'A reação já
começou com a desobediência civil', diz Ignácio de Loyola Brandão, autor de
distopia política
De dentro do seu
apartamento no bairro de Pinheiros, em São Paulo, o escritor Ignácio de Loyola
Brandão, 83, escuta as panelas
batendo pontualmente às 20h30 nos últimos dias. “Pego uma frigideira,
pego o que for e vou bater”, contou à Folha, em entrevista por
telefone.
Para Brandão,
porém, os panelaços
contra o presidente Jair Bolsonaro não são a única forma de protesto
adequadas ao momento. “Parece que a reação já começou com a desobediência
civil”, diz. Para ele, “governadores, prefeitos e o povo estão na contramão
das ordens do presidente”.
Antes que Bolsonaro
fosse eleito, Brandão escreveu uma distopia que mostra um Brasil governado por
um presidente sem cérebro, assolado por epidemias onde caravanas passam
transportando os mortos.
Na ficção,
conselheiros do presidente elaboram campanhas com dizeres como “Não se entregue
ao abismo, trabalhe” e “Para frente, Brasil. Siga”.
Romance mais
recente do imortal da Academia Brasileira de Letras, “Desta Terra Nada Vai
Sobrar a Não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela” (Global, 2018), foi escrito nos
quatro anos anteriores ao seu lançamento.
A obra mostra um
Brasil sem os ministérios da Saúde e da Educação e completa a trilogia iniciada
por “Zero” (1975), censurado pela ditadura militar, e “Não Verás País Nenhum”
(1981), em que o aquecimento global já é uma realidade.
“Não sou adivinho,
não sou nada. Mas sou um homem que faz literatura a partir da ideia de que não
existe absurdo nesse mundo, tudo é literatura e tudo é possível”, disse.
O autor cumpre o
isolamento domiciliar para evitar o contágio e a proliferação do novo
coronavírus. “Tem gente que quer abrir comércio imediatamente. Eu não quero
sair, não sou suicida. Somos governados pelo gabinete do ódio”, disse.
De certa
maneira, o senhor antecipa a realidade por meio da ficção. Isso ocorreu com
'Não Verás País Nenhum' e agora com 'Desta Terra Nada Vai Sobrar...'. Como o
senhor faz isso? Imagino
coisas que podem ser absurdas, que podem nunca acontecer. Só que acabam
acontecendo. A ideia do livro surgiu quando li no jornal a possibilidade de, no
futuro, a ciência produzir um homem sem cérebro, sem emoção, sem sentimentos,
sem nada.
No livro tem o
primeiro presidente sem cérebro. Isso foi quase um ano antes da eleição [de
2018]. O que a gente tem hoje no poder? Um homem sem cérebro, sem sentimento,
sem emoção, sem comoção, indiferente a tudo, ao povo que governa, frio.
Eu não tenho culpa
da minha literatura vir na frente, a vida que vem bem atrás. Quando escrevi
'Não Verás País Nenhum' [1981], o aquecimento global e doenças estranhas eram
possibilidades e está aí o coronavírus. Fico surpreso comigo mesmo. Não sou
vidente. Sou um escritor que sabe que a literatura é uma coisa que faz você ver
a possível vida que vem.
'A vida
normalizara-se naquela anormalidade'. O senhor abre o livro com essa frase de
Euclides da Cunha, em 'Os Sertões'. Por quê? No momento em que a anormalidade é o normal,
com os índices de feminicídios, as milícias que comandam o Rio de Janeiro e as
facções, isso não é o normal. Isso é uma anormalidade dentro do cotidiano. A
gente vive uma situação de medo, de sobressalto.
Sob Bolsonaro, a
vida 'normalizou-se na anormalidade'? Mais do que nunca. Nós estamos sendo conduzidos como na fábula do
flautista que toca e conduz os ratos que vêm atrás para o precipício. Este
homem está nos jogando do precipício. Eu não estou atrás, mas muita gente está.
O que ele pretende? Tenho 83 anos, nunca vi um presidente assim, tosco, sem
cultura, analfabeto, autoritário, um soldadinho de chumbo que está lá.
Tudo isso é
anormal. Isso não é a normalidade, a normalidade seria respeito à lei, ternura
com o povo, esse povo que precisa salvar. Porque estamos condenados à morte.
Tem gente que quer abrir comércio imediatamente. Eu não quero sair, não sou
suicida. Somos governados pelo gabinete do ódio.
'A caravana leva
os mortos por dengue, zika, H1N1, chikungunya, varíola, obesidade mórbida,
malária, febre amarela'. Em outro trecho, o senhor escreveu: 'A cada minuto,
pessoas morrem nas ruas, ninguém toca nelas, é o medo. Ninguém sabe há quanto
tempo não existe mais o Ministério da Saúde'. É o que está acontecendo com o
coronavírus? Está
acontecendo. Esse presidente constrange o ministro dele, da Saúde, o único que
estava fazendo alguma coisa, mas teve que alinhar ao lado dos absurdos
dele. Faltam
leitos, exames e se estourar, vai ser um sufoco.
A caravana que
descrevi está
acontecendo na Itália. Basta ver as filas de caminhões levando os mortos
para serem enterrados, queimados. O livro é muito mais que o Brasil hoje.
Fiquei assustado [quando a repórter da Folha leu os trechos].
