Ante as inúmeras barbaridades diárias que o cidadão Jair Bolsonaro,
alçado a um cargo para o qual nunca teve o menor preparo, comete contra aqueles
que deveria presidir, a palavra que martela o cérebro é exasperação.
É exasperante ver que alguém se mantém no poder sendo tão
incompetente. Sim, porque até para ser mau, ser ditador, ser fascista, é
preciso saber agradar aos seus pares. Bolsonaro não apenas não sabe, como não
quer saber. Na prática, ele não tem pares, é um paranoico obcecado, sem amigos,
só familiares e um entorno de aproveitadores e acólitos de última categoria que
não têm compromisso com nada além de suas
próprias agendas medíocres. Ver como se agacham para catar as migalhas
que seu líder deixa pelo caminho é, de novo, exasperante.
Assim como é exasperante assistir ao tropicar atabalhoado de
quem realmente crê ser ungido por um poder ilimitado, enquanto desfila seu
messianismo pelo Planalto como o rei cuja nudez seus cortesãos fingiam ignorar.
Ele não percebe, pois lhe falta cognição e conselheiros sinceros, que a cada
contradição cuspida de seu quadrado desencanta a galope um número maior dos que
se iludiram um dia com o que pensavam ser autenticidade e apoio à luta contra a
corrupção e que, na prática, começam a ver o que sempre esteve lá: o discurso
vazio de um baixo clero medíocre, que encontrou uma brecha para incensar o que
de pior tem dentro de si o ser humano aviltado, envergonhado, preconceituoso e
infeliz.
Porque é exasperante ver que esse é o eleitorado que o
elegeu, com o fígado e à revelia de qualquer raciocínio: o lúmpen que não
evoluiu, que nada aprendeu da história, porque o saber humilha seu orgulho de
tanto ignorar; o feitor que suspira a nostalgia da escravidão disfarçada de
quarto de empregada; o empresário medíocre que não enxerga um palmo à frente do
nariz e se inspira nas práticas da pré-Revolução Industrial; a mulherzinha
bela-recatada-e-do-lar conformada à vida engessada em conceitos medievais.
A esses, como a outros seres rastejantes, baratas
enfatiotadas, só resta defender com unhas de gel e dentes cuidadosamente
polