Notas sobre a conjuntura e o depois – abril 2020
A substituição do ministro da Saúde foi um revés para uma
boa política de enfrentamento da pandemia. Esse é o impacto mais importante.
Atinge todo mundo. A sociedade perde, ao menos momentaneamente, a orientação,
segura, transparente e diária que vinha sendo dada pelo Ministério da Saúde,
numa conjuntura crítica de incerteza e medo. O próprio Estado sofre, porque
suas instituições, flagrantemente em desacordo com a decisão presidencial,
tendem a ficar ainda mais tensionadas. E o governo, particularmente, terá que
alterar conceitos políticos, procedimentos técnicos e rotinas administrativas
em pleno desenrolar de uma situação crítica.
O impacto sobre o Presidente da República é ambíguo. De um
lado, o fato dele ter tomado uma decisão na contramão da ampla maioria da
população certamente desgasta mais sua imagem, já bastante desgastada por sua
conduta imprudente no cargo, que não começou agora. Ao mesmo tempo o devolve ao
jogo, pois ele retoma, em parte, a iniciativa política que perdera por causa
dessa conduta. Ele não abandonou a atitude imprudente, longe disso, mas,
radicalizando-a, criou nova situação e parece começar a sair das cordas,
reanimando suas falanges – as radicais e as áulicas -, energizadas com a
ostentação de autoridade. Acima de tudo, afastou do seu governo uma
personalidade política em ascensão, no caso o ex-ministro Mandetta, que ele
logo enxergou como concorrente. De fato, desde que Lula caiu no ostracismo e
Sergio Moro foi absorvido pela rotina de governo e por seu próprio elitismo,
ninguém conseguia se comunicar embaixo com a população, como Mandetta
conseguiu. Tirando-o dos holofotes, mesmo ao preço de colocar a saúde pública
em sério risco, o presidente espera reverter um jogo que lhe vem sendo
desfavorável. Parece ter sido essa a intenção. As próximas semanas e meses
mostrarão o tamanho da distância entre a intenção e consequências políticas
reais do gesto.
Mandetta teve apoio da população à sua conduta, em parte por
méritos pessoais de quadro tecnicamente correto da área da saúde e de quadro
político afeito ao entendimento e à articulação, dotado do talento para gerar
empatia com públicos amplos. Em outra parte, pela sinergia entre a equipe do
ministério e o engajamento da comunidade técnica da saúde. Com espírito público
e consistente experiência em gestão da saúde pública ela soube se impor e o
ministro a valorizou, como fez com a comunidade científica e acadêmica. Também
pela ampla adesão da imprensa e da sociedade civil ao conceito geral da
política adotada pelo MS.
Esse apoio social influenciou a atitude das forças
políticas. Mas nessa área, o apoio à personalidade pública do ministro não teve
o mesmo tamanho do apoio à política do MS. Foi assim inclusive com forças ditas
de centro e centro-direita, com as quais ele interage com mais facilidade, por
afinidade prévia. É compreensível que tenha sido assim. A projetos políticos
como o do governador de São Paulo, a ascensão popular do ex-ministro não teria
como ser ideia simpática, ainda que sejam convergentes as visões acerca do
combate à epidemia. A possibilidade do DEM passar a cogitar o nome de Mandetta
para 2022 não poderia passar despercebida. Já na esquerda petista ou vizinha, a
atitude em geral não foi hostil, mas cooperativa (caso dos governadores),
combinada a silêncio obsequioso das bancadas parlamentares e reticências e
ressalvas, geralmente ligadas no retrovisor, nas redes sociais e sites ligados
a ela. O trânsito ficou mais fluente com o embate entre Mandetta e Bolsonaro.
Mas na reta final, perto da queda, o ainda ministro teve restrições diretas de
Lula e Ciro Gomes. Elogios no campo político dessa esquerda só se tornaram mais
visíveis após sua saída do ministério.
