A versão mais recente do Palácio do Planalto sobre o vídeo
da reunião ministerial em que o presidente Bolsonaro ameaçou demitir o então
ministro Sergio Moro dá conta de que o presidente se queixava da segurança
pessoal dele e de sua família. Sem saber o contexto em que se deu a discussão,
pois o vídeo ainda não foi liberado, pode-se afirmar, no entanto, que Moro
seria o interlocutor errado, pois a segurança do presidente e família é feita
pelo Exército e pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e o responsável
é o General Augusto Heleno, que estava na reunião e não foi admoestado pelo
presidente.
Além do mais, quem foi demitido foi o diretor-geral da
Polícia Federal, e por tabela o ministro Sergio Moro. Outro ponto interessante
é que o delegado Alexandre Ramagem, que foi indicado por Bolsonaro para chefiar
a Policia Federal, era o chefe da Abin. Portanto, se a queixa de referia à
segurança pessoal, cuja responsabilidade era de Ramagem, por que indicá-lo para
a PF? .
A exibição integral da reunião ministerial servirá para
confirmar a acusação de Moro ao deixar o ministerio da Justiça, como também
para se constatar de que maneira o presidente Bolsonaro conduz os destinos do
país. Pelos relatos, um autoritarismo sem controles, e um ambiente de
desrespeito a seus ministros que, para agradar o presidente, não apenas aceitam
os maus tratos como tentam imitá-lo, usando palavras chulas e atacando sem
distinção países e instituições.
O presidente Bolsonaro quer constranger as forças
democráticas que impõem limites a qualquer presidente da República, porque quer
fazer um governo mais liberado dessas limitações, um perigo, porque é
exatamente o que Hugo Chavez fez na Venezuela, constranger até controlar os
Poderes, e usar a democracia direta para impor as suas vontades.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias
Toffoli, e os ministros militares estão sendo lenientes com Bolsonaro e, nessa
toada, começaremos a abrir mão dos freios que a democracia representativa impõe
ao presidente.
O presidente da Câmara Rodrigo Maia claramente não quer
aparecer como o grande inimigo de Bolsonaro, o homem que vai autorizar o
impeachment, e o STF, embora tenha tomado decisões ultimamente seguras e
restringido abusos, através de seu presidente está condescendente com as
atitudes de Bolsonaro. Muito preocupante nesse sentido a entrevista que deu ao
programa Roda Viva, onde tentou explicar a ida de Bolsonaro ao STF.
Disse que não se sentiu constrangido, e que entende
perfeitamente que Bolsonaro governa para os seus, para os radicais que o
elegeram, que tenta trazer radicais para o centro, e que nunca fez nada de
concreto contra a democracia. Disse também que as pessoas querem uma democracia
mais direta, o que chamou de “uberização da política”, e o que está em jogo é a
democracia representativa. É aí que mora o perigo, é exatamente o que o Chavez
fez na Venezuela.
Na democracia direta, é possível manipular plebiscitos,
consultas, referendos, e o presidente começa a ser autorizado a fazer coisas
que o STF e o Congresso não autorizariam. O ministro Luis Fux vai assumir a
presidência do STF em setembro, e espero que tenha visão de Estado maior do que
a que Toffoli está demonstrando.
Pesquisa de ontem da Confederação Nacional dos Transportes
(CNT) e MDA diz que aumentou o nível de pessoas que consideram o governo ruim
ou péssimo, mas Bolsonaro mantém os 30 por cento favoráveis. Ontem, por
exemplo, fez manifestação contra a ideologia de gênero nas escolas. No meio
dessa pandemia que cresce brutalmente, no dia em que chegamos ao nível de 800
mortes diárias, e a mais de 12 mil mortos durante a pandemia. Faz isso apenas
para alimentar os seus radicais, o núcleo duro de seus eleitores, e se manter
competitivo em 2022.
Se o Congresso estivesse reunido presencialmente, acho que o ambiente político estaria muito mais conturbado, porque ele registra a pulsão da sociedade. Mas do jeito que está, funcionando virtualmente, e o isolamento social fazendo com que só maluco vá para a rua se manifestar, a maioria do povo brasileiro, que condena o governo Bolsonaro, está sem poder se manifestar, o que é um perigo para a democracia representativa.

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