“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços.
Não cantaremos o ódio, porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e
nosso companheiro…”
(Carlos Drummond de Andrade)
Medo faz parte. Vive-se com medo tantas vezes! É parte da
experiência. Vai-se superando. Afinal, notava o Rosa, o que a vida pede é
coragem. Dribla aqui, supera-se ali, sabendo sempre ser melhor viver sem a
sensação de nó no estômago. Medo é alerta e proteção quando ajuda na
sobrevivência. É sofrimento e desagrado quando imobiliza e infelicita. Medo da
morte, medos na vida. Medo do dia de amanhã. Medo de não ter amanhã. Medo de
não ter o almoço amanhã. Medo de guerra. Medo de desemprego. Medo do novo
emprego. Tanto medo oferecido, esgueirando-se, olhando para a gente sem… medo.
Ajeitamos modo de vida para ignorar o medo. Ser mais forte
que ele. Deixá-lo de lado. Passarmos ao largo e seguirmos como seres
destemidos. Não participaremos do Congresso Internacional do Medo, a que se
referia Drummond.
E vem o anúncio de uma pandemia. Isolem-se! Antes, era
juntem-se. Agora sussurram: escondam-se! Isolamento é forma cabulosa de
esconder-se do vírus. Ou da morte.
O vírus não teme o mundo. Mas o mundo, esse morre de medo da
doença. Com razão. Moléstia danada de ruim! Rápida, traiçoeira, fatal milhares
de vezes.
Com o isolamento para-se o trabalho, despede-se o emprego,
aumenta o medo. Dinheiro encurta, bens diminuem, que será amanhã? Nunca se
soube bem, mas o amanhã virou o hoje insabido.
Junte-se a esse escuro de tempo revolto a sombra incômoda de
incertezas outras, águas turbulentas a envolver-nos em raios e trovões varando
noites de escuro denso.
Tempo de pensar em quem pode legitimamente mostrar-se
liderança. As instituições estão trabalhando no Brasil. A bússola
constitucional marca a rota democrática a seguir, com ajustes, consensos necessários
a se construírem, mas sem se temer carência de valores ou desistência de rumo.
Se há um ou outro oco de responsabilidade, há muitos que têm o sentido da
direção a se cumprir, de mapas normativos a seguir, compromissos funcionais a
honrar.
Medo de qualquer doença é grave. O medo de moléstia
institucional é compreensível. Mas não é objetivo. As instituições atuam,
cumprem suas atribuições, o barco Brasil não está à deriva, embora as águas
estejam tormentosas e o alvorecer tenda a ser ainda turbulento. Até porque o
País não é uma ou outra instituição, é o seu povo, com sua história, seus
sonhos, sua vontade de construir-se.
Erguemos casas para fechar a porta às incertezas incômodas.
Queremos tudo prever para sossegar. Bobagem! O imprevisível é parte do pouco
previsível desta vida.
Nossas construções são ilusões de certeza no incerto da vida
e o certo (malquisto) da morte. O que virá depois – e haverá, por certo, um
depois – desta passagem não será a volta à mesma margem. Terá havido um
atravessamento. Se realizamos a travessia ou se levados pela correnteza e
chegamos à outra beirada depende de nossa capacidade de fazermos algo com o que
nos foi servido à mesa da vida: repleta para alguns; de parca sobrevivência
para muitos. Ser atravessado significará outros tempos de incertezas e medos.
Fazer a travessia significa enfrentar o medo. Desidratá-lo pelo brilho da
esperança. Ela não significa aquietar-se enquanto se espera, senão realizar no
esperançar para que de nossos sonhos, agora atropelados, brotem flores brancas
de paz, não amarelas e medrosas de guerras. Flores de enfeitamento, não de
murchas coroas enlutadas em túmulos de ideias e ideais.
A hora é dura, é grave, é até triste. Por isso mesmo não é
tempo de descuidos, de descrenças nos sonhos, de entregas a passados tétricos.
O tempo é de cuidados, de fé no ser humano, de pensar no que passou e nos
ensinou para experimentar o gosto do futuro, diferente e melhor, mais
democrático e mais humano.
Esse futuro que sempre chega. Melhor ou pior. Depende de
cada um de nós o que vai ser.
Esperança não diz viver na espera. Não é aquietar, menos
ainda acomodar ou ceder. É pelejar na construção. Há que ter mãos para semear
acontecências.
Medo é doença. E se esperança não é cura, ajuda muito na
força e na saúde do corpo individual, social e institucional. O momento pede
cautela e coragem. E agradece com a certeza de que sempre amanhece, mesmo
quando trevas não deixam vislumbrar sóis nem antever paz. Sempre clareia na
manhã seguinte. Agora, cada qual pode ser apenas uma pequena lanterna. Depois
se verá que de tantos pontos clareados neste escuro mal brotado da boca de
noite em breu se terá garantido a manutenção da rota e a inteireza do barco
chegante com os navegadores sobreviventes. Somos todos apenas isso, sobreviventes.
Mas somos os viventes construtores do próximo porto. A tarefa tende a ser
árdua. Mas só haverá esse ancoradouro se não desistirmos nem ficarmos à deriva.
Há que se lembrar que há sempre um pirata, corsário de desumanidades, pronto a
tomar de assalto o navio de desistentes. Mas também há sempre quem prefira
seguir na empreitada de descobrir a rota e seguir a trilha, porque em algum
lugar há quem espere o chegante para persistir na divina travessia da aventura
humana. O poeta tinha razão: navegar é preciso, viver…
*Cármen Lúcia é ministra do STF

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