No ano passado, a diferença
de rendimentos entre trabalhadores brancos e pretos atingiu o maior patamar
desde 2016, segundo pesquisa recém-divulgada pelo IBGE. Mais afetados pelos
anos de estagnação econômica, os pretos receberam, em média, apenas 55,8% da
renda dos brancos —ou R$ 1.673 mensais, ante R$ 2.999.
Os que se declaram pardos saem-se apenas um pouco melhor,
com média de R$ 1.719 ao mês e diferença praticamente estável em relação aos
brancos no período.
Negros —que por convenção estatística incluem pretos e
pardos— deverão arcar com o maior impacto da crise social anunciada pela
pandemia do novo coronavírus. Quase metade deles, 47%, são trabalhadores
informais, em comparação a 35% dos brancos, segundo dados do IBGE referentes a
2018.
Os negros também compõem quase dois terços (66%) dos
desocupados e dos subutilizados no mercado de trabalho brasileiro.
Parte significativa da desigualdade salarial entre brancos e
negros pode ser atribuída a racismo. Quando deixados de lado fatores como grau
de instrução e experiência de trabalho, a parcela injustificada da disparidade
na remuneração entre brancos e negros atinge o patamar de 31%, segundo estudo
do Instituto Locomotiva divulgado em janeiro deste ano.
Investir em programas para maior equidade étnico-racial nas
empresas, da porta de entrada aos cargos mais altos, dos processos de seleção
aos planos de desenvolvimento profissional é fundamental, ainda que
insuficiente.
Cabe ao Estado atentar para os efeitos da recessão que se
avizinha. Para tanto, deve garantir que o auxílio emergencial chegue a quem de
fato mais necessite. À Justiça cabe enfrentar casos de discriminação racial no
mercado de trabalho.
Renda, no entanto, constitui apenas uma forma, importante que seja, de abordar a questão da profunda desigualdade entre brancos e negros. A longo prazo, equidade requer enfrentar questões como acesso a infraestrutura e serviços essenciais de educação, saneamento e saúde. Sem tais mudanças, as estruturas que fundamentam o racismo salarial hão de persistir.

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