A afirmação do presidente Jair Bolsonaro no domingo de que
“está começando a ir embora a questão do vírus” não tem base científica e
esbarra na realidade e nos números. Naquele mesmo dia, o ministro da Saúde,
Luiz Henrique Mandetta, que tem feito o contraponto técnico ao chefe do
Executivo, advertiu que “maio e junho serão os meses mais duros”.
Mandetta baseia-se nos números, que são implacáveis e
desafiam Bolsonaro porque os novos casos e as novas mortes não arrefecem. O
balanço divulgado ontem pelo Ministério da Saúde apontou 23.430 casos
confirmados e 1.328 mortes. A taxa de letalidade da covid-19 subiu de 5,5% para
5,7%. Em 24 horas, foram 105 novas mortes de brasileiros, um acréscimo de quase
10%.
O presidente da CPMI que investiga a máquina de disseminação
de notícias falsas, senador Ângelo Coronel (PSD-BA), disse à coluna que
Bolsonaro cometeu uma “fake news”. “Não é o que estamos vendo e ouvindo [que o
vírus está indo embora], o que tem sido noticiado pela mídia, pelos
governadores, prefeitos e pelo Ministério da Saúde. Ou será que governadores,
prefeitos e o próprio ministério estão errados e só ele está certo?”
O presidente já incorreu em notícia enganosa. No começo do
mês, Bolsonaro foi a público pedir desculpas pela divulgação de conteúdo falso
em suas redes sobre desabastecimento de alimentos em Minas Gerais por causa do
vírus. “Não houve checagem”, lamentou.
O agravante em meio ao enfrentamento da pandemia é que as notícias falsas crescem encadeadas com o aumento dos infectados. “As ‘fake news’ subiram mais do que o número de casos”, alertou Mandetta há uma semana.
O agravante em meio ao enfrentamento da pandemia é que as notícias falsas crescem encadeadas com o aumento dos infectados. “As ‘fake news’ subiram mais do que o número de casos”, alertou Mandetta há uma semana.
Na semana passada, o governador do Pará, Helder Barbalho
(MDB), teve de desmentir nas redes sociais a notícia de que teria requisitado
presidiários para monitorar a população nas ruas, em caso de violação do
isolamento social. Na verdade, os detentos foram recrutados pelo governo para
pintar faixas demarcando o distanciamento seguro dos usuários do transporte
público nos pontos de ônibus.
No plano científico, uma notícia intensamente compartilhada
ontem nas redes sociais afirmava que a Food and Drug Administration (FDA),
agência americana reguladora de medicamentos, teria aprovado o uso da
hidroxicloroquina no tratamento dos infectados pela covid-19 nos Estados
Unidos. Na verdade, segundo a agência de checagem Aos Fatos, o órgão americano
permitiu a utilização do medicamento em alguns casos de pacientes
hospitalizados. O fato é especialmente preocupante porque Bolsonaro tornou-se
um garoto-propaganda da substância no Brasil, apresentando-a como panaceia da
crise.
As consequências do incremento das “fake news” sobre o
coronavírus para a saúde dos brasileiros serão a expansão do número de
infectados, associada ao risco de colapso da rede hospitalar pública e privada.
No ano passado, o Ministério da Saúde verificou o impacto desse conteúdo falso
sobre as campanhas de vacinação contra o sarampo e a poliomielite, doenças que
haviam sido extintas no país.
É nesse cenário que a CPMI das Fake News abrirá uma linha de
investigação para apurar a origem e o financiamento dos canais de propagação
desse conteúdo. Pelo calendário original – e pela vontade do Planalto – a
comissão encerraria hoje os trabalhos. Com a prorrogação, ela funcionará até
outubro, fazendo as investigações coincidirem com as eleições municipais. Mas
as reuniões estão suspensas há mais de um mês por causa da crise.
No dia 2, a artilharia do Planalto foi acionada para tentar
garantir o arquivamento da CPMI, que tem como um dos alvos o vereador Carlos
Bolsonaro (Republicanos-RJ). O ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo
Ramos, e os senadores Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e Eduardo Gomes
(MDB-TO) dispararam telefonemas aos aliados e conseguiram retirar dez
assinaturas favoráveis à continuidade da investigação. Mas Ângelo Coronel
reagiu e obteve mais sete apoiamentos.
Para tentar dar fluxo aos trabalhos, o presidente do
colegiado, Ângelo Coronel, aguarda resposta do presidente do Congresso, Davi
Alcolumbre (DEM-AP), sobre a viabilidade do uso do sistema remoto para que a
comissão possa votar requerimentos de quebras de sigilo fiscal e telefônico de
pessoas e empresas investigadas. Isso daria celeridade ao trabalho dos técnicos
enquanto os parlamentares não voltam a se reunir. Outro apelo é para que o
prazo de funcionamento da comissão não seja contabilizado até a retomada
presencial dos trabalhos.
O presidente da CPMI acredita que será possível avançar na
investigação dos responsáveis pela propagação das “fake news” sobre o
coronavírus da mesma forma que a comissão evoluiu na apuração do conteúdo falso
sobre vacinas, que prejudicou as campanhas do Ministério da Saúde de imunização
contra o sarampo e a poliomielite.
As informações são sigilosas, mas a CPMI já está de posse
dos e-mails de criação e IPs relativos a dois canais do YouTube apontados como
disseminadores de conteúdo falso sobre vacinas. A CPMI tem poder apenas
investigativo, mas os dados serão enviados ao Ministério Público por meio do
relatório final para que promova as respectivas ações penais para as punições
cabíveis.
O senador tem sido perseguido na vida real e nas redes
sociais. Uma pessoa residente em Belo Horizonte tornou-se réu em um processo
depois de ter ameaçado de morte o senador por um e-mail anônimo. Uma fazenda do
senador na Bahia foi invadida e depredada.
No plano virtual, o senador revela que um levantamento
identificou a ação de robôs em ações coordenadas contra ele. “Tem textos que
são iguais; é como se fosse um texto pronto e preparado para disseminação, é
uma característica dos robôs, agindo quando querem depreciar um alvo”. Ele
almeja, com a CPMI, exterminar os robôs e seus financiadores. “Quem paga por
essas despesas [os robôs] merece ser punido exemplarmente”.

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