O novo ministro, como bem assinalou a colunista Miriam
Leitão, ainda não disse a que veio. Talvez consiga dizer. Por ora, o que se
pode especular, a partir de genéricas pistas que deu, é que ele esteja em linha
com informações e estratégias que transitam, não necessariamente de modo
consensual, nos ambientes científico, empresarial e militar. Mas é improvável
que consiga realizar intentos pensando e agindo apenas como técnico. O processo
deve confirmar a convicção do seu antecessor de que sem política não há
caminho. E no esquema que está combinado, parece que a política vai caber a
Bolsonaro, mordendo e a seus militares, assoprando.
Sobre a situação do Presidente
Nove entre dez analistas da política brasileira constatam o
isolamento político do presidente. Sem negá-lo, faço duas ressalvas. O
isolamento chegou ao auge na primeira semana de abril, quando lhe faltou,
inclusive, condições para demitir o então ministro da Saúde. Mas a partir daí
nota-se uma operação para tirá-lo das cordas, levada a cabo pelos seus
ministros militares. É significativo o dado de recente pesquisa do Data Folha
de que 48% do empresariado, em geral, aprovaram a mudança do ministro.
Trata-se, ao que parece, de uma operação de estado maior em pleno curso, mesmo
que o perfil político e pessoal de Bolsonaro a dificulte. A segunda ressalva é
que, para um político com atitude política extremista e personalidade arrogante
como as de Bolsonaro, isolamento político não deve levar a recuo, reflexão e
reorientação de conduta. Assim reagiria um liberal-democrata e ele é a antítese
disso. Para políticos como Bolsonaro, isolamento é convite à radicalização.
Parece inevitável que caia no colo de Bolsonaro a
responsabilidade política pelo aumento de vítimas da pandemia, mesmo que não
haja aí uma relação necessária de causa e efeito, pois nunca se poderá mensurar
com precisão em que grau o afrouxamento do isolamento social se deverá à
influência do presidente e em que medida o afrouxamento causará maior
contaminação, ou pane no sistema de saúde. Não há nem haverá provas, mas já há
forte conexão de sentido, que será difícil seu discurso neutralizar, nas
condições da nossa democracia. Ainda mais quando se somar, à crise sanitária,
uma dura recessão econômica, com suas implicações sociais.
Os movimentos do governo Bolsonaro – estratégia ou vôo
cego?
Enxergo uma estratégia de governo, da qual Bolsonaro faz
parte de modo pouco usual para quem ocupa o cargo de presidente. Há momentos de
confusão, mas não desorientação. O modo de enfrentamento da pandemia e o
desfecho do affair com Mandetta podem ajudar a desfazer dois erros de
interpretação difundidos durante o primeiro ano do governo, dos quais não me
excluo, aliás. Pensava-se em alguns ministros militares como quadros da
corporação dentro do governo e que eles, nessa condição, estariam contendo um
presidente incompetente e radical, para o país ser governado apesar dele, com
racionalidade e moderação.
Parece mais claro, agora, que paraquedistas que ocupam salas
no Planalto ou na Esplanada não o fazem como agentes do Estado, ou da
corporação militar, mas como governistas cujo objetivo é sustentar esse
específico governo, dando respaldo a Bolsonaro, ainda que à custa de agressões
ao Estado e de saias justas com a própria corporação militar. Inclusive o Gal.
Braga parece migrar para essa posição. Quando convenceram Bolsonaro a não
exonerar Mandetta, naquele chamado dia do fico, quem estava sendo blindado era
o presidente, não o ministro. Esse começou a ser fritado em fogo alto no dia
seguinte e não a partir da sua entrevista ao Fantástico, uma semana depois. A
entrevista parece ter sido a reação de Mandetta e do DEM para consumar, em
condições mais favoráveis, um desenlace já decidido pelo governo, por
entendimento entre Bolsonaro e seus militares.
