Nos quatro primeiros meses do ano, segundo os jornais,
Bolsonaro gastou R$ 3,7 milhões no seu cartão corporativo. O dobro do que foi
gasto por Temer, no mesmo período.
Bolsonaro ficou bravo. Disse que o dinheiro foi gasto com as
despesas com a ida de aviões para China, onde resgataram brasileiros em Wuhan,
no auge da pandemia.
A melhor maneira de superar um debate desse gênero é a
transparência. Aliás, a transparência dos gastos presidenciais já foi
determinada pelo STF em 7 de novembro do ano passado.
O Planalto não divulga os dados porque alega questões de
segurança nacional. Bolsonaro pensava de forma diferente em 2008. Neste ano,
ele subiu na tribuna da Câmara para exigir transparência nos gastos de Lula,
envoltos em muitas notícias de irregularidades.
O próprio Bolsonaro naquela sexta feira em que Moro se
demitiu fez um longo discurso sobre seus hábitos econômicos. Falou que não usou
um cartão com teto de R$ 24 mil e inclusive desligou, por economia, o
aquecimento da piscina.
Na época, foi contestado porque a piscina utiliza energia
solar. Mas de todas as maneiras, o fato de ele se dizer econômico e a prática
democrática indicar a transparência, revelar os gastos seria um jogo de ganha
ganha. A opinião pública teria uma satisfação e ele um reconhecimento por
poupar dinheiro do contribuinte.
Jogo de ganha ganha hoje é algo muito raro no Brasil. O Rio
Grande do Sul anunciou hoje seu plano de flexibilização da quarentena. O plano
divide o estado em várias zonas coloridas, cada cor com um nível de gravidade
da pandemia. Em cada uma delas, existem regras de distanciamento social.
O plano foi elaborado pelo governo que convocou um conselho
social para enriquecê-lo com sugestões.
O Rio Grande do Sul era uma preocupação por causa do
inverno, temporada de muita doença respiratória. É um estado frio. Estive em
São José dos Ausentes no verão. Fazia nove graus à noite. Verdade que era o
alto da Serra Gaucha, mas de qualquer forma deu uma idéia de como será frio no
inverno.
Tanto a sociedade como o governo no Rio Grande parecem mais
preparados. Mas ainda assim, acredito que o vírus tenha chegado de forma mais
branda em toda a região, inclusive Argentina e Uruguai.
O interessante agora é acompanhar como as coisas se passam
lá e ver se é possível aprender algo para aplicar nos outros estados, assim que
estiverem em condições de atenuar o isolamento.
Naturalmente não existe uma fórmula única para um pais tão
diverso como o nosso. Mas não custa nada aplicar o que der certo, respeitando
as características locais.
Meu sonho é ver esse tom de conflito ser substituído por um
tendência de cooperação. Isso é indispensável em tempos de coronavírus.
Em pelo menos cinco estados do país o problema ainda é
aumentar as restrições para evitar o colapso do sistema de saúde.
É um caminho muito difícil. Você passa para um nível
superior de isolamento, o lockdown, ao constatar que a quarentena fracassou.
Lembra-me um pouco os trens na Itália, antigamente. Rápido, molto rapido,
rapidíssimo, as palavras iam mudando mas o resultado era o mesmo.
Acho que restrições apenas não funcionam. É preciso também
levar coisas boas. Água para lavar as mãos, por exemplo; internet gratuita para
que as pessoas tenham o que fazer dentro de casa.
Os conselhos das autoridades são melhor recebidos, quando a
população sente que elas estão do lado dela.
Vi isso nitidamente no Haiti. Foi o processo de amizade que
validou os conselhos e não propriamente as restrições necessárias.
Agora talvez seja um pouco tarde para mudar o rumo. Restringir apenas é mais fácil mas não funciona completamente.

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