Ele fez de novo. Em plena pandemia, participou de um
protesto com pauta golpista e provocou aglomeração. Ao final de seu discurso,
apareceu uma tossezinha suspeita. A pergunta que se impõe é se é ético torcer
para que Bolsonaro contraia uma forma grave de Covid-19 e deixe de atrapalhar o
trabalho das autoridades sanitárias.
A resposta depende do tipo de ética que você abraça. Para o
consequencialista, que valora as ações pelos resultados que elas produzem, até
a morte de um líder inepto pode ser classificada como positiva, se ela, por
exemplo, acarretar mais vidas poupadas do que perdidas. O bonito das éticas
consequencialistas é que elas são perfeitamente igualitárias. A vida do
presidente vale o mesmo que a de um mendigo viciado em crack.
Assim, aqueles que estão convencidos de que a atitude de
Bolsonaro, ao fragilizar o isolamento, resultará em mais doença e mais mortes
estão filosoficamente legitimados a torcer para que ele experimente o seu
“resfriadinho”.
Embora eu creia que o consequencialismo é mais consistente
do que os sistemas éticos rivais, é fato que ele não é inteiramente
satisfatório. Poucos julgarão ética a conduta do médico que sacrifica um
paciente saudável para, transplantando seus órgãos, salvar cinco vidas.
E isso abre o flanco para éticas deontológicas, que são
aquelas que definem princípios fundamentais, como os de não matar ou não fazer
nem desejar mal ao próximo, e os convertem em regras fortes. Nessa matriz,
acalentar mesmo secretamente um pensamento de morte envolvendo o presidente já
cheira a pecado.
Como disse, meus instintos são consequencialistas, mas tenho
um lado, que podemos chamar de humanista ou até de carola, que faz com que me
repugne a ideia de torcer pelo sofrimento ou a morte de alguém, por mais
desprezível que seja essa pessoa. É claro que, se Bolsonaro insistir, meu lado
nerd acabará dobrando o humanista.
*Hélio Schwartsman é jornalista, foi editor de Opinião. É
autor de “Pensando Bem…”.

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