Tem muita coisa que às vezes se escreve até em transe. Depois que a gente lê,
fala: 'Meu Deus!'. Não sou adivinho, não sou nada. Mas sou um homem que faz
literatura a partir da ideia de que não existe absurdo nesse mundo, tudo é
literatura e tudo é possível.
'Um daqueles
presidentes obrigou todos a obedecerem aos preceitos elaborados pelos
Comunicadores Aconselhantes, em remotas eram conhecidos como marqueteiros, raça
inextinguível'. Entre os preceitos estavam 'Não se entregue ao abismo,
trabalhe. Não atrapalhe, colabore. Não pense em depressão, acredite no mercado.
Para frente, Brasil. Siga'. Lembra a campanha
que Bolsonaro divulgou de que o 'Brasil não pode parar' em meio à
pandemia, não? Exato.
Fiquei arrepiado, não lembrava disso. O título do livro é um poema do Bertolt
Brecht, quando ele fala sobre Alemanha e vem o nazismo. É muito simbólico do
momento. A história vai se repetindo e a literatura retrata tudo isso.
Como é possível
seguir um homem que prega tortura, fazer mal para o outro, fazer dor, fazer
sofrer? Como pode ser um líder? Aliás, o mundo está carente de líderes com
Trump nos Estados Unidos, Boris Johnson no Reino Unido, Orbán
na Hungria, a coisa está feia. Nem o exemplo da Itália, cujas mortes
aumentam justamente porque não se isolaram, amedronta este homem [Bolsonaro].
No seu livro,
idosos estão autorizados a optarem por uma 'autoeutanásia', para que não
sobrecarreguem as famílias. Com o coronavírus, os idosos são um grupo de
risco. No livro,
largam eles para que morram, se jogam de uma montanha. Nós, idosos, estamos
sendo jogados do alto das montanhas. Não poderiam sair, mas estão autorizando a
sair na rua, que se trabalhe. Está autorizada a eutanásia no país. Meu livro
não é o futuro, é o agora. Fico feliz e infeliz de constatar isso. Fiquei muito
triste.
'Depois de
sucessivos impeachments, a classe Astuta [políticos] e parte da população
tomaram gosto e passaram a apoiar um impeachment atrás do outro. Para os
parlamentares, foi um alto negócio. A cada pedido de impeachment, o presidente
acuado passava a comprar os votos, disfarçados em emendas necessárias ao
desenvolvimento da nação.' Assim como no livro, o senhor acha que teremos mais
um impeachment? Não
tem muita condição. Tem os motivos, mas não tem um Congresso preparado. Tem um
grupo, que vem diminuindo, que apoia [Bolsonaro]. Se um impeachment é posto em
votação e não se realiza, aí teremos a instalação de uma ditadura fascista. Ele
vai aproveitar e dá o golpe.
Não é o momento de
tentar impeachment, mas por meios legais [contê-lo]. Há uma história de provar
a insanidade mental [do presidente], outros dizem que a insanidade é toda
planejada. Mas também se disse que o Hitler era insano e não era, era tudo
realidade.
'O governo
desistiu de manter o Sistema Educacional, alegando que, para haver liberdade e
poder formar a cidadania que leva à verdadeira democracia, cada um deve estudar
como quiser, onde quiser, o que quiser, como puder, se puder' e foi 'erguido o
Monumento Comemorativo ao Fim do Ensino.' [Risos]. O que o Weintraub [ministro da
Educação] está fazendo, senão isso? Um ano e quatro meses de governo e o que
aconteceu? Nada. Os professores não sabem o que fazer, os planos são
ideológicos. Esse ministro não existe. Um
homem que diz para uma pessoa que 'está perto da égua sarnenta e desdentada da
sua mãe'. O que é isso, meu Deus? Um ministro da Educação sem educação,
grosso, horrendo, nojento. Esses pais [que defendem educação domiciliar] foram
educados? Não são pedagogos. Vão desensinar. A gente está em cima de um esgoto.
O que pode ser
feito para impedir retrocessos? Parece que a reação já começou com a desobediência civil, pregada pelo
filósofo autor de “Walden”. Obedecer a Henry Thoreau e não a Olavo de
Carvalho. Governadores,
prefeitos e o povo estão na contramão das ordens do presidente. Esta é a
resposta. Deixá-lo cada vez mais isolado, não atender seus apelos, seus
comandos. Ocorreu uma carreta pró-Bolsonaro na Consolação. Mas por que os
seguidores dele não vão caminhando? Estão isolados dentro dos carros. Assim é
fácil.
O senhor bate
panela? Bato panela.
Quando não bato, minha mulher vai na janela bater. Pego uma frigideira, pego o
que for e vou bater. Antes de ficar em isolamento no interior com sua família,
meu filho veio aqui e bateu panela também. Bateu tão forte que amassou a panela
inteira.
RAIO-X
Ignácio de
Loyola Brandão, 83
É escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras, eleito como integrante por unanimidade em 2019. Nascido em Araraquara (SP), trabalhou no jornal Última Hora. Autor de contos, crônicas, livros infanto-juvenis e romances. Vencedor de prêmios como Jabuti, Biblioteca Nacional e Machado de Assis
É escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras, eleito como integrante por unanimidade em 2019. Nascido em Araraquara (SP), trabalhou no jornal Última Hora. Autor de contos, crônicas, livros infanto-juvenis e romances. Vencedor de prêmios como Jabuti, Biblioteca Nacional e Machado de Assis

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