Antes que já se formem, neste Brasil atual que pouco
reflete, pouco pensa e já reage, hordas de ataque a me acusar de desdenhar da
cultura popular e da cultura indígena, digo logo que a intenção do que vai
abaixo não é essa. É somente dizer que, em ciência, tudo é válido ser
discutido. Mas somente pode ser indicado como panaceia quando de fato assim
comprovar a ciência. Do contrário, somente produzirá falsas ilusões.
Em 1986, o Brasil perdeu uma das suas mais queridas
personalidades, o naturalista Augusto Ruschi. Em 1975, Ruschi buscava na
floresta novos exemplares de beija-flores, uma de suas maiores paixões. Estava
na Serra do Navio, no Amapá, quando deparou com diversos sapos da espécie
dendrobata. Pediu ajuda aos índios para capturar os sapos. Os índios se
recusaram e fugiram correndo. Ruschi ignorou os sinais. Pegou 30 sapos. Um dia
depois, foi internado em um hospital. Estava seriamente contaminado.
O dendrobata é um sapo altamente venenoso. Expele uma
peçonha que corroí o corpo por dentro. No caso de Ruschi, isso foi acontecendo
lentamente. Os problemas só foram se agravar e levar Ruschi a um quadro
gravíssimo onze anos depois. Uma reportagem do Jornal do Brasil, escrita por
Rogério Medeiros, alertou o país para o drama que o naturalista vivia. A partir
daí, houve uma grande mobilização para tentar salvar Augusto Ruschi.
Foi quando se imaginou que os índios, por estarem
familiarizados com o sapo venenoso, poderiam ter a solução. Sensibilizado, o
então presidente José Sarney ajudou para que fossem levados até Ruschi o
cacique Raoni, da tribo dos txucarramãe, e um pajé, Sapaim, da tribo kamayurá.
Raoni e Sapaim foram levados ao Parque Lage, no Rio de
Janeiro, onde se realizou a “pajelança”, uma cerimônia ritualística, também com
o uso de ervas e remédios naturais. Segundo Rogério Medeiros, que teve
autorização de assistir ao ritual, Sapaim retirou do pescoço de Ruschi uma
substância escura e malcheirosa que disse ser o “veneno” do sapo.
Na época, tudo isso teve enorme repercussão. Porque, depois
do ritual, de fato Ruschi melhorou muito. Ficou bem disposto e chegou mesmo a
declarar que parecia estar curado. Quatro meses depois, o naturalista morreu,
vítima de cirrose virótica. O veneno corroíra seu fígado.
Sapaim chegou a dizer mais tarde que ele tinha de fato
tirado o veneno. Mas que nada pudera fazer quanto às complicações que ao longo
do tempo ele produzira no organismo do naturalista. Algo que até faz algum
sentido.
O fato é que, durante o período entre a pajelança e a morte
de Ruschi, muito se discutiu no Brasil questionando a ciência tradicional e
tecendo loas à cultura popular, que parecia naquele momento triunfar. Em uma
entrevista a Bolívar Torres, o próprio filho do naturalista, André Ruschi,
afirma sobre todo esse debate: “Houve uma cultura sensacionalista (…). Havia
alguns interesses comerciais que estavam sendo mobilizados formando-se um jogo
comercial no mercado, oculto do público, da grande mídia”.
Agora, diversos pesquisadores estudam o uso de determinadas
substâncias que poderiam ser eficazes no combate ao novo coronavírus. Uma
dessas substâncias é a hidroxicloroquina. Os estudos ainda não são definitivos.
Assim, soa como irresponsabilidade querer desde já vender a
hidroxicloroquina como panaceia milagrosa. Da mesma forma, porém, soa
igualmente como irresponsabilidade querer desde já condenar o uso da
hidroxicloroquina como se fosse uma espécie de veneno. O uso da medicação
precisa, é claro, ser ministrada, testada, para que a ciência, afinal, chegue a
uma conclusão de fato sobre a sua eficácia.
Como no caso das ervas e rituais de Sapaim, elas talvez
tivessem algum efeito sobre o veneno do sapo. Mas verificar de fato como se dá
tal efeito e a sua eficácia, isso cabe à ciência. Os cientistas sabem que nada
é panaceia milagrosa. Embora poucos leiam, é por isso que os remédios vêm
acompanhados de bulas que alertam para os efeitos e eventuais danos de cada
medicação. A essa altura, acreditar cegamente na hidroxicloroquina e na cura
milagrosa da covid-19 é acreditar em pajelança. Não cabe a autoridades em
momento grave como esse.

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