Na calada desta nossa noite em que a dor da pandemia se soma
às ameaças do presidente Jair Bolsonaro à democracia, outras áreas correm
extremo perigo. Em abril, o desmatamento na Amazônia foi de 406 km2, 64% a mais
do que no ano passado, segundo o Deter. Nos quatro primeiros meses, a alta foi
de 55,5%. Portarias, MPs, instruções normativas dão forma ao projeto de perdoar
grileiros e enfraquecer órgãos ambientais. Terras indígenas são ameaçadas e
seus líderes correm riscos. O governo conta com as atenções do país
concentradas na crise da saúde para avançar com o projeto de reduzir direitos
indígenas e legitimar o ataque ao meio ambiente.
Em mais uma GLO na Amazônia, os militares estão sendo
escalados para conter o que tem sido estimulado pelo próprio governo. A
operação das Forças Armadas cria uma situação difícil. O Ibama, que já é
cerceado, passa a ser subordinado aos militares. Seus quadros técnicos terão que
seguir ordens de oficiais que não têm a mesma qualificação e experiência no
combate ao desmatamento. Isso num momento em que os servidores que cumprem a
lei na fiscalização são punidos. Os que destroem equipamentos, que é a arma
mais poderosa para combater o crime, são exonerados.
O ministro Ricardo Salles, enfraquecido, mudou de tática.
Agora, trabalha em silêncio. No dia 6 de abril, um despacho do Ministério do
Meio Ambiente criou uma ameaça direta à Mata Atlântica. O ato administrativo
recomenda ao Ibama e ICMBio que esqueçam a Lei da Mata Atlântica e se guiem
pelo Código Florestal, que tem regras mais brandas. Isso na prática cancela
multas, desobriga o proprietário de recuperar áreas de proteção permanente e
reconhece as propriedades rurais instaladas em áreas de proteção ambiental
antes de 2008.
A Lei da Mata Atlântica foi uma conquista de duas décadas de
luta no Congresso. Nesse bioma moram 150 milhões de brasileiros e os
remanescentes de mata têm sido protegidos principalmente por particulares. Quem
preserva ou se esforçou nos últimos anos para cumprir a lei se sente tolo. O
que dá certo no Brasil é ser ilegal e esperar pela anistia. O Ministério
Público Federal, a SOS Mata Atlântica e a Associação Brasileira dos Membros do
Ministério Público do Meio Ambiente entraram com uma Ação Civil Pública contra
o despacho de Salles.
A Amazônia é ameaçada diretamente pela MP da Grilagem. A MP
910, em vigor desde dezembro, está para ser votada com várias aberrações. Na
primeira versão do projeto, permitia-se regularizar terra ocupada até dezembro
de 2018. Na versão mais recente, quem tiver invadido terra até 2014 pode ter
título de propriedade. Áreas de até 15 módulos fiscais podem ser regularizadas
sem vistoria de campo. Em alguns lugares isso significa até 2.500 hectares. A
luta está sendo para reduzir o tamanho da terra que pode ser legalizada sem o
poder público conferir. E por fim, a MP estabelece que multa ou qualquer
irregularidade não impedem o processo de legalização. Só será impedida a
emissão de título de propriedade quando o processo estiver transitado em
julgado.
A questão indígena sempre foi tratada com desprezo pelo governo Bolsonaro. Na gestão Sérgio Moro, a Funai foi aparelhada com a nomeação de pessoas totalmente estrangeiras à causa indígena. Nada indica que haverá mudança agora. O Ministério devolveu à Funai 17 processos de demarcação de terras indígenas, alguns já prontos para a homologação. Uma portaria recente da Funai reduziu os poderes do próprio órgão para conter o avanço da grilagem em terras indígenas. Há lideranças sob ameaça, e os criminosos aproveitam a confusão da Covid-19 para praticar seus crimes. No dia 17 de abril foi morto um jovem líder, de 34 anos, Ari Uru-eu-wau-wau, em Rondônia. Ele passou meses sendo ameaçado por grileiros. Ari tinha como foco do seu trabalho denunciar extração ilegal de madeira, ou seja, ele protegia o patrimônio público. Seu corpo foi encontrado na beira da estrada, com sinais de que havia sido arrastado depois de morto. Tinha sangramento na boca e na nuca decorrente de pancada forte na cabeça e a causa da morte foi sangramento agudo. Era pai de dois meninos, de 10 e 14 anos. Nas sombras da pandemia e do ataque de Bolsonaro às instituições, outros perigos rondam o país.

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