Em 1939, pouco antes de Hitler atacar
a Polônia e iniciar a Segunda Guerra, Freud lança
seu último livro, Moisés e a religião monoteísta. Neste livro que
trata da constituição de identidades coletivas através de identificações a
lideranças, há uma ideia surpreendente, sintetizada em uma pequena frase:
“Moisés criou o povo judeu”. Ou seja, não se tratava de afirmar que a liderança
era a expressão dos traços de seu povo. Na verdade, o quadro estava de cabeça
para baixo. Aquele que ocupava o lugar do poder e prometia uma grande
transformação acabava por constituir o povo, por definir os traços prevalentes
de sua identidade coletiva. Ou seja, havia uma força produtiva do poder, não
apenas uma força coercitiva. Da representação do poder, vinha uma força de
identificação que moldava paulatinamente os sujeitos a ela submetidos, que os
transformava em seus afetos, em sua estrutura psíquica, em suas ações. O poder
molda os que a ele se assujeitam.
Freud não conheceu o Brasil, nem nunca ouvi falar de Jair
Bolsonaro. Mas é certo que os últimos dias mostraram com precisão sua tese
de que o poder molda sujeitos, fazendo-os a sua imagem e semelhança. Todos
estão a perceber essa mutação na qual expressões de desprezo, indiferença e
violência antes inimagináveis de serem feitas a céu aberto e na frente de todos
se tornam manifestações cotidianas, em uma espiral em direção ao abismo que
parece não ter fim. Ou alguém realmente esperava ver, em meio a uma
pandemia, pessoas a manifestar na Avenida Paulista dançando com um caixão,
fazendo buzinaço em frente a hospital, zombando abertamente da dor e do
desespero de milhares de pessoas infectadas e lutando pela vida em situações
hospitalares precárias? Como se fosse o caso de expressar, da forma a mais
aberta e brutal, a indiferença em relação aos 2500 corpos mortos até
agora, ao menos se confiarmos nos números subnotificados. Como
se fosse o caso de repetir os “deslizes”, as “derrapadas”, ou melhor, os traços
de caráter de quem ocupa o poder.
Alguns podem dizer que isto sempre esteve aí, na indiferença
das classes mais altas ao destino e as chacinas perpetradas contra as classes
vulneráveis. Mas o pior erro é não perceber as placas tectônicas se movendo por
estar com os olhos submersos na lógica repetitiva do “sempre foi assim”. Não, há
algo novo a acontecer. Pois não se trata apenas da conhecida máquina
necropolítica do estado brasileiro. Trata-se da explosão de rituais públicos de
auto-sacrifício e de violência. Trata-se de uma dinâmica “suicidária”. Erra
quem acredita que essas hordas envoltas na bandeira nacional “não sabem do
perigo que correm”, são “burras”, como se fosse simplesmente o caso de procurar
explicar claramente o que é uma pandemia para todos voltarem para casa.
Diante do fascismo, Adorno e Horkheimer disseram um dia que
nada mais estúpido do que tentar ser inteligente. Nossa pretensa supremacia
intelectual ainda irá nos matar. Ela nos faz não ver como, no fundo, há uma
parte da população brasileira que deseja isto e se dispôs a jogar roleta russa
com todos e com elas mesmas. É este desejo que deve ser compreendido. Pois esta
será sua forma de se sacrificar por um ideal, mesmo que este ideal não prometa
nada mais do que o próprio sacrifício, nada além de um movimento permanente em
direção à catástrofe.
Neste sentido, estamos a observar uma mutação
impressionante. Mesmo sendo o pior governo do globo terrestre diante da
pandemia (comparado apenas a Bielorrusia, ao Turcomenistão, e ao renegado que governa a Nicarágua), o apoio a Bolsonaro não
cai. Ele muda paulatinamente. Setores da classe alta vão abandonando-o enquanto
ele compensa com adesões nas classes populares, repetindo um movimento que
vimos inicialmente com o lulismo. Dificilmente, este número mudará. Ele nem
subirá, nem cairá. Mas a qualidade deste apoio mudará. Ele deixará de ser
simples apoio para ser identificação profunda e aguerrida. Ao final, teremos um
país com 30% de camisas negras dispostos a tudo, pois acreditam estar em um
processo revolucionário de ressureição nacional. Este processo não tem mais
retorno.
Não será a primeira vez na história que uma dinâmica de afetos
e crenças desta natureza ganhou corpo. Esta implosão aberta de qualquer
princípio elementar de solidariedade, esse desprezo com os que morrem, esse
culto do próprio suicídio como prova de “coragem”, essa violência cada vez mais
autorizada até a formação aberta de milícias populares, esta crença em uma
revolução nacional redentora, isto tudo tem nome. Costuma responder pura e
simplesmente por “fascismo”.
Movimentos desta natureza sempre se aproveitam da fraqueza
de seus adversários. Enquanto Bolsonaro moldava uma parte da sociedade a sua
imagem e semelhança, havia sempre os especialistas em questões palacianas
florentinas capazes de identificar as intrigas que iriam “paralisa-lo”, os erros
que indicariam que “acabou para você”. Até pouco tempo, Bolsonaro foi descrito
como uma “rainha da Inglaterra”. Isto até ele mandar embora seu ministro da Saúde sem que nenhum cataclismo
anunciado realmente ocorresse. Não, não há nada que irá para-lo, nenhum
recuo ocorrerá. Um projeto dessa natureza só é parado de forma brutal. Mas esta
brutalidade necessária não está na consciência dos atores políticos atuais.
Poderíamos ter começado mobilizações contínuas pelo
impeachment há um mês. Mais uma vez, analistas finos diziam que não era a hora,
que isto só fortaleceria o discurso persecutório do Governo. Como se o Governo
precisasse de nós para alimentar seu próprio discurso persecutório e mobilizar
suas hostes. Não, agora eles denunciam um “plano” para derrubar Bolsonaro,
sendo que a oposição sequer conseguiu colocar um pedido de impeachment em
marcha, sequer permitiu a maioria de gritar por seu nome. No máximo, suas
lideranças endossaram um pedido de “renúncia”. Faltou pedir “por favor” a
Bolsonaro para que ele caísse em si e se afastasse de bom grado. Como dizia
Maquiavel, a audácia é qualidade fundamental diante da fortuna. Mas o único
ator que demonstra audácia a altura da situação é o próprio Governo. Em breve
teremos uma tentativa de golpe vendida como “contra-golpe preventivo”, sem que
a oposição tenha feito nada mais do que abaixos-assinados, petições e cartas
públicas. A última a acreditar em uma democracia parlamentar que simplesmente
não existe mais.
Acrescente ao quadro, o cálculo macabro que o Governo
conseguiu impor a parcelas da população. Para elas, trata-se de escolher entre
a bolsa ou a vida, entre a morte econômica certa e a morte física provável.
Nesse cálculo, o certo acaba por vencer o provável, ainda mais diante de
setores da população submetidos ao extermínio, ao desaparecimento, a chacina.
Este é o grão de racionalidade da situação apresentada por Bolsonaro. Ela só se
sustenta porque a terceira opção está interditada, a saber, nem a bolsa, nem a
vida, mas os dois.
Diante disto, que a sociedade constitua redes de auto-defesa
contra o pior que está por vir. Há duas semanas, pessoas que batiam panela em
suas casas contra o governo foram vítimas de disparos de balas de espingarda de
chumbo. Em manifestações pró-governo, cidadãos e cidadãs oposicionistas foram
violentamente agredidos. Quantas semanas ainda faltam para começar os
linchamentos e as balas reais?

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