O presidente Jair Bolsonaro resolveu mais uma vez contrariar
as recomendações de isolamento social feitas pelo Ministério da Saúde para
conter a pandemia de covid-19 e saiu a passear por Brasília na sexta-feira
passada, causando aglomerações e mantendo contato físico com eleitores,
atitudes que podem facilitar a transmissão do novo coronavírus. Nada indica que
não tornará a fazê-lo quando lhe der na telha. Questionado sobre seu
comportamento, o presidente respondeu: “Eu tenho o direito constitucional de ir
e vir. Ninguém vai tolher minha liberdade de ir e vir. Ninguém”.
De fato, o direito de ir e vir está entre os direitos e
garantias fundamentais de todos os brasileiros, conforme a Constituição. No
entanto, diferentemente do presidente da República, a maioria dos cidadãos está
cumprindo as determinações dos governos locais, baseadas em consenso médico e
científico, para que permaneça em casa e de lá só saia em caso de necessidade.
Ou seja, milhões de cidadãos aceitaram um limite temporário a seu direito
constitucional de ir e vir em nome da preservação de um precioso bem coletivo,
isto é, a saúde pública.
Essa é a essência da ideia de república, em que o desejo
pessoal de cada indivíduo, por mais legítimo que seja, não pode se sobrepor ao
interesse coletivo, expresso nas leis pactuadas por políticos democraticamente
eleitos. Para que a república se realize plenamente, portanto, é preciso que
seus cidadãos desenvolvam consciência cívica, isto é, tenham noção não somente
de seus direitos, mas também, e sobretudo, de seus deveres.
Estamos muito longe da república ideal quando justamente o
eleito para presidi-la se comporta como se não tivesse qualquer
responsabilidade sobre o bem comum. Ao insistir na “volta à normalidade” muito
antes do que a prudência recomenda, fazendo demagogia barata à custa da morte
de milhares de compatriotas, o presidente Bolsonaro manda às favas seu dever
irrenunciável de liderar os esforços para proteger a saúde da população diante
da ameaça real da pandemia. Pior: inspira seus mais fanáticos seguidores a
fazer campanha contra as determinações dos governantes estaduais e municipais
destinadas a forçar o isolamento social.
Assim, não se trata somente de uma divergência em relação à
melhor forma de enfrentar a pandemia; trata-se de uma verdadeira sabotagem aos
esforços do Ministério da Saúde e de governadores e prefeitos para que o
sistema hospitalar tenha condições de atender o máximo possível de doentes,
poupando os médicos da terrível tarefa de ter que escolher quem viverá e quem
morrerá.
Quando Bolsonaro, na condição de presidente da República,
passeia por Brasília, confraterniza com simpatizantes e diz, no seu idioma
peculiar, que “parece que está começando a ir embora essa questão do vírus”,
estimula muitos brasileiros a imaginar que a crise esteja perto do fim ou que
talvez não tenha a gravidade que as autoridades sanitárias – a começar pelo
Ministério da Saúde – apregoam. Não à toa, o ministro da Saúde, Luiz Henrique
Mandetta, queixou-se do comportamento do presidente em entrevista
ao Fantástico. Ao defender um discurso “unificado” no governo, baseado na
ciência e no bom senso, o ministro Mandetta disse que hoje o brasileiro “não
sabe se escuta o ministro ou o presidente”.
Para os bolsonaristas radicais e o próprio Bolsonaro,
contudo, não há dubiedade alguma. Não existe bem comum a ser preservado. Só
existem os interesses particulares de Bolsonaro e de seus fanáticos seguidores,
incapazes de aceitar os limites republicanos para suas vontades. Não por
coincidência, são esses que vivem a vituperar contra as instituições
republicanas, justamente aquelas que, felizmente, impedem Bolsonaro de realizar
plenamente seu projeto de poder.
Afortunadamente, como mostrou um estudo de cientistas
políticos divulgado pelo Estado, a maioria dos brasileiros – e dos
eleitores de Bolsonaro – é favorável ao isolamento social pelo tempo que for
necessário. Ou seja, o bolsonarismo antirrepublicano é minoritário mesmo entre
aqueles que um dia votaram no presidente. Na hora da crise, a consciência
cívica afinal parece falar mais alto – e as autoridades farão bem se ignorarem
o alarido dos que só pensam em si mesmos.

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