Quando distribui cargos ao centrão, o presidente está
voltando ao seu leito natural. Ele foi de nove partidos, todos fisiológicos,
antes de chegar à Presidência com o discurso de combate à corrupção. Nenhuma
surpresa que ele agora esteja com seu balcão de negócios ativo. O discurso
contra a “velha política” sempre foi para inglês ver. A grande dúvida é quais
as concessões que serão pedidas ao Ministério da Economia no projeto de
blindagem do mandato de Jair Bolsonaro. Terá Paulo Guedes também o seu ponto
“valeixo”, ou seja, uma questão que considere inegociável?
O presidente Jair Bolsonaro tem pressionado a Receita
Federal para perdoar dívidas tributárias das igrejas evangélicas, chegando
inclusive a reunir em seu gabinete o secretário José Tostes, da Receita, com o
deputado David Soares (DEM-SP), filho de R.R.Soares, um dos pastores que
sustentam o bolsonarismo, e cobrar uma solução, segundo informou o “Estado de
S. Paulo”. A igreja dos Soares deve R$ 144 milhões ao fisco. Na equipe
econômica o que se diz é que o perdão de dívidas só pode ser concedido através
de lei. Não pode ser um acerto entre amigos, como quer o presidente. Os débitos
das igrejas são antigos, aliás, nada a ver com a pandemia.
Guedes pode achar que isso não é intromissão, mas qualquer
ministro da Economia preocupado com os cofres públicos acharia. Há muitos
outros fios desencapados na economia. Esta semana, o ministro conseguiu encapar
um: os aumentos futuros do funcionalismo.
Ele queria uma redução de jornada e de salário como
aconteceu com o setor privado, ainda que em percentual bem menor. Mas não
conseguiu. Não teve força nem para propor o congelamento de salários do
funcionalismo federal, então negociou com o senador Davi Alcolumbre para que no
projeto de socorro aos estados constasse a suspensão dos reajustes para os
servidores estaduais, municipais e, na onda, fosse incluído o funcionalismo
federal.
Quando a ideia surgiu no projeto da Câmara, o primeiro
telefonema que o relator recebeu foi de um ministro militar, o segundo, de um
militar ministro. Pedindo para se excluir as Forças Armadas. Aliás, no dia 5 de
maio, o Diário Oficial da União trouxe uma portaria normativa do Ministério da
Defesa instituindo a Comissão Permanente de Remuneração dos Militares. Ela terá
a prerrogativa de se reunir com o Ministério da Economia para discutir
aumentos, vai se reunir sempre antes de se mandar a LDO e o projeto do orçamento.
E se propõe, entre outras coisas, a “tornar as carreiras das Forças Armadas
competitivas frente a outras alternativas, sejam elas públicas ou privadas” e
“prover segurança econômica aos membros da carreira militar, quando do ingresso
na inatividade”.
A frase “eu sigo a cartilha de Paulo Guedes” dita pelo
presidente terá vida curta. Na noite anterior, o presidente estava instruindo o
líder do governo a defender a retirada de categorias da proibição de aumento.
Depois, prometeu ao ministro que vai vetar o que defendera.
A verdade é que Bolsonaro seguirá a cartilha Bolsonaro,
principalmente agora que está às voltas com ameaças concretas ao seu mandato.
Dado a delírios persecutórios, o presidente está vendo concretizarem-se os seus
temores. Já mostrou que lutará pelo mandato entregando todos os anéis que
carregou nos dedos da mão que prometia praticar uma nova política. O
Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) é um clássico do é dando
que se recebe. Já foi entregue aos partidos. Mas a lista do centrão é grande e
inclui até diretorias de bancos estatais.
Mesmo que Paulo Guedes ache tudo isso normal, há o passo
seguinte. Quem nomeia quer defender as políticas do seu grupo de interesse. Os
lobbies costumam ter um endereço: o caixa do Tesouro. Na melhor das hipóteses,
Guedes passará o tempo jogando na defesa para evitar saques aos cofres
públicos. É muito difícil nesse ambiente que o Ministério da Economia consiga
tocar algum projeto de reformas estruturantes no pós-pandemia.
O que o ministro da Economia deveria fazer agora é demarcar o terreno com os seus “valeixos”, pontos inegociáveis, concessões que se forem exigidas ele não aceitará. Não adiantará acusar Rodrigo Maia, ou brigar com Rogério Marinho na reunião ministerial. O risco ao seu projeto virá do próprio presidente, Jair Bolsonaro.

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