Governo reage, militares contra-atacam na economia, na saúde
e no Congresso
O governo parece que tenta governar, sob o comando do
ministro-general Braga Netto (Casa Civil). É uma ação coordenada na política, é
o controle do Ministério da Saúde, é uma tentativa de articulação
administrativa de ministérios e outra de fazer com que a equipe econômica reaja
de modo rápido e “proativo”, digamos.
Na frente político-partidária, a contraofensiva ataca
governadores e o “parlamentarismo branco” de Rodrigo Maia, o que antes fazia na
maior parte por meio de “ruas” e milícias digitais. Trata-se de minar parte da
força de Maia, obriga-lo a negociar, influenciar a eleição do próximo comando
da Câmara (em 2021) e, no mínimo, criar um bloquinho parlamentar com tamanho suficiente
para barrar um processo de impeachment.
Um instrumento desse combate, como se viu, é a oferta de
cargos para partidos que formaram o núcleo do mensalão e do petrolão, o que já
estimula outras legendas a correrem para o balcão de barganhas.
Outra pressão veio dos ministros militares do Planalto, que
se queixaram em discursos públicos de que a cúpula do Legislativo e Judiciário
podam o governo. Nos mesmos discursos ou entrevistas, reafirmavam compromissos
democráticos _punham panos frios no comício autoritário de Jair Bolsonaro.
Na economia, Braga Netto e seus colegas apresentaram um
pré-plano de reconstrução. Por ora, parece modesto, para dizer o menos, embora
seja um sinal de que também no Planalto “sob nova administração” considera-se
que a reação do Ministério da Economia é insuficiente, “técnica, mas tímida e
com uma visão pré-crise da economia”, como disse um ministro militar que
prefere não dizer seu nome.
Mais uma vez, anunciou-se que haverá centenas de bilhões de
investimentos via concessões para a iniciativa privada, além do conserto da
legislação que trava negócios, o que mal andava mesmo antes da epidemia.
Antes da coronacrise, tais dinheiros privados já eram mera
hipótese, projetos que viriam a se tornar obras talvez em 2022. Agora, a hipótese
parece fantástica, pois não se sabe o que restará da iniciativa privada, das
poupanças, da demanda e de quando o ânimo de investir voltará a respirar.
O anúncio de investimentos públicos foi vago e, dado o
tamanho da ruína, minúsculo —R$ 30 bilhões extras até 2022, no que foi possível
entender. No entanto, parece haver alguma luz sobre o tamanho do desastre que
terá de ser enfrentado também na economia, que exigirá revolução de ideias
econômicas e capacidade executiva, ora mais escassas que equipamentos para
proteção do pessoal que batalha nos hospitais.
A conversa de que, em um eventual e distante pós-corona,
volta-se ao caminho das “reformas e do ajuste fiscal” demonstra inconsciência
do desastre, uma reação estereotipada e apego a um pensamento econômico que já
era velho mesmo no mundo “a.C”, antes do corona. Será necessário pensar o
impensável, como diz por aí qualquer Nobel de economia civilizado.
Ressalte-se que a contraofensiva começou com a demissão do
ministro da Saúde e com o comício autoritário em que Bolsonaro reforçou o
ataque aos governadores, titilou a pulsão de morte de parte do país e lasseou
ainda mais a democracia.
No sapato roto, sujo e alargado da democracia brasileira,
cabem agora discursos presidenciais para uma aglomeração que pede ditadura. Ou
seja, as tropas da contraofensiva avançam protegidas por cortina de fumaça
antidemocrática e com o apoio de bombardeio contra “as instituições que estão
funcionando”.

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