que vêm
fazendo de suas vagas de UTI nas redes estaduais, relataram as dificuldades e
pediram mais critério no repasse de recursos e insumos. Ao fim, ficaram de
formalizar seus pedidos ao Ministério.
Há dois trilhos de ajuda aos estados e municípios, um de repasse para a saúde, e outro de socorro aos estados, que depende do Ministério da Economia. Depois da derrota na Câmara, o projeto virou uma fonte de briga, continua parado no Senado onde o governo tenta mudar tudo.
Há dois trilhos de ajuda aos estados e municípios, um de repasse para a saúde, e outro de socorro aos estados, que depende do Ministério da Economia. Depois da derrota na Câmara, o projeto virou uma fonte de briga, continua parado no Senado onde o governo tenta mudar tudo.
Na segunda-feira, numa transmissão direta com investidores,
o ministro Paulo Guedes falou que pode ampliar o dinheiro para os estados se os
governadores congelarem os salários dos servidores por dois anos. Isso é
super-razoável, mas há três problemas: primeiro, em vez de contar para
banqueiros e investidores, deveria estar falando com governadores; segundo,
deveria dar o exemplo e fazer o mesmo no governo federal. O terceiro problema é
a maneira como Guedes relata os eventos e apresenta os números:
– Os governadores vieram para uma conversa com o presidente,
e tudo que eles pediram foi dado. Inclusive com algum aumento. Por isso que é
injusta essa visão de que o presidente está perseguindo o governador A ou o
governador B. É falso. É falso. É uma fakenews política. É um uso político
contra o presidente, injusto, e contra nós também, injusto. Porque os
governadores vieram aqui e saíram muito felizes. Foram atendidos. Voltaram uma
semana depois pedindo algo que foi calculado em R$ 220 bilhões.
O presidente mal fala com os governadores, o ministro
prefere falar com o mercado financeiro. A questão é que aumentar o FPE ajuda
estados menores. Para o Rio Grande do Sul, o FPE representa 1,6% da receita. No
Nordeste é grande, mas não cobre as despesas que eles estão tendo agora. Falei
ontem com um governador que recebeu R$ 40 milhões para a saúde e já aumentou
seus gastos em R$ 180 milhões. Para os estados maiores, será preciso compensar
perdas de ICMS. Pode não ser a fórmula aprovada na Câmara, mas terá que acontecer,
do contrário, os estados entrarão em colapso. Paulo Guedes disse, nessa fala
aos investidores, que os governadores estavam tentando “transformar uma crise
na saúde em uma farra eleitoral”.
Por palavras, omissões, erros, este governo está provocando
uma baita crise federativa no meio de uma pandemia. Paulo Guedes lamenta que
esta crise não tenha acontecido depois dos “oito anos de transição”.
– Alguém tem alguma dúvida que nós somos federalistas?
Alguém tem alguma dúvida que nós enfrentaríamos muito melhor esta crise se o
Brasil já fosse uma federação fortalecida? Imagine que os estados já tivessem,
ao fim desses oito anos de transição, em que nós estamos descentralizando as
receitas para estados e municípios, imagine que já tivesse terminado isso e então
chegasse a crise da saúde. Não estava esse desespero, procurando respirador e
máscara, porque todos teriam a condição de se defender.
O governo, que chegou falando em mais Brasil e menos
Brasília, tem feito o contrário e na crise deixa critérios políticos
contaminarem decisões que teriam que ser técnicas. O dinheiro dos contribuintes
está concentrado em Brasília, e a União tem o monopólio de emissão de títulos e
de moeda. Mas isso não pode ser entendido como uma propriedade de quem neste
mandato ocupa o governo federal. É do país como um todo, e Brasília tem que
socorrer os entes federados em uma crise. E isso é agora. E não após o tal
período de oito anos, com o qual conta o ministro da Economia.
(Com Alvaro Gribel, de São Paulo)

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