O coronavírus vai invadir o Brasil”, ironizou numa rede
social às 16h32m de quinta-feira, 12 de março. Atendia à incitação do
presidente para protestos contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.
O sorriso largo no rosto cheio indicava uma mulher de bem
com a vida. Aos 65 anos, viu em Jair Bolsonaro a referência da sua identidade
política.
Visitava a filha em Fortaleza. Médica há 40 anos, trabalhava
no interior e duvidava da “pandemia” anunciada na véspera (11/3), pela OMS.
Existiam 83 casos no país, nenhum no Ceará. E Bolsonaro falava em “muita
fantasia” (10/3), insistindo: “Outras gripes mataram muito mais” (11/3).
Celebrou o presidente na catarse antipolítica (15/3)
organizada por grupos autoproclamados de direita. Às 13h41m do dia seguinte,
repetiu a “lógica” presidencial: “Existem vírus muito mais potentes e que matam
muito mais (H1N1 por exemplo) e ninguém está nem aí… Porque será??????” E
acrescentou:
“Nenhuma morte ainda registrada do coronavírus no Brasil,
mas a imprensa já matou quase a metade da população.” Mais tarde foi anunciada
a primeira morte. Bolsonaro vangloriava-se: “Depois da facada, não vai ser uma
gripezinha que vai me derrubar.”
Seguiu para casa, em Iguatu, a 370 quilômetros, na beira do
Jaguaribe. A cidade foi fundada por pecuaristas expulsos do litoral açucareiro
no início do século XVII. Tem 102 mil habitantes e é um polo educacional.
Na sexta (27/3), antes de voltar ao Posto de Saúde da
Família de Gadelha, na zona rural, anunciou uma carreata no Recife, a 670
quilômetros de distância: “Todos precisam que o Brasil volte a funcionar, já!”
Bolsonaro insistia: “Outros vírus já mataram muito mais.”
Atravessou os dias seguintes na batalha contra a Covid-19.
Já não era médica, mas vítima. Lucia Dantas de Abrantes morreu na sexta (10/4).
O presidente já tem novo “diagnóstico” da pandemia, adequado à sua luta contra
o ministro da Saúde: “Está começando a ir embora.” Ontem, o número de mortos
ultrapassou 1,3 mil.

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