Isso não significa que, mais adiante, essa simbiose se
manterá. Mas caso se desfaça, o plano alternativo não parece ser o de dar
protagonismo, com vistas a 2022, a um político democrático, seja de esquerda,
ou mesmo de centro, direita, ou centro direita, como Mandetta, Dória, Maia ou
outro qualquer. Vejo hoje em movimento um projeto de guardiania que tem e terá
relação tensa com a ampla democracia política que vigora no Brasil. Se depender
desse grupo de militares (insisto que não me refiro à corporação, mas a um
grupo político) seu colega fardado que ocupa a vice-presidência da República
pode ter um destino político além do de um presidente- tampão. Coloca-se aqui,
de novo, em questão, o tamanho da distância entre a intenção dos militares
governistas e as consequências e possibilidades reais de êxito dessa
estratégia, que vai ficando nítida. A questão política só se resolverá após a
pandemia, a depender, em boa medida, dos estragos sociais e econômicos que ela
provocar.
Mas desde já é possível dizer que esse grupo militar, além
de exercer força de gravidade sobre grupos palacianos e ministérios, através
dos quais dialoga com políticos e partidos, parece ter certo apoio empresarial.
A base conjuntural desse entendimento que pode enlaçar, por cima, esses atores
no curto prazo é a necessidade de retomar, o mais brevemente possível, a
atividade econômica, com vistas a atenuar os efeitos, necessariamente
rigorosos, da recessão que já se instalou e que não irá embora junto com a
pandemia. Mas para que uma aliança como essa seja sustentável e produza consequências
políticas sistêmicas, as suas partes terão que se acertar em assuntos
estratégicos, tais como o perfil futuro da presença do estado na economia e os
limites aceitáveis de absorção institucional e processamento democrático do
conflito social. Normal que não haja definições sobre eles nesse momento, mas a
indefinição não significa que cada qual dos atores não já esteja formando uma
ideia a respeito.
No caso do empresariado é insensato pensar que chegarão a
uma visão “de classe”. Decisivo será, sim, o nível se convergência possível
entre setores que sejam distintos o bastante para tornar a articulação ampla e
suficientemente coincidentes quanto à relevância do seu peso econômico, para
que essa relevância compense, na hora da operação política, a dificuldade
comunicativa com a base da sociedade, decorrente da posição assimétrica que
ocupam, nessa sociedade. Para eles a questão política de fundo é a escolha
entre os riscos e vantagens da democracia, de um lado, e riscos e vantagens da
guardiania, de outro.
Já os ministros militares – que desde a campanha eleitoral
passada vêm se constituindo como grupo político e que buscam recrutar novos
quadros entre os ativos e reservistas da corporação – parecem servir-se de um
pensamento estratégico mais amadurecido. A formulação, naturalmente, é externa
a grupo e, nesse sentido, há nexos com a corporação militar, ainda que a
execução não conte com ela e até a constranja, em certos momentos, quando
entram em jogo fatores estranhos à lógica estratégica do intelectual militar. O
calcanhar de Aquiles está na baixa perícia desse grupo no manejo da política,
que é necessária para operar a estratégia.
Já as lideranças civis, que formam a elite política, se têm
revelado prudentes e hábeis em táticas de conjuntura nessa quadra difícil, mas,
ainda na defensiva e presas ao imediatismo, parecem se ressentir de uma
estratégia positiva que lhes dê unidade ao lidar com desafios de médio e longo
prazos. Sintoma disso foi não terem encarado a ascensão pública do ex-ministro
Mandetta como capital político comum, para dar nome e sobrenome à ideia de
centro político que há anos se cogita para tirar o país de uma polarização
política estéril. Um cavalo passou selado e não foi montado, embora ainda possa
ser, mais adiante, a depender da percepção pública sobre as decisões tomadas
para enfrentar a pandemia. Se já houvessem se entendido sobre apostas a médio e
longo prazos, o desafio da saúde pública justificaria ensaios de reação
política e institucional à exoneração do ministro. Se não poderiam impedir
Bolsonaro e os militares de removê-lo, ao menos teriam mostrado a eles que
o preço político para plantar uma guardiania em vestes de democracia no Brasil
será mais alto do que será se o centro político permanecer fragmentado. Mas os
dados ainda rolam. Um otimismo moderado permite considerar a unidade da elite
política civil como um processo em construção. É desse processo que essas notas
se ocuparão, a partir daqui.
