O negro gato desfilou diante das lentes do fotógrafo Orlando
Brito e buscou abrigo do sol de domingo embaixo do automóvel presidencial,
estacionado numa quadra da Asa Norte, em Brasília. No apartamento em frente,
Jair Bolsonaro e filhos degustavam milho com ketchup, ao lado de uma
metralhadora na parede.
O negro gato fugiu antes de o presidente subir no carro
preto e seguir para o QG do Exército. Ativistas o aguardavam, como vivandeiras
mascaradas, temerosas da morte pelo vírus, invisível e democrático na
contaminação. Apelavam para uma ditadura liderada, claro, por Bolsonaro.
Na cena havia algo fora da ordem institucional. O comandante
em chefe das Forças Armadas usava a portaria do QG do Exército para um comício
planejado, com coro contra o “bando de ladrões no STF, Senado e Câmara”.
Presidia um ato de potencial desqualificação do poder militar, inédito também
porque jamais se permitiu comício no portão do Forte Apache, como é conhecido o
Setor Militar de Brasília. Bolsonaro sorria e, frequentemente, tossia.
Foi para casa, vestiu camiseta amarela, bermuda e chinelos
pretos e sentou-se para assistir a críticas de Roberto Jefferson, seu antigo
líder no PTB, ao deputado Rodrigo Maia (DEM). Outro jogo combinado.
Bolsonaro quer eleger o sucessor de Maia na Câmara. Sonha
com novos sócios no bloco de centro direita, o Centrão, para dominar a pauta
legislativa na campanha eleitoral em crise econômica, marcada pelo número de
vítimas da “gripezinha”.
Em público diz que não pretende “negociar nada. Mas
atravessou os últimos 15 dias em acertos com líderes do Centrão, entre eles
Roberto Jefferson (PTB), Valdemar Costa Neto (Progressistas, antigo PP),
Gilberto Kassab (PSD) e Marcos Pereira (Republicano/Igreja Universal). Alguns
são personagens do mensalão e da corrupção na Petrobras. Todos, como Bolsonaro,
tentam garantir a sobrevivência política na crise pós-coronavírus, se possível
culpando outros pela imprevidência — o número de mortos já é o dobro da semana
passada.

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