Jair Bolsonaro chegou à Presidência surfando a irritação do
eleitorado com as organizações criminosas que saquearam o Estado brasileiro.
Prevaleceu no tranco, sem máquina partidária. No poder, revelou-se chefe de uma
organização familiar. Desfiliou-se do PSL. Seu partido é a família.
Durante a campanha, quando questionado sobre planos de
governo, Bolsonaro repetia um versículo do Evangelho de João: "Conhecereis
a verdade, e a verdade vos libertará." O caso da PF traz à tona uma
verdade dura de roer: a agenda secreta do presidente é o favorecimento do seu
clã.
Confirmou-se o que revelara Sergio Moro, autoconvertido em
delator à espera de receber um prêmio em 2022. Bolsonaro foi mesmo gravado em
reunião ministerial trombando com seu ministro da Justiça para trocar o chefe
da Polícia Federal no Rio de Janeiro.
Transgressor didático, Bolsonaro abdicou dos métodos
tradicionais de ocultamento. Espalhou as pistas que agora facilitam a
reconstituição dos seus movimentos. Agiu com espalhafato.
Na reunião ministerial de 22 de abril, diante das câmeras e
de três dezenas de autoridades, o presidente sapecou um palavrão. E declarou
que não esperaria que sua família e seus amigos fossem prejudicados para trocar
a chefia da PF no Rio, berço de suas aflições.
Em vez de libertar, a verdade das urnas acorrentou o país ao
líder de uma dinastia com a imagem já bem rachadinha. Gente amiga de um tal
Fabrício Queiroz, que tem conhecidos no ramo das milícias, muito pujante no Rio.
Desde o ano passado, Bolsonaro emitia sinais de que não
mediria esforços para continuar sendo, à sua maneira, um ótimo pai. Não chegou
a fornecer bons exemplos. Mas espalhou fabulosos avisos.
"Lógico,
pretendo beneficiar filho meu, sim. Pretendo, se puder, dar filé mignon",
declarou o capitão, na época em que tentou emplacar o Zero Três Eduardo na
poltrona de embaixador do Brasil em Whashington.
Num esforço para proteger o Zero Um Flávio, o capitão
desligou o Coaf da tomada, transferindo-o das mãos de Sergio Moro para os
fundões do Banco Central.
Ultimamente, Bolsonaro anda inquieto com um inquérito sobre
fake news, que roça os calcanhares do Zero Dois Carlos no Supremo Tribunal
Federal. Coisa relatada pelo ministro Alexandre de Moraes.
A família é como varíola, ensinou Jean-Paul Sartre. "A
gente tem quando criança e fica marcado para o resto da vida." Na
organização familiar dos Bolsonaro, quem sai aos seus não endireita.
O pai abriu caminho na política. Vieram os filhos: um
vereador, um deputado e um senador. Está no forno a candidatura do Zero Quatro
Renan. Na filhocracia, os Bolsonaro não se sentem pessoas públicas. O país é
que lhes atrapalha a vida privada, 100% bancada pelo patrimonialismo.
O pai abriu caminho na política. Vieram os filhos: um vereador, um deputado e um senador. Está no forno a candidatura do Zero Quatro Renan. Na filhocracia, os Bolsonaro não se sentem pessoas públicas. O país é que lhes atrapalha a vida privada, 100% bancada pelo patrimonialismo.

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