Relações entre Legislativo e Executivo – o estado da arte
Esse é terreno crucial para definir o desfecho da crise
atual. Do ponto de vista dos democratas é terreno mais promissor que o da
disputa, com Bolsonaro, pela simpatia do grupo militar governista. O
Legislativo é o leito mais seguro para a construção de uma unidade que vá do
Centrão à esquerda. Essa via – que já se ensaiava antes, principalmente com o
fortalecimento da liderança de Rodrigo Maia na Câmara – tem sido intensamente
testada na conjuntura de combate à pandemia. A conduta já observada entre forças
aliadas na viabilização da reforma da Previdência passa, agora, quando a pauta
é mais consensual, a ser adotada como padrão para as relações entre
praticamente todas as forças e partidos. Esse padrão tem levado o Legislativo a
suprir carências governativas advindas da irresponsabilidade presidencial,
através de ampliação dos consensos internos e de um diálogo tenso, mas efetivo,
com as zonas de racionalidade presentes no Executivo. Esse script tem testado
positivo, não só como solução para a governabilidade, mas também como rota para
a unidade política requerida para, num primeiro instante posterior à pandemia,
resolver, republicanamente, a questão Bolsonaro.
Esse entendimento parte da premissa de que a ação subversiva
do presidente, conquanto possa ter seus danos minimizados não se sabe até
quando, promove fissuras nas crenças e procedimentos democráticos. Daí estende
uma nuvem sobre as possibilidades de uma saída democrática a partir de 2022. Há
uma pedra no caminho do reencontro do país com a sua normalidade e não se pode
subestimar o fato dessa pedra estar ocupando a cadeira presidencial, usando-a
para tentar trincar a democracia de variados modos. A reação institucional
precisar vir e Legislativo e Judiciário precisarão observar o timming que, uma
vez ultrapassado, tornará essa reação impraticável. Três pontos, entrelaçados,
sobressaem na pauta: a avaliação prospectiva da possibilidade de se processar o
impedimento no imediato pós-pandemia, a condução articulada da sucessão das
mesas diretoras das duas casas legislativas e a formação de um consenso a
respeito das eleições municipais.
Sobre possibilidades de impeachment
Depende de um conglomerado de fatos, circunstâncias e
vontades. Fatos como a extensão da crise sanitária e de suas consequências
econômicas, no Brasil e fora dele. Circunstâncias como o humor do eleitorado, a
ser captado em pesquisas no pós-pandemia, ou como a realização ou não de
eleições esse ano. Vontades traduzidas em estratégias de atores políticos
relevantes, nos âmbitos dos três poderes e nos partidos, com destaque para a
atitude e atos do presidente. E as de agentes organizados na sociedade civil,
incluindo aí imprensa, empresariado e organizações populares. Matemáticos
poderiam armar uma matriz de probabilidades com essas variáveis. Analistas e
cientistas políticos precisam esperar. Partidos políticos podem se dar a esses
luxos?
Do ponto de vista da política em ato, a questão não pode ser
submetida a cálculos matemáticos, nem pode ser mais postergada. As
justificativas públicas para o adiamento cessarão com o arrefecimento da crise
sanitária. Se a elite política não se mover por moto próprio terá que fazê-lo
de improviso quando o tema ganhar as ruas num contexto pós-isolamento, situação
em que as lideranças políticas terão menos chance de orientar a sua direção.
Antecipar-se é o mais prudente e, se diante de uma
conjuntura nada matemática, não é possível fazê-lo com clareza sobre a
sequência dos passos, há que se fazer ao menos com a clareza possível sobre o
sentido político que se queira dar ao processo. Construir as premissas para que
ele se desenrole como causa cívica, apoiado por arco político mais amplo do que
foi o “Fora Collor” e muito mais ainda do que o arco político e social que se
formou para o impeachment de Dilma Rousseff, que não estancou a divisão do
país, embaixo. Conduzido assim, o processo jurídico-político do impedimento
poderá aprofundar o nível do consenso já alcançado no Congresso.
