No último dia 16, o presidente americano Donald Trump e sua
equipe de saúde anunciaram as diretrizes federais para a condução da crise
epidêmica. Embora a falta de detalhes abra margem a questionamentos, em linhas
gerais a proposta está no compasso dos protocolos da OMS e das melhores
práticas internacionais. Tanto que o fato nem sequer chamaria a atenção, não
fosse o contraste com o histrionismo do presidente.
Trump se comparou a um médico e declarou que a política
partidária deveria ficar de lado. “Eu não ligo para a campanha”, disse. Mas, na
mesma semana, exigiu que os cheques do Tesouro à população de baixa renda
chegassem com seu nome. Logo após suspender o financiamento à OMS – “alinhada à
China” –, ele se viu isolado numa reunião do G-7, enquanto os outros líderes
vocalizaram seu apoio à organização. Com efeito, Trump vem subindo
recorrentemente o tom contra a China em insinuações nunca bem explicadas.
Superada a atitude inicial de minimizar a ameaça do vírus,
Trump tem oscilado entre forçar a reabertura da economia e endossar a cautela
de sua equipe sanitária, provocando confusão e tensão com os governos
regionais, sobre os quais, no dia 13 de abril, reclamou “autoridade total”. Mas
o plano federal usa explicitamente o termo “linhas mestras”, e reconhece a
autoridade dos governos subnacionais para ditar o ritmo da reabertura. “Vocês
decidirão”, disse aos governadores. “Nós estaremos ao seu lado.”
O plano propõe uma progressão em três fases, mas nota que o
território americano é vasto e heterogêneo, recomendando a cada Estado que só
passe à Fase 1 após assegurados 14 dias de trajetória descendente de infecções.
O plano também sugere um “programa robusto de testagem”; vigilância redobrada
no ingresso de estrangeiros; maximização do distanciamento social; e o máximo
de teletrabalho possível. A Fase 2 propõe a remoção de restrições a escolas,
mantendo limites de aglomerações. A Fase 3 remove a maior parte das restrições,
mas recomenda que as pessoas do grupo de risco mantenham o isolamento e que se
evitem grandes aglomerações até que se encontre uma vacina.
O presidente anunciou ainda a formação de um grupo
consultivo que, com congressistas republicanos e democratas, contará com mais
de 200 líderes de 16 áreas estratégicas, como Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e
Elon Musk.
No início do mês, Trump chegou a dizer que abriria a
economia como um “big bang”. Já no lançamento do plano, embora tenha insinuado
que a maioria dos Estados estaria apta a iniciar a reabertura no dia 1.º de
maio, não contradisse o líder da força-tarefa contra o vírus, o dr. Anthony
Fauci, quando este declarou que a data talvez fosse “otimista demais”.
“Convenhamos, são águas não mapeadas”, disse Fauci. “Talvez haja alguns reveses
e tenhamos de dar passos para trás. E depois para a frente.”
No dia em que a Casa Branca anunciou seu plano, os EUA
contavam quase 668 mil infectados e 33 mil mortos – de longe as maiores cifras
mundiais. No início de março, Trump chegou a dizer que todo americano seria
testado. Mas a testagem está empacada em 140 mil testes semanais – 10 vezes
abaixo do ideal – e só 1% da população foi testado. Mais de 22 milhões de
americanos já entraram na fila do desemprego. Mas atribuir estes percalços
exclusivamente a Trump seria um equívoco tão grande quanto se deixar seduzir
por suas panaceias triunfalistas, atribuindo-lhe mais poder do que a federação
americana efetivamente lhe confere.
Assim como o presidente Jair Bolsonaro, Trump está sempre
pronto a suscitar minicampanhas eleitorais. Mas o seu plano mostra que também é
capaz de descer do palanque e se resignar, se não com humildade, com um mínimo
de disciplina à verdade dos fatos apurados por sua equipe científica. Na falta
de melhores paradigmas de estadistas, Bolsonaro, sempre ansioso por emular seu
ícone, poderia adotar algo deste comportamento bipolar. Ainda estaria longe do
“meio virtuoso”. Mas qualquer passo além do círculo cerrado de sua obsessão
eleitoreira já seria um passo rumo à sanidade.

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