O presidente Bolsonaro tentou dar ares de apoio dos
militares à sua presença na manifestação antidemocrática que avalizou no
domingo em Brasília, mas soube, antecipadamente, que a área militar se
incomodava com a escolha como moldura de uma ação política o Forte Apache, como
é conhecido o Quartel-General do Exército.
Ele convidou para acompanha-lo os ministros da Defesa,
General Fernando Azevedo e Silva e o ministro-chefe da Secretaria de Governo,
General Luiz Eduardo Ramos, que recusaram, por considerarem que a presença
deles sugeriria que o Exército avalizava a manifestação.
Por ser político, os generais consideram que Bolsonaro tem o
direito de participar de manifestações políticas, mas, diante da repercussão
negativa, avaliaram que o presidente deu um passo em falso ao convalidar as
reivindicações antidemocráticas.
Por isso, tiveram uma reunião com ele na noite do mesmo
domingo, onde ficou combinado que Bolsonaro falaria no dia seguinte para
desfazer o clima político tenso, e à noite o ministério da Defesa deu uma nota
oficial garantindo que as Forças Armadas obedecem à Constituição.
A frase proferida por Bolsonaro na manhã de segunda feira –
“Já estou no poder, por que daria um golpe?” – foi dita a ele na reunião de
domingo.
A investigação já em curso no Supremo Tribunal Federal (STF)
sobre as fake news cruzará inevitavelmente com o novo inquérito aberto sobre as
manifestações antidemocráticas, pois tudo indica que os mesmos que orquestram
as notícias falsas contra os que consideram adversários políticos são os que
organizam e financiam essas manifestações que pedem a intervenção militar e o
fechamento do Supremo e do Congresso.
A piada do dia entre os parlamentares é que os sorteios no
Supremo Tribunal Federal (STF) estão sendo feitos pela mão de Deus, como o gol
do Maradona. O inquérito sobre as manifestações antidemocráticas caiu, no
sorteio eletrônico, para o ministro Alexandre de Moraes, o mesmo que já preside
o inquérito sobre as fake news contra o STF. E o pedido do deputado Eduardo
Bolsonaro para impedir a prorrogação da CPI das Fake News no Congresso foi para
o ministro Gilmar Mendes, um dos mais ferrenhos combatentes das fake news, e
que tem assumido publicamente posições vigorosas contra as reivindicações
ilegais de intervenção militar. A tal ponto que retuitou uma declaração de
outro ministro do STF, Luis Roberto Barroso, não exatamente seu amigo,
repudiando os que pedem a volta do AI-5 e da ditadura militar.
O inquérito das fake news já existe há um ano no Supremo, e
recebeu muitas críticas pela maneira como foi criado, em regime de sigilo como
o de agora, e sem a participação da Procuradoria-Geral da República. Está mais
avançado do que o Procurador-Geral atual, Augusto Aras, gostaria.
Ele pediu a abertura de um inquérito para investigar os atos
antidemocráticos, mas excluiu o presidente Bolsonaro do rol de suspeitos de os
incentivarem, provavelmente para cacifar-se à vaga do Supremo que se abre em
novembro com a aposentadoria do ministro Celso de Mello.
Mas bastará um parlamentar, ou associação da sociedade
civil, requisitar ao ministro Alexandre de Moraes que inclua Bolsonaro no
inquérito que o pedido será encaminhado pelo Supremo à PGR, criando um
constrangimento que possivelmente impedirá a não aceitação.
O inquérito do ministro Alexandre de Moraes já tem uma
relação de 10 a 12 de deputados bolsonaristas, mais empresários, que tiveram o
sigilo quebrado, e a Polícia Federal estava a ponto de fazer busca e apreensão
em seus endereços quando veio a quarentena.
Com o novo inquérito, dificilmente vai dar para parar a
investigação, que já teria identificado o chamado “gabinete do ódio” que
funciona no Palácio do Planalto como a origem das fake news, e poderão surgir
dados que liguem esse grupo palaciano, coordenado pelo vereador Carlos
Bolsonaro, à organização dessas manifestações ilegais.
O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, conversou
ontem com o ministro Alexandre de Moraes e deverá receber um relatório sobre as
investigações das fake news no início da próxima semana.
A investigação original é sobre o STF, mas há indícios de
que está tudo ligado. A Polícia Federal deve manter os mesmos policiais que já
estão trabalhando no inquérito das fake news, para dar mais agilidade às
investigações.

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