O timming também se relaciona a condições objetivas do
ambiente do STF. A crise sanitária colocou em segundo plano, ao menos por
enquanto, as clivagens políticas que vinham marcando algumas decisões e a
imagem pública do tribunal e limitando suas possibilidades de exercer a
moderação que constitucionalmente lhe compete. A virtual cristalização daquela
situação está entre os motivos que faziam cada vez mais olhos se voltarem a
militares, como se eles pudessem ser substitutos funcionais da instituição. A
irresolução do presente conflito entre o presidente, de um lado, o sistema
político e a sociedade civil de outro, mostra que o equívoco dessa posição não
é apenas institucional, mas também político. A lição desse março/abril precisa
ser assimilada e o novo momento do STF valorizado, ainda mais quando se sabe
que a situação pode se tornar volátil com a mudança do seu presidente, prevista
para setembro e a substituição do seu decano, logo a seguir.
As sucessões no Legislativo
Como maior volatilidade e maior número de incertezas são
traços óbvios de conjunturas críticas, prospecção aqui é inútil. O que não
impede fixar uma premissa lógica sobre esse tema. Quanto mais o ponto de
equilíbrio político alcançado hoje nas duas casas for conservado a partir de
2021, tanto melhor para que o processo siga na direção unitária em que está
indo e, por conseguinte, permita resolver, republicanamente, a questão
Bolsonaro. Esse ponto de equilíbrio é soma de despolarização política e
compromisso social. O primeiro termo do par exige, principalmente, um
reposicionamento da esquerda parlamentar, mormente do PT, cuja atitude
“histórica” é de resistência à integração a um centro de articulação comum,
onde não possa exercer hegemonia.
Um reposicionamento vem avançando, sem prejuízo do viés
populista e/ou personalista das vozes eleitorais de partidos de esquerda fora
do Parlamento. O segundo termo da equação exige reposicionamento da centro-
direita, que precisará acompanhar o que se dá no mundo todo e rever
resolutamente seu compromisso com a ortodoxia econômica dita neoliberal. Em
suma, para ter bom andamento, a estratégia da convergência para vencer as
crises sanitária, econômica e política terá que afastar os fantasmas de duas
ideologias contrárias à política: o hegemonismo pré-político do tempo de
Rousseff e o fundamentalismo econômico de Paulo Guedes.
Na Câmara, esse script prudencial tem no atual presidente da
Casa, que não concorrerá ao cargo, um protagonista natural. Na interação
positiva em torno dele está a chave da execução. O risco a ser evitado é a
direção do processo sair das suas mãos, situação em que consensos amplos serão
mais difíceis. No Senado, incerteza adicional decorre do fato de que o detentor
da posição institucional capaz de coordenar o processo deseja, ao que tudo
indica, achar caminhos de interpretação regimental para se candidatar à
reeleição. Essa situação em si já torna o ambiente daquela Casa mais poroso às
interferências do Executivo, pela exploração desse interesse, apoiando-o ou
não. O sucesso do script prudencial que sustenta o instável equilibro atual não
necessariamente depende das direções da Casa e do processo político ficarem nas
mãos do mesmo ator. Pode até ser requerida a moderação do Judiciário daí porque
ele pode, em alguma medida, também vir a ser um ator.
O tema da sucessão será inevitavelmente implicado na
tentativa de Rodrigo Maia de retomar/ melhorar seu diálogo com a esquerda, meio
estremecido desde que pautou e fez aprovar a MP do contrato verde-amarelo.
