Após ser diplomado pela Academia Militar das Agulhas Negras,
em 1977, o presidente Jair Bolsonaro fez o curso de paraquedismo na Brigada de
Paraquedistas do Rio de Janeiro e de educação física na Escola de Educação
Física do Exército. “Em 1986, servindo como capitão no 8º Grupo de Artilharia
de Campanha, ganhou projeção nacional ao escrever, na Seção Ponto de Vista da
revista Veja, artigo intitulado O salário está baixo.
Para Bolsonaro, o desligamento de dezenas de cadetes da AMAN
se devia aos baixos salários pagos à categoria, de uma forma geral e não a
desvios de conduta, como queria deixar transparecer a cúpula do Exército”
(Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, DHBB, Ed. FGV-Cepdoc, 2001, vol.
I, pág. 702).
Absolvido pelo Superior Tribunal Militar de graves acusações
formuladas pelo Ministro do Exército, Gal. Leônidas Pires Gonçalves, Jair
Bolsonaro foi para a reserva em 1988 com a patente de capitão. Lançando-se à
carreira política elegeu-se vereador pelo Partido Democrata Cristão. Em 1990 conquistou
a cadeira de deputado federal com votos da Vila Militar e de Rezende. Reeleito
seis vezes, em 2018 candidatou-se à presidência da República pelo Partido
Social Liberal (PSL). Após surpreendente campanha, na qual desempenhou papel
relevante a tentativa de morte em Juiz de Fora, Jair Bolsonaro suplantou os
favoritos para derrotar no segundo turno Fernando Haddad do Partido dos
Trabalhadores (PT).
O curto período como oficial do Exército é pouco conhecido e
são raras as informações a respeito do desempenho em sete mandatos,
caracterizados por inconstâncias partidárias. Pertenceu ao PDC, PPR, PPB, PTB,
PFL, PSC, PSL e está diretamente empenhado na criação do partido Aliança pelo
Brasil. Defendeu, em artigos publicados pela imprensa, as penas de prisão
perpétua e de morte, a condenação em trabalhos forçados, a maioridade penal aos
16 anos, o rígido controle da natalidade, a melhoria de vencimentos para
militares, o fim da estabilidade para os servidores públicos, a redução da área
destinada aos yanomanis. Na campanha de 2018, o combate à corrupção, ao PT, à
Dilma e Lula, a defesa do porte de arma de fogo e a facada na barriga deram-lhe
a vitória.
A montagem do governo fornece pistas sobre a estratégia
desenhada por S. Exa. para se reeleger em 2022. Protegeu os flancos e a
retaguarda cercando-se de oficiais generais, concedeu plenos poderes ao
Ministro da Economia Paulo Guedes, assegurou apoio popular com a nomeação do
Juiz Sérgio Moro ao Ministério da Justiça, permanece ativo e agressivo nas
redes sociais. Outros ministérios foram usados para atender aliados de campanha
ou fortalecer alianças com pequenos partidos. A bancada evangélica recebeu o
Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, entregue a Damares
Regina Alves, pastora das Igrejas Evangelho Quadrangular e Batista de Lagoinha,
de Belo Horizonte. A atriz Regina Duarte foi contemplada com a Secretaria da
Cultura do Ministério da Educação, para lhe garantir o apoio dos artistas.
A irresistível pandemia do novo coronavírus ressalta o
perfil paradoxal do presidente da República, capitão paraquedista treinado para
comandar soldados, cabos, e sargentos, preparado para o combate corpo-a-corpo
com baioneta ou armas de fogo, mas desprovido de recursos para as sutilezas da
vida política onde são essenciais o domínio da arte oriental do silêncio e
paciência de monge beneditino para ouvir e argumentar. A palavra (escrita ou
falada) é “sacramento de mui delicada administração”, ensinou Ortega Y Gasset.
São terríveis as repercussões econômicas e sociais da peste.
Do clima de pavor emergia a personalidade serena do Ministro da Saúde Luiz
Henrique Mandetta, pela confiança que conseguia transmitir. No auge da crise
foi eleito como inimigo pelo presidente Bolsonaro. É desnecessário
registrar para quem se inclina a opinião pública. Para o povo o Ministro
Mandetta era alguém de presença indispensável no Planalto. Recluso no
apartamento, reconheço que S. Exa. estava certo ao nos recomendar a quarentena.
O objetivo: salvar o maior número de vidas. Os prejuízos serão reparados
depois.
O rancor é a emanação da consciência da inferioridade,
escreveu Ortega Y Gasset. É, também, péssimo assessor.
— Almir Pazzianotto Pinto é Advogado. Foi Ministro do
Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho.

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