O ministro da Saúde, Nelson Teich, foi genérico. No seu
discurso de posse, nem falou a expressão “distanciamento social”. Tentou
contornar o incontornável. O assunto está no centro das atenções, e o
presidente Jair Bolsonaro não fugiu dele. Disse, logo em seguida, ao explicar
as razões de ter trocado o ministro, que quer “essa briga de começar a abrir o
comércio”. O presidente sabe que não poderá decidir isso, já que o STF foi
claro sobre as competências dos governadores e prefeitos, mas continua jogando
politicamente. O novo ministro, se não quiser ser um joguete na mão do
presidente, terá que marcar o território sendo mais claro sobre o que pensa e
sobre qual é a sua estratégia.
Teich falou sobre a importância de termos mais informações
sobre o coronavírus. Isso é óbvio. Todos querem no mundo inteiro mais
informações sobre o vírus e isso só se conseguirá com aposta maior na ciência,
coisa que seu antecessor defendia. O presidente, contudo, é um negacionista da
ciência em todas as áreas. Teich disse que é preciso a integração as várias
pastas do governo. Claro. É isso que o chefe da Casa Civil, Braga Neto, tem
tentado demonstrar que já existe com aquelas entrevistas no Palácio do Planalto
em que diariamente se alternam os ministros de diversas áreas. O novo ministro
disse que precisa montar seu time. Certo. É isso mesmo que fazem todos os que
chegam aos seus postos. Ou seja, ele assume falando platitudes e sem dizer qual
será a sua estratégia. Não fez referência à cloroquina, mas falou de um
antiviral como promissor. Essa notícia animou as bolsas há dois dias, mas é
dessas informações que vêm e somem ao sabor das cotações. Há uma corrida dos
laboratórios por remédios e vacinas e, claro, a torcida geral é para que logo
se chegue ao bom resultado, mas o que temos até agora é nada.
Nelson Teich assume no pior momento e isso, como disse
Bolsonaro, é demonstração de coragem. O errado foi mesmo o presidente que, por
motivo fútil, trocou um ministro que vinha fazendo um bom trabalho, num momento
dramático. Em plena escalada. Há 31 dias o país teve o primeiro registro de
morte por Covid-19. Ontem, dia da posse no ministério, o número de mortos
chegou a 2.141.
Não se sabe o que o novo ministro fará. Sua primeira fala ao
lado do presidente no anúncio foi contraditória, a segunda, no dia da posse,
foi vaga. O ministro que saiu foi claro em deixar recados. Mandetta reafirmou a
centralidade do SUS neste momento. E depois fez especial homenagem à Fiocruz.
Disse que haverá uma nova ordem mundial na saúde, a partir da pandemia e de
tudo o que estamos dolorosamente aprendendo. Defendeu que a nossa autonomia
científica será conseguida através da Fiocruz. Era mais uma diferença que
Mandetta marcava com os seus adversários na luta que manteve nos últimos meses.
A Fundação Oswaldo Cruz foi grosseiramente atacada no governo Bolsonaro. Por
quem? Pelo então ministro Osmar Terra.
A economia esteve presente durante todos os debates,
discursos, disputas políticas. O que realmente acontece é que a economia já foi
atingida, e inevitavelmente seria, com uma pandemia. Caso não fosse feita
qualquer política de distanciamento social, ela seria atingida pelo crescimento
do surto. A única forma de aliviar os impactos econômicos, defendida por todos
os bons economistas, é reduzir ao máximo a movimentação de pessoas, reduzir a
curva de infecções, mortes e demandas sobre o sistema de saúde. Para assim
voltar o mais rapidamente e com mais segurança à atividade normal.
E para aliviar os efeitos econômicos da paralisação das
atividades, os remédios que se conhecem são a transferência de recursos
públicos para os que ficaram abruptamente sem renda, para empresas boas,
evitando que elas quebrem, e cooperação fiscal entre os entes federados. Quanto
mais o governo for ineficiente na formulação e execução das medidas maior será
a crise econômica. Portanto, a resposta está mesmo na economia. O impacto já é
fato consumado e a hora é de reduzir danos. Ao ministro da Saúde cabe focar na
saúde. Se fizer um bom trabalho lá poderá ajudar a retomada de atividade, se
quiser adaptar as suas decisões ao imperativo econômico vai fracassar
duplamente.

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