O governo anunciou um “Plano Marshall” para recuperar a
economia após a pandemia.
O Plano Marshall é visto como uma bem-sucedida injeção de
dinheiro público na reconstrução da infraestrutura da Europa após a 2ª Guerra
Mundial, que teria aberto as portas para mais de duas décadas de crescimento
acelerado.
O primeiro esboço do plano brasileiro aponta para aumento do
investimento público, isentando projetos prioritários do teto de gastos. Há
sugestão de pular etapas do processo de planejamento para os investimentos
saírem mais rápido. Serão colhidas opiniões de empresários sobre os incentivos
a setores considerados prioritários.
Essa fórmula parece não diferir da política instituída a
partir de 2010, que levou o país à queda de 7% no PIB entre 2014 e 2016. O que
se viu foi investimento público malfeito, com base em projetos apressados,
queda de produtividade e disparada da dívida pública.
Naquela ocasião, estávamos em melhor forma fiscal, colhíamos
os benefícios do boom de commodities, e a economia mundial estava em crescimento.
Será que daria certo agora, em condições mais adversas?
Não só o diagnóstico que embasa a proposta parece
equivocado. Também inadequada é a sua comparação com o Plano Marshall.
Esse plano representou uma injeção de dinheiro dos EUA nos
países da Europa. Que país seria o patrono do Brasil?
Nós, mesmos, é que vamos financiar os projetos? Mas vamos
sair da pandemia com a dívida e o déficit do governo em 90% e 8% do PIB,
respectivamente!
Não contabilizar os investimentos no limite de gastos não
significa que eles não vão aumentar a dívida. Haverá, isso sim, descrédito dos
indicadores fiscais. Outro problema da fracassada tentativa recente.
Pressionar ainda mais o Tesouro provocará fuga de capital e aumento do custo de financiamento da dívida, travando a retomada do crescimento.
Pressionar ainda mais o Tesouro provocará fuga de capital e aumento do custo de financiamento da dívida, travando a retomada do crescimento.
J. Bradford de Long e Barry Eichengreen mostram que a real
importância do Plano Marshall foi ter funcionado como um atrativo oferecido
pelos EUA para induzir a Europa Ocidental a retornar para a economia de
mercado.
Durante a guerra, os governos se acostumaram a políticas
intervencionistas. Havia o temor de que deixar o mercado voltar a funcionar
poderia gerar outra depressão, como a dos anos 1930.
O comunismo prosperava na vizinhança e induzia os políticos
a manter as práticas de guerra, tais como controles de preços, racionamentos de
divisas e o planejamento central.
Na Europa pós-guerra, todos os segmentos sociais queriam
recuperar renda e patrimônio destruídos e pressionavam seus governos por ajudas
e subvenções, levando a endividamento público e inflação.
O dinheiro dos EUA aumentou o tamanho do bolo, permitindo
uma distribuição de perdas menos draconiana entre os diversos setores da
sociedade. Viabilizou a estabilização macroeconômica, a construção de um novo
pacto social e reformas pró-mercado.
Muito pouco foi gasto em infraestrutura. A maior parte da
ajuda financiou déficit preexistente.
Ao lado da “cenoura”, a ajuda havia um “porrete”. O uso do
dinheiro tinha que ser aprovado pelos americanos, que eram os gestores do
plano, e o faziam com mão de ferro. A França teve seus fundos retidos enquanto
não adotou uma política de equilíbrio fiscal. Da Alemanha exigiu-se o
saneamento da estatal de transporte ferroviário.
Os gestores do plano também induziram a abertura econômica e
a integração dos países europeus, bem como a construção de um bom ambiente de
negócios. O investimento privado e a produtividade dispararam. O setor privado
foi o responsável pelo sucesso econômico.
O Plano Marshall foi indutor das reformas de que o Brasil
precisa. Teremos que fazê-las por iniciativa própria, sem a tutela de um
interventor externo. Não será fácil desenhar um acordo social de repartição dos
custos com a renda em contração. Fundamental não reincidir em erro que
cometemos tão recentemente.
*Marcos Mendes é pesquisador associado do Insper, é autor de
‘Por que É Difícil Fazer Reformas Econômicas no Brasil?’

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