Efeitos imediatos desse movimento são notados em recíprocas declarações
públicas dos interlocutores. Maia cuida, como deve, da mobilidade do seu pé
esquerdo. E a esquerda, por seu turno, ocupa, como também deve, o espaço que
lhe oferece Alcolumbre no Senado para se recuperar do revés sofrido na Câmara.
O alvo comum parece óbvio: acelerar, ampliar, aprofundar o entendimento e acumular
forças para um enfrentamento com o Presidente. Essa convergência de interesses
contra um adversário comum não seguirá itinerário cor-de-rosa. A sucessão nas
duas casas será um desafio. Pela lógica da disputa sucessória, a esquerda –
mesmo que não tenha pretensões próprias – pressionará Maia para enfrentar
Bolsonaro, mas em litigio, ainda que relativo, com o Centrão.
Pela lógica do processo do impeachment cívico e não
politicamente polarizado, Maia resistirá a essa pressão. O jogo todo é
legítimo, de todas as partes. Contanto que os jogadores não o levem ao ponto de
permitir espaço a quem quer virar a mesa e o próprio jogo. A radicalização
provocada por Bolsonaro pode servir de biombo a ministros como Guedes, Moro e
os militares para veicularem soluções que aliviem sintomaticamente os impasses,
mas permitam a reintrodução, no Congresso, de uma polarização mais permanente,
seja direita x esquerda, São Paulo x nordeste, ou Câmara x Senado. Pode-se ver
esse jogo quando Bolsonaro desafia Maia para uma briga de rua, enquanto o
governo procura amaciar o Centrão e o Presidente do Senado. A disputa pela
sucessão na Câmara e entendimentos sobre reeleição no Senado são fatores que
devem ter influência crescente.
As eleições municipais
O presidente da Câmara tem usado um argumento prudencial
para resistir ao adiamento das eleições. Seria um precedente a alimentar
virtuais apetites no futuro. Ao lado dessa razão, é intuitivo que haja outra,
de mais complexa enunciação, porém de maior peso. A interação política entre as
medidas de socorro federativo ora em curso por conta da pandemia e um processo
de renovação dos governos municipais criaria, na base do sistema político que
se relaciona diretamente com a sociedade, um ambiente favorável à solução que o
Congresso encontre para a crise política derivada da conduta presidencial.
Basta pensar na possibilidade de um efeito Mandetta, em contraste com um Teich
sem efeito, para supor que Maia raciocina com hipóteses conectadas ao mundo da
política real. Compare-se esse cenário com o seu oposto.
Adiadas as eleições para 2022, ficariam os atuais prefeitos
livres do risco das urnas e expostos a duas pressões: a do alinhamento político
em torno de projetos eleitorais estaduais, comandados pelos governadores e/ou
as do governo federal, que voltaria em alguns meses a deter a chave do cofre
sem ter mais que obedecer aos critérios federativos estipulados consensualmente
no Congresso, no contexto da crise sanitária.
Sendo fortes no Brasil, como se sabe, os laços de
reciprocidade eleitoral entre prefeitos e deputados federais, o aumento da
força gravitacional dos governos estaduais e do federal sobre os prefeitos,
permitido pelo adiamento das eleições, afetaria, indiretamente, os
parlamentares federais, no sentido de uma maior fragmentação das suas
preferências. Tenderia a diminuir a influência da dinâmica política consensual
em curso no Poder Legislativo na indução do comportamento dos parlamentares
diante do processo de impeachment e da nova situação política que esse processo
instituir.
Ademais, a ideia de prorrogar os atuais mandatos até 2022,
para a coincidência dos vários níveis de eleição, é um retrocesso na autonomia
que pleitos municipais passaram a ter na política brasileira, permitindo maior
influência do eleitor sobre a gestão de suas cidades. Unificar os pleitos, seja
com argumentos financeiros, políticos ou gerenciais é, em tese, apostar em mais
verticalização do contencioso político e mais polarização.
