“Há décadas em que nada acontece, e há semanas em que
décadas acontecem”, teria dito Lênin, em meio ao turbilhão da Revolução Russa.
No mês passado, completaram-se 150 anos do nascimento do pai-fundador do
império soviético, com a frase que lhe é atribuída a ganhar uma estranha
atualidade.
Com a Covid-19, décadas aconteceram nas últimas semanas.
Há enorme incerteza sobre a ordem internacional que emergirá
ao final da crise que vivemos. Mas vozes distintas –como Dani Rodrik,
economista de Harvard, ou Richard Haas, o presidente do Council on Foreign
Relations, o mais importante think-tank americano– convergem a um ponto.
Pode-se pensar a pandemia como uma espécie de máquina do
tempo. Mais do que criar algo inteiramente novo, a Covid-19 acelerará transformações
globais que já estavam em curso.
Um exemplo: a incapacidade dos grandes atores internacionais
de agirem conjuntamente diante de problemas comuns –do aquecimento global ao
comércio, da paz à própria contenção de pandemias.
Falava-se, desde antes, em “crise do multilateralismo” ou em
um mundo “G-Zero”, em oposição ao G-7, G-20 e afins.
Devemos ver, agora, a decadência acelerada da ordem liberal
que nasceu no pós-Segunda Guerra, e o que virá depois parece mais turbulento.
Uma das grandes causas dessa mudança é a retração global dos
EUA, a força hegemônica que sustentou o mundo pós-1945. O poder relativo de
Washington segue inconteste, mas ele é bem menor do que já foi. Os EUA
representavam metade do PIB global nos anos 50. Hoje, são um sétimo.
Americanos tampouco querem exercer o papel de antes: o
“America First” de Trump é o paroxismo de um recuo que vinha pelo menos desde a
eleição de Obama, em meio à exaustão com guerras ao terror e outros fracassos
globais.
Quem ocupará esse espaço? A China, em parte. Mas, se havia
alguma esperança de que essa travessia poderia ser feita sem grandes
solavancos, a Covid-19 é um choque de realidade. Estamos no momento de maior
tensão entre grandes potências desde o fim da Guerra Fria, com Washington e
Pequim embrenhados em disputas comerciais, estratégicas e de modelos políticos.
A Covid-19 deve também ampliar desigualdades dentro e entre
países, com a América Latina ainda mais distante dos desenvolvidos. Desde 2014,
a região vive seu período de menor crescimento econômico em sete décadas. O
vírus chegou no pior momento possível.
O Brasil, por sua vez, nunca enfrentou um momento de
reordenamento global em uma posição de tamanha fraqueza. Ao fim da Segunda
Guerra, nos sentamos à mesa dos grandes para desenhar as instituições que
governariam o mundo.
Quando acabou a Guerra Fria, vivíamos um momento de crise da
dívida e inflação, mas criávamos a terceira maior democracia do mundo, com uma
visão clara sobre sua vocação global: autonomia e defesa do direito, paz, meio
ambiente e integração regional.
O bolsonarismo quer aniquilar esse projeto, enquanto a
pandemia cria uma conjuntura cada vez mais adversa ao Brasil.
Mas a resistência ao desmonte cresce –à exemplo do
manifesto, publicado na Folha e em outros jornais, de oito grandes formuladores
da política externa que serviram em governos diversos.
A reconstrução é o primeiro passo. Uma jornada para dar ao
Brasil posição relevante, no novo mundo pós-pandemia, será longa.
*Roberto Simon, é diretor sênior de política do Council of the Americas e mestre em políticas públicas pela Universidade Harvard

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