Bolsonarismo aula zero: técnica desviante. Apertou aqui,
abre-se outro pasto para o gado mugir ali. O presidente é mestre em lançar o
que se chama de cortina de fumaça. Sob forte pressão, acuado pelas
consequências de suas escolhas irresponsáveis ante a peste, informado de que
seu comportamento sociopata no curso de crise sem precedentes lhe esvazia a
base social, Jair Bolsonaro reage cultivando modalidade de conflito que o
coloque em zona de conforto e atraia a atenção da sociedade a um ponto distante
daquele em que se dá seu grotesco chamamento a que o povo vá às ruas respirar o
vírus.
Bolsonaro é um girassol publicitário cujo sol é o pulso das
redes. Esse é o termômetro do populista do século XXI. Ele decerto se baliza em
pesquisas. Não apenas as que apontam perda de apoio em decorrência de haver se
referido à Covid-19 como gripezinha; mas também as que lhe indicam o remédio
para minimizar o estrago: o discurso lavajatista de combate à corrupção, de
criminalização da atividade política e de luta contra o sistema “patife”.
O lavajatismo é o mais eficaz agente aglutinador que atua no
país. É o próprio espírito do tempo. A melhor materialização da mentalidade
autoritária a que vamos submetidos sem nem sequer perceber — a mesma que
concorreu decisivamente para a eleição de Bolsonaro. Ele sabe que a sociedade
tem raiva da figura do político e aversão à ideia de elite política. De modo
que, quando ante a mais mínima desmobilização de sua militância, logo sopra o
apito lavajatista. Opera assim com maestria.
Não é, portanto, que seja o popular, o amado, centro
irradiador de popularidade e atração. Não. Com rara capacidade para identificar
oportunidades e com extraordinária vocação para interpretar, Bolsonaro se
associa a demandas populares, aquelas que disparam o gatilho da comoção,e as incorpora.
Faz isso há décadas — e, sob todos os holofotes, diariamente, há 16 meses.
Fico perplexo com a constatação de que haja alguém ainda
surpreso com o comportamento revolucionário — palavra que, registro, tenho na
pior conta — do presidente no último domingo. O sujeito procede dessa maneira
desde que assumiu, líder escancarado de um fenômeno reacionário de ímpeto para
a ruptura. Alegoricamente, está sobre um carro (poderia ser boleia de
caminhão), diante de quartel, projetando discurso autocrático a uma plateia que
pede intervenção militar e ostenta pregações por fechamento do Congresso e do
Supremo, desde que assumiu.
A fala de domingo expõe — novamente — a noção precária e
inconformada do bolsonarismo sobre o que seja a democracia liberal. Vontade popular,
para Bolsonaro, é a vontade de seus apoiadores — e a isto se reduz o povo: a
seus apoiadores. Essa vontade popular compreende o fato de o sujeito haver sido
eleito como ordem, mandato mesmo, para que os demais Poderes se submetam aos
desejos do que seria, pois, um imperador.
O bolsonarismo é campanha permanente — campanha no sentido
de guerra. Campanha para submissão.
Sob essa lógica totalitária, num mecanismo de espantosa
inversão de valores, o exercício garantidor dos freios e dos contrapesos — símbolo
da ponderação republicana que controla a força excessiva — torna-se uma espécie
de traição, de conspiração do sistema contra o presidente; o presidente, que se
confunde com a vontade popular até se converter mesmo na vontade popular. O
presidente: o povo no poder. O presidente: eu sou a Constituição.
Por isso Bolsonaro (diz que) não negocia. Não negocia (é
mentira) porque se impõe. Essa é a fantasia do populista autoritário.
O bolsonarismo aposta pesadamente no estabelecimento de uma
cultura plebiscitária entre nós. Puro chavismo. O objetivo é minar o edifício
da democracia representativa para tornar descartável a ideia de Parlamento.
Qual seria a necessidade desse tipo de intermediação, se o líder pode falar
diretamente a seu povo?
Bolsonaro é forja de inimigos, usina de conflitos — o
gerador de instabilidades. Era assim antes da peste, em tempos de paz. Se o
tempo vira e é de crise, será a crise dentro da crise. Nunca houve dúvida de
que radicalizaria. Quer o choque e investe na desordem.
Não me surpreenderei se, instalada a depressão econômica,
afundado o Brasil enfim na ingovernabilidade que ele próprio forja, de resto
propagando teorias conspiratórias e acusando até a Corte Máxima de tramar golpe
contra si, Bolsonaro decretar medida extrema, como estado de sítio. Uma
provocação para que o Congresso reaja, derrube o decreto, promova o que seria
choque institucional violento — daí irrompendo o caos social, a desobediência
civil, a anomia em meio à pandemia. O golpismo está no ar tanto quanto o vírus.
Aliás, tendo falado sobre chavismo, alerto para a
possibilidade de o apoio armado com que conta o bolsonarismo não ser o militar;
mas o de milícias como aquelas que se amotinaram, contra o Estado, no Ceará.
Atenção a isso.

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