O adiamento das eleições pode, no entanto, resultar não de
escolhas políticas, mas de uma imposição das circunstâncias da crise de saúde
pública. Para não brigar com fatos, talvez haja espaço para pensar num
adiamento por alguns meses, garantindo a separação dos pleitos. Se as
circunstâncias e interesses, combinados, descartarem uma solução intermediária
e houver a unificação em 2022, esse cenário aqui suposto como adverso, não
produz fatalidades. Havendo política e preservada a democracia, todo limão pode
virar limonada.
Especulando preventivamente sobre o longínquo 2022
Com a pandemia, Keynes voltou à voga em economia. Mas seu
chiste pragmático de que “no longo prazo todos estaremos mortos” tem estado,
talvez inconscientemente, no radar da elite política brasileira e aqui se trata
da elite civil, nela incluídos militares e ex militares que adentram na
política. Tome-se o Congresso e os governos estaduais como palcos e será visto
como a elite política, atacada por um senso comum da opinião pública que a
condena pelos seus vícios e por suas virtudes, entrega-se com apuro a manobras
táticas defensivas e habilmente as converte em contraofensivas. Essas
devolvem-lhe poder de iniciativa, usado para tomar certas decisões racionais e
socialmente positivas, como tem ficado mais evidente durante as crises que ora
atravessamos.
A partir dessa performance tática, lideranças políticas,
ocupando posições institucionais chave, têm conseguido não só livrar o País de
ser convertido num quintal de milicianos, como recuperar, embora em dose ainda
pequena, uma reputação razoável, que tinha sido quase completamente varrida
pela sucessão de seus erros e, em seguida, pela captura do ambiente político
pelo fundamentalismo lavajatista.
Sem de modo algum pretender fazer reparo a essa conduta
tática, é possível esperar que a ela se junte alguma perspectiva estratégica, a
que for possível num contexto tão volátil. Algumas linhas do que pode ser essa
adição tonificadora foram esboçadas acima como sendo derivadas lógicas da
tática prudencial que se tem adotado, especialmente na Câmara dos Deputados,
não só por seu presidente e alguns dos líderes partidários. Exemplificam
prudência também, jovens parlamentares recém-eleitos acenando a uma “nova
política” e que logo se distinguiram da demagogia rasteira que se apossou dessa
boa ideia.
São personalidades, algumas muito jovens, que têm
compreendido, na prática, a dignidade e a eficácia da tradição do trabalho
parlamentar e partidário para efetivar os compromissos que assumiram com seus
eleitores. Nota-se também a crescente musculação política do presidente do
Senado, um neófito alçado ao cargo pela onda de descrédito da chamada “velha
política”.
Também se pode interpretar como prudencial a recente guinada
pragmática ao centro do governador de São Paulo, a moderação surpreendente
(ainda que seja uma febre efêmera) que acomete o do Rio de Janeiro, a
cooperação ativa de governadores nordestinos de esquerda numa articulação
federativa liderada por João Dória, para não falar do surgimento de genuínas e
animadoras atitudes prudenciais, como as do governador gaúcho e a do ministro da
Saúde, exonerado na semana passada. São exemplos diversos e distintos de um
mesmo processo regenerativo da política brasileira, pelo qual ela retoma o seu
espaço, miseravelmente usurpado, desde 2014, por uma associação destrutiva de
ideologia e distopia. Isso tem relevância estratégica para quem busca uma saída
política para a crise, que signifique opção pela democracia, não apenas em
oposição a formas aberrantes de autocracia, ditadura, fascismo, etc.., mas como
algo também muito distinto de uma guardiania, seja ela judicial, militar,
tecnocrática, ou qualquer outra.
As linhas esboçadas nessas notas querem dizer que uma
estratégia democrática não precisa de um ingrediente diferente do que compõe a
tática democrática hoje em plena operação no Brasil. A atitude prudencial pode
orientar uma e outra. E talvez uma das primeiras tendências de uma política
prudencial é não se congelar em um plano, fora do qual ela se sinta em fracasso
e resmungue, isolando-se no resmungo até se comportar como ideologia. Diversos são
os caminhos pelos quais uma atitude prudencial pode prevalecer. Pode, como se
sugeriu aqui, arriscar-se num passo político ousado como o de dar partida,
daqui a meses, a um processo de impedimento de um presidente cinco anos após
outro, desde que seja um processo distinto, pelo seu caráter cívico, não só
republicano e democrático, porque a aventura destrutiva atualmente investida de
poder político ameaça não só a república, mas o próprio estado; não só a
democracia, mas a própria sociedade.
