A inesperada eleição de Jair Bolsonaro como presidente da
República teve a ajuda decisiva do PT. Além de elevar a corrupção
governamental a níveis históricos, como provaram o Mensalão e a Lava-Jato, o
governo dos companheiros levou o País à recessão econômica com a volta da
carestia e do desemprego.
Outro fator que contribuiu para a ascensão do capitão-mor ao
Palácio do Planalto foi a nova onda conservadora mundial. A chamada direita,
sem vergonha, mostrou sua cara.
A estas circunstâncias juntou-se a disposição e o senso de
oportunidade do então deputado Bolsonaro. Com a ajuda das redes sociais – outro
aspecto imperativo -, galgou o posto máximo da República.
No Poder, deixou de lado o receituário balizador das
democracias. Governa rompendo com aliados de seu campo ideológico e desfazendo
do Parlamento – tão ou mais legítimo do que ele, pois teve mais votos (90,7
milhões da Câmara contra 57,7 milhões do presidente) e é muito mais
representativo.
Uma terço aqui, outro lá
Hoje, seu apoio oscila em torno do um terço do eleitorado.
Contingente pequeno para implantar plenamente seu modelo de Estado, seja ele
qual for, mas suficiente para mantê-lo no poder.
O número fracionário aproxima o presidente da República do
PT. Lula e a chamada esquerda também contam com a simpatia de algo como um
terço dos eleitores.
Há outras similitudes. Ambos, Lula e Bolsonaro lideram
seitas.
Além de militantes, têm sequazes. Como em algumas religiões,
seus seguidores carregam a certeza de que são os únicos que levarão o povo à
redenção.
Além da certeza que somente eles conhecem a verdade, cultuam
o ódio ao adversário. Todos que não professam a fé lulista ou bolsonarista são
hereges ou apóstatas.
Na aparência, defendem a democracia, meio disponível para
chegar ao poder. Ambos, no entanto, têm vieses autoritários.
A chamada esquerda flerta sem pejo com ditaduras, onde Cuba
e Venezuela são as estrelas. Mas vai além, ao relativizar regimes autoritários
do Oriente Médio (só não apoia Israel, a única democracia por lá) e autocracias
africanas.
Do lado de Bolsonaro, não há dissimulação. O capitão-mor
defende abertamente, desde antes da eleição, sicários como o chileno Augusto
Pinochet e o paraguaio Alfredo Stroessner.
Índex
As chamadas esquerda e direita igualmente se opõem à
liberdade de imprensa, condição sine qua non à convivência
democrática. Odeiam a TV Globo, saco de pancadas dos dois líderes.
Bolsonaro partiu, desde o começo, para o confronto direto,
elegendo suas emissoras prediletas. Lula foi mais sutil e tentou implantar o Conselho Nacional de
Comunicação, responsável por uma espécie de Index Librorum Prohibitorum.
Lula não conteve o trabalho de jornalistas, o que, para
alguns companheiros, foi uma das causas da queda de Dilma Rousseff. Bolsonaro
segue em campanha declarada jogando seus simpatizantes contra a imprensa
profissional.
Semelhanças e desavenças
Se ambos têm vieses autoritários marcantes, há uma diferença
destacada entre Lula e Bolsonaro.
Bolsonaro é intelectualmente tosco – o que não significa que
não tenha propósito e rumo em suas convicções. Lula é essencialmente um animal
político.
Quando disse que era uma metamorfose ambulante, não estava
apenas se valendo de uma metáfora conhecida. Ele sabe se adaptar, aprende com
os erros.
O capitão-mor adota o confronto como método. Lula busca, no
limite, a aliança para preservar o poder.
Bolsonaro demonstra autenticidade rústica, traço incomum em
políticos. Lula valeu-se dos ensinamentos de Nicolau Maquiavel para governar.
Lula ouvia muito, para muito além das hostes petistas.
Bolsonaro rende-se a uma tríade de rebentos atoleimados e a um terraplanista
desbocado. Todos pedantes e belicosos.
Lula lá em 2022? Bolsonaro que o diga
É certo que o poder molda o caráter do governante. Mas não
há indicação de que Bolsonaro, político empedernido, tencione mudar seu modus
operandi.
E Lula, o único brasileiro que se equipara ao presidente em
capacidade de mobilização de massas?
Por certo, algum de meus 17 leitores deve se lembrar
de artigo publicado aqui n’Os Divergentes, logo após sua
soltura da prisão de Curitiba. “Quem espera um Lula incendiário, provavelmente
se frustrará. Este não é o seu perfil”.
A assertiva foi imediatamente confrontada com os discursos
beligerantes do ex-operário nas primeiras horas fora do cárcere. Mas Lula
tratava de arrebanhar seus seguidores. “Gente, estou aqui com vocês” foi o
recado.
Traço, aliás, presente nas atitudes do capitão-mor. Volta e
meia desfere diatribes que parecem intempestivas. Dirige-as, na verdade, aos
seus seguidores como forma de preservar a ordem unida.
Lula é dono de uma resiliência incomum. Desde os tempos de
São Bernardo do Campo, enfrentou reveses mil, mas reinventou-se sempre.
Por ora, não é dono de sua liberdade. Deve ela aos instáveis
juízes supremos, o que certamente tolhe seus movimentos.
Subestimá-lo é um equívoco. Da cadeia, conduziu o incipiente Fernando Haddad, que, em 2016, havia
perdido a reeleição da prefeitura de São Paulo no primeiro turno para João
Doria. Em 2018, Haddad abocanhou 47 milhões de votos na disputa pela
presidência da República (31,93% do eleitorado contra 39,23% de Bolsonaro).
Não é pouca coisa.
Na ausência do moderado desconhecido…
O cenário, já turvo diante de um presidente que, à luz do
dia, despreza o Parlamento e prefere governar com a minoria dos brasileiros ao
seu lado, acinzentou-se. O vírus que veio da China atravessou seu caminho, bem
como o de governantes ao redor do mundo.
Alguns, como Viktor Órban, primeiro-ministro da Hungria,
aproveitaram e, com o beneplácito do Legislativo, ampliou seus poderes para
além dos limites democráticos. Bolsonaro mira-se em líderes fortes da chamada
direita.
Do que se vê até aqui, Bolsonaro arma um cenário em que
poderá devolver o presente involuntário que recebeu do PT em 2018. Num
cenário democrático, se conseguir formar uma aliança oposicionista em 2022,
Lula tenderia a se destacar, mesmo impedido de concorrer. A inédita troca de
gentilizas com Doria pode ter sido uma sinalização.
Na ausência do moderado desconhecido, aquele que livraria o
Brasil dos extremos, assistiríamos à volta de algo parecido com o que moldou o
Brasil durante 13 anos. Tudo a depender do desgoverno bolsonarista e dos
estragos que aquele ser minúsculo, vulgo coronavírus, produzir em terras
brasilianas.

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