Há 120 anos, Joaquim Nabuco profetizou: “A escravidão
permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”.
Cleonice Gonçalves, 63 anos, foi a primeira vítima do
coronavírus no Estado do Rio. Empregada doméstica desde os 13, trabalhava num
apartamento no Alto Leblon. A patroa voltou da Itália com sintomas da Covid-19,
mas não quis dispensá-la do serviço. Ao contrair a doença, a diarista foi
despachada de táxi para Miguel Pereira, a 120 quilômetros dali. Morreu no dia
seguinte, num hospital municipal.
O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, incluiu o trabalho
das domésticas entre as “atividades essenciais”. Com isso, faxineiras,
lavadeiras, cozinheiras e babás poderão ser convocadas no período de lockdown.
Segundo o tucano, a medida beneficiará quem “precisa ter alguém em casa”. A
capital do Pará não tem mais vaga nos hospitais, mas os ricos encontraram uma
alternativa. Passaram a fretar “UTIs aéreas”, que decolam para São Paulo por
até R$ 200 mil.
Há 25 anos, Darcy Ribeiro escreveu que “os brasileiros, orgulhosos
de sua tão proclamada como falsa ‘democracia racial’, raramente percebem os
profundos abismos que por aqui separam os estratos sociais”. “Os privilegiados
simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres,
cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia
social que perpetua a alternidade”, afirmou.
O presidente da XP Investimentos, Guilherme Benchimol,
declarou que o Brasil “está bem” no combate à pandemia. “O pico da doença já
passou quando a gente analisa a classe média, classe média alta. O desafio é
que o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela, o que acaba
dificultando o processo todo”, disse, na terça-feira. O bilionário também se
mostrou indiferente ao acirramento da crise política. “Se as reformas estiverem
avançando, eu acho que não atrapalha”, resumiu. O flerte da XP com o
bolsonarismo é correspondido. No último mês, cinco ministros estrelaram lives
da corretora.
Na quinta-feira, o presidente da República liderou uma
marcha de lobistas e empresários ao Supremo Tribunal Federal. Com permissão do
ministro Dias Toffoli, a comitiva fez comício pelo relaxamento das medidas
sanitárias. “A indústria está na UTI”, disse Marco Polo de Mello Lopes, com a
sensibilidade de uma Regina Duarte de gravata. “Haverá morte de CNPJs”, emendou
Synésio Batista da Costa, que cobra o retorno dos operários às fábricas de
brinquedos. Ontem o país ultrapassou a marca de dez mil mortes de CPFs causadas
pelo coronavírus.
Patroas, prefeitos, industriais e especuladores renovam traços antigos de certa elite brasileira, que agora vê no capitão um porta-voz de suas aflições. Chutado do Ministério da Saúde, Luiz Henrique Mandetta recorreu a Gilberto Freyre para explicar o barulho contra o isolamento social. “Só quem está gritando é a Casa-Grande, que vê o dinheiro do engenho cair”, disse à “Folha de S.Paulo”. “A Casa-Grande arrumou o quarto dela, a despensa está cheia. Tem o seu próprio hospital. Lamenta muito o que está acontecendo, mas quer saber quando o engenho vai voltar a funcionar”.

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