Ninguém sabe se a situação concreta que se desenhará no
pós-pandemia permitirá que a solução parta de uma articulação entre
Legislativo, Judiciário e sociedade e se concretize tão logo a pandemia passe,
como aqui se supõe possível. Talvez ela não se consume, porque dividiria parte
do que já está unido e assim perderia sua razão de ser. Nesse caso, por uma
razão política razoável, será melhor esperar 2022. Na ausência de certeza, a
prudência sugere que se pense nos dois caminhos sem descartar nenhum deles. O
que não se pode arriscar é não termos saída democrática possível em 2022 porque
se deixou a sabotagem da democracia consumar seu desiderato, sem a devida
contenção institucional. Isso pode ocorrer, se no âmbito das forças
democráticas – aqui permitam evocar Max Weber – o raciocínio se restringir a
uma calculo com respeito a fins. A atitude prudencial morre no varejo político
se não mobilizar também valores. Toda prudência logo será abandonada na luta
para conservar o poder pelo poder. Luta ilusória, como é ilusório o poder que
se exerce assim.
A conclusão dessas notas evocará não mais o pensamento de um
autor, mas um processo da história política brasileira recente que tem a ver
com a concretíssima democracia que temos. Qual foi a estratégia da frente democrática
que a conquistou após derrotar uma ditadura num processo político de 15 anos,
de 1974 a 1988? Constituição primeiro e eleição direta depois, como aconteceu,
ou diretas já e constituição depois, como poderia ter acontecido? O primeiro
caminho implicava num passo intermediário: participar do antidemocrático
Colégio Eleitoral. O segundo exigia, com passo intermediário, obter apoio de
dois terços do Congresso a uma Emenda Constitucional. Houve quem preferisse e
defendesse tanto um como outro caminho.
Em ambos os casos os argumentos e os argumentadores eram
muitos, e dentre esses muitos, havia vários politicamente muito respeitáveis e
vários outros socialmente bem amparados. Durante aqueles anos houve momentos de
avanço e recuo, de esperança e de desalento. E muitas reviravoltas, de
situações e de opiniões. Gente que preferia um caminho passou a preferir outro
e vice-versa. Ao final aquela ditadura acabou e, em seu lugar, não ficou outra
ditadura politicamente oposta, ou uma guardiania. Instalou-se uma democracia.
Esse era o objetivo estratégico. Foi alcançado porque os atores políticos não o
perderam de vista, apesar da cacofonia em torno do caminho. A unidade
prevaleceu porque a liderança política soube ouvir a sociedade e por isso a
preservou.
Ulisses Guimarães e Tancredo Neves encarnavam, cada qual, um
dos dois caminhos. Cada qual lutou pelo seu, mas não apenas agiu em favor do
seu. Quando preciso, em nome do objetivo comum, ajudou a pavimentar o outro.
Tancredo esteve ao lado de Ulisses em todas as praças lotadas que gritavam por
diretas e mobilizou, como governador de Minas, todos os recursos possíveis para
lotá-las. Ulisses comandou os democratas na ida ao Colégio Eleitoral que elegeu
Tancredo. Altruístas? Não. Políticos realistas, orientados aos fins e aos
valores.
A regeneração da política brasileira passa pelo resgate
desse tipo de realismo. Há sinais de fumaça a indicar que ele renasce, em meio
ao drama do bolsonarismo e do Covid-19. Trata-se hoje de defender a democracia
real que o realismo político criou. A liderança e a cidadania precisam se
sintonizar no agir. A FAP pode ajudar a pensar.

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