Mais cedo ou mais tarde, a corrida mundial dos cientistas
para encontrar uma vacina contra a covid-19 será bem-sucedida. Já para o
presidente Jair Bolsonaro, não há xarope que dê jeito.
Na segunda-feira (11/5), o presidente decretou a inclusão de
academias de ginástica, salões de beleza e barbearias entre os serviços
considerados essenciais, isto é, que podem funcionar mesmo em meio à quarentena
imposta para enfrentar a pandemia. Trata-se de óbvio abuso da noção de serviço
essencial; afinal, pode-se perfeitamente viver sem levantar pesos e sem cortar
os cabelos, mas não se pode viver sem energia elétrica, transporte público e
hospitais. Para o presidente, contudo, “academia é vida”. Em seu idioma
exótico, Bolsonaro comentou que “as pessoas vão aumentando o colesterol, têm
problema de estresse” e, com a academia, terão “uma vida mais saudável”. Já
sobre os salões de beleza, Bolsonaro disse que “fazer cabelo e unhas é questão
de higiene”.
Discutir se salões de beleza são serviço essencial em meio a
uma pandemia – que, ainda longe do pico, já matou mais de 11 mil brasileiros –
é perder o foco do problema central: Bolsonaro investe na desordem, da qual
pretende extrair capital eleitoral. Em meio às imensas incertezas geradas pela
doença, que desafiam até mesmo os melhores administradores públicos de todo o
mundo, Bolsonaro oferece o elixir das soluções fáceis.
A estratégia é óbvia: preocupado exclusivamente com sua
reeleição e com seu projeto autoritário, Bolsonaro quer fazer crer que a
pandemia não passa de “histeria” para prejudicar seu governo e que tudo seria
diferente se os “inimigos do Brasil”, como ele chama aqueles que impõem limites
a seu poder, parassem de sabotá-lo.
A lista de bodes expiatórios do bolsonarismo é extensa.
Inclui os governadores e prefeitos que, cumprindo seu dever, impuseram
quarentena; inclui o Supremo Tribunal Federal que, em respeito ao princípio
federativo, confirmou a autonomia de Estados e municípios para gerenciar a
crise como acharem melhor; e inclui até mesmo o ministro da Saúde – o anterior
foi demitido porque contrariou Bolsonaro ao insistir no isolamento social como
melhor forma de combater a pandemia, e o atual está sendo hostilizado pelos bolsonaristas
porque manifestou pesar pelos mortos e colocou em dúvida o tratamento com
cloroquina, a panaceia do presidente.
Ficará para a história a expressão de espanto do ministro da
Saúde, Nelson Teich, ao tomar conhecimento, por jornalistas, do decreto
presidencial que amplia a lista de serviços essenciais. “Isso aí… Saiu hoje
isso?”, perguntou, incrédulo, o ministro, que só está no cargo, pasme o leitor,
porque disse ter “alinhamento completo” com Bolsonaro. Desprezado publicamente
pelo presidente, o ministro está sendo igualmente ignorado pelos gestores de
Saúde estaduais e municipais, que já informaram que não vão seguir as novas
diretrizes do Ministério destinadas a obter um padrão nacional para o
distanciamento social – primeiro passo para a flexibilização exigida por
Bolsonaro. O Brasil deve ser hoje o único país do mundo em que o Ministério da
Saúde tem papel periférico, quase decorativo, em meio a uma pandemia mortal.
Alguns governadores também avisaram que não vão acatar o
decreto de Bolsonaro sobre serviços essenciais. “Afrontar o Estado Democrático
de Direito é o pior caminho, aflora o indesejável autoritarismo no Brasil”,
reagiu Bolsonaro, atribuindo aos governadores uma transgressão que é ele quem
sistematicamente comete.
Felizmente, cada vez mais brasileiros diagnosticam Bolsonaro como incurável. A mais recente pesquisa da MDA para a Confederação Nacional dos Transportes indica que, em quatro meses, a avaliação negativa do governo subiu de 31% para 43,4%, enquanto a avaliação positiva do desempenho pessoal de Bolsonaro caiu de 47,8% para 39,2%. E nem chegamos à metade do mandato – donde se conclui que, em meio à disputa feroz entre Bolsonaro e o coronavírus para ver quem é pior para o Brasil, resta torcer para que alguém retome a ideia do falecido Brás Cubas e invente um emplastro “destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade”.

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