sexta-feira, 24 de abril de 2020

O COVEIRO DO BRASIL

Ruth de Aquino, O GLOBO
Não sou coveiro, tá?", disse Bolsonaro a um jornalista que perguntava sobre mortos do coronavírus. Essa dura função foi delegada pelo presidente a um médico. Um oncologista elogiado por sua capacidade de gestão e seus estudos no exterior. Na Escola de Negócios de Harvard. Ah, e também diretor executivo do MedInsight, Decisions in Health Care. Uau. Um empresário bem sucedido da saúde. Sem demérito. E sem nenhuma experiência no SUS.
O ministro Nelson Teich “performou” a coletiva mais deprimente de alguém da Saúde desde que o Brasil foi atingido pelo novo coronavírus. Faz uma semana que assumiu a pasta. Diante do absoluto desconhecimento que exibiu na televisão sobre o terror e o colapso já enfrentados por médicos e pacientes, Teich deixou claro como ocupa seu tempo precioso. Em reuniões com Bolsonaro no Palácio para tornar seu “total alinhamento” ainda mais alinhado e mais total.
Teich, aí vai um conselho, de graça. Um ministro que se dirige a uma população sofrida, com baixa instrução, não pode falar difícil. Eu não entendi seu raciocínio claudicante, cheio de recuos, vírgulas e reticências. Linguagem pontuada por “diretrizes” e clichês se presta a isso. A não se comprometer e a não ser entendido. Se não enquadrar sua fala, precisará de tradução simultânea.
Outro conselho. Não mostre que ignora os números da doença. Os que citou estavam errados. Não repita que “a gente sabe muito pouco da doença” e que é “uma situação difícil, complexa”. Como ministro, não pode. Tente não cair no ridículo comparando o Brasil com países em outro estágio da pandemia. Dizer que “o Brasil é hoje um dos países que melhor performa (sic) em relação a covid” o desacredita até na classe médica que no início elogiou sua nomeação.
Pare de falar no futuro. O futuro já chegou e é tenebroso. “Vou passar diretrizes aos estados daqui a uma semana”. Quantos brasileiros morrerão enquanto isso? A pandemia é “uma corrida contra o tempo”. Então já perdeu, ministro. “A saúde tem de ser vista como um todo”. Bom saber. Ações e processos “serão desenhados”. Mas o senhor já escrevia paper e fazia live sobre o coronavírus antes da posse. O senhor não é desenhista. Quem desenha é o Chico Caruso.
Escutei que Teich foi “técnico”. Não foi técnico, nem político, nem estratégico. Não foi nada. Não emitiu uma opinião, não apresentou um plano, foi evasivo nos testes em massa e tudo o mais. Disse que enviou respiradores para alguns estados. Quantos, ministro? Na entrevista no dia seguinte, mais uma vez Teich saiu pela tangente quando indagado se apoiava um isolamento amplo: "Vamos ver isso no dia a dia, analisar o que for melhor para a sociedade (...) Se for melhor para as pessoas sair às ruas e isso não influenciar na doença", relaxaremos o isolamento. Como assim? Resolver no dia a dia? Teich ainda não tem opinião formada sobre o isolamento?
Conversei com uma médica pneumologista que merece todo nosso respeito. Ela defendeu desde o dia zero o isolamento social severo e o SUS como as grandes armas do Brasil contra a pandemia. Escutei seu desabafo: “Ruth, estou destroçada. As pessoas estão morrendo a uma velocidade surreal. Sem tempo para socorro. Sem tempo para sair de casa. Sem tempo de sair da ambulância. Sem hospital. São centenas de mortes, todos os dias, que seriam evitáveis se tivéssemos seguido as normas sanitárias internacionais”.
Teremos mais leitos. Faltam equipamentos. Teremos mais respiradores. Sim, e quem vai operar esses respiradores? “Não há médicos intensivistas suficientes (os intensivistas trabalham nas UTIs)”, disse ela. “O Brasil teve sua chance, por ter sido atingido depois da Europa. Mas não. A economia foi colocada à frente da vida. Passamos a discutir mais covas, mais sepulturas. E há quem ouse falar, nessa altura, muito antes do pico da doença, em abrir shopping-center, em relaxar a quarentena e estimular aglomerações?”
Sim, há quem ouse. São os coveiros do Brasil. Atenção, governadores e prefeitos. Não cedam a eles. Não se tornem um deles. Caso adotem, por pressão federal, uma p
O olítica suicida e genocida, o Brasil precisará de um lockdown (isolamento total) daqui a um mês. Quem viver verá.
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