A pergunta de meu amigo Carlos Alberto Jr., jornalista e
cidadão do mundo, numa live, inspirou a coluna de hoje: “Estamos vivendo uma
distopia no presente?”. Normalmente, a distopia está associada ao futuro,
porque é a negação da utopia, ou seja, da sociedade desejada, uma projeção
pessimista do futuro. De certa forma, sim, estamos vivendo uma realidade
distópica, como as que aparecem no cinema. A série inglesa Black Mirror
(Espelho Negro), lançada há quase 10 anos, por exemplo, em cada um de seus
episódios, que são independentes, nos deixa em situação muito desconfortável em
relação à tecnologia, à globalização, ao poder e à “sociedade do espetáculo”.
Qual é a grande distopia que estamos vivendo aqui no Brasil?
Uma pandemia de coronavírus ameaça sair do controle e seu combate começa a ser
militarizado, com a substituição de uma política de saúde pública participativa
por estratégias militares que se baseiam em grandes manobras, controle de
informações e saídas racionais para situações fora do controle, como criar mais
vagas nos cemitérios para evitar que o aumento do número de mortos gere outro
grave problema sanitário: cadáveres insepultos. É uma hipótese sinistra, mas
faz sentido, porque a concepção do combate à epidemia é a de que se trata de
uma guerra. Em tese, militares estariam mais preparados para isso do que civis,
o que, obviamente, é um equívoco em se tratando de saúde pública.
O inimigo invisível entre nós, no trabalho, no supermercado,
na fila da lotérica, dentro de casa. Todos nos tornamos seres perigosos,
suspeitos. Qualquer aproximação menor que dois metros é uma ameaça e provoca
uma reação de legítima defesa, nem sempre um educado “por favor, chegue mais
para lá”. Os mais aptos a conviver com o novo coronavírus — os contaminados
assintomáticos —, hoje são a maior ameaça, não importa se é um antigo colega de
trabalho, um parente querido, um amigo de infância, a pessoa amada; amanhã,
porém, poderão ser os salvadores da pátria, portadores de anticorpos e
perpetuadores da espécie, os primeiros a voltar ao trabalho.
A salvação virá dos mais fortes e do Estado Levitã, que pode
tudo? Qual será o custo de tudo isso? Na lógica do presidente Jair Bolsonaro, é
preferível um maior número de mortos do que o colapso da economia; é preciso
salvar o comércio, a indústria, os pequenos negócios e os biscates. No fundo,
seu raciocínio antecipa a escolha de Sofia do intensivista que seria obrigado a
escolher quem vai ter acesso ao respirador na UTI quando o sistema de saúde
entrar em colapso.
A República, de Platão, citada pelo ex-ministro da Saúde
Luiz Henrique Mandetta numa alusão irônica ao famoso Mito da Caverna (metáfora
criada pelo filósofo grego para explicar a condição de ignorância em que vivem
os seres humanos e o que seria necessário para atingir o verdadeiro “mundo
real”), inspirou Thomas Morus (1478-1535) a escrever Utopia. Publicada na
Basiléia, em 1516, na época dos Descobrimentos, criticou a tirania e descreveu
a sociedade ideal, prontamente associada ao Novo Mundo. Na Inglaterra, seu
livro só viria a ser publicado em 1551, 17 anos após a morte do filósofo e estadista
católico executado por ordem de Henrique VIII, da Inglaterra.
Tirania
Coube a outro inglês cunhar a expressão “distopia”, o liberal progressista John Stuart Mill, o primeiro a defender o direito ao dissenso e as prerrogativas das minorias, num famoso discurso no Parlamento britânico, em 1868, ao invocar os valores defendidos por Thomas Morus em confronto com a realidade do proletariado da Inglaterra durante a Revolução Industrial. O tema da distopia foi retomado no Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, e em 1984, de George Orwell. Na primeira obra, a sociedade é domina por uma casta, que a submete a um condicionamento biológico e psicológico; no segundo, numa alegoria do burocratismo stalinista, um ditador muda a língua do povo, controla a vida dos cidadãos e manipula a imprensa.
Coube a outro inglês cunhar a expressão “distopia”, o liberal progressista John Stuart Mill, o primeiro a defender o direito ao dissenso e as prerrogativas das minorias, num famoso discurso no Parlamento britânico, em 1868, ao invocar os valores defendidos por Thomas Morus em confronto com a realidade do proletariado da Inglaterra durante a Revolução Industrial. O tema da distopia foi retomado no Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, e em 1984, de George Orwell. Na primeira obra, a sociedade é domina por uma casta, que a submete a um condicionamento biológico e psicológico; no segundo, numa alegoria do burocratismo stalinista, um ditador muda a língua do povo, controla a vida dos cidadãos e manipula a imprensa.
Na literatura, portanto, a distopia é a denúncia da
sociedade indesejada, autocrática, submetida à tirania e à ordem unida. Na vida
real, voltando à pergunta inquietante do amigo, é uma ameaça latente, seria
quase uma distopia do presente. Estamos vivendo uma situação inimaginável, num
mundo globalizado, conectado em rede, onde todos acompanham tudo em tempo real.
Trata-se de um colapso da economia mundial, provocado por um fenômeno da
natureza que tem a ver com o “grande encontro” da teoria da evolução, a
associação entre o vírus mutante e uma bactéria, que se reproduz em velocidade
igual ou maior do que a moderna transmissão de dados.
A ficção distópica dos filmes de catástrofes vira realidade,
com centenas de milhares de mortos. Ontem, o presidente Donald Trump anunciou
que os Estados Unidos vão suspender a imigração legal por dois meses. O “sonho
americano”, inspirado na Utopia de Thomas Morus, entrou em colapso. Aqui no
Brasil, a grande distopia seria o colapso do nosso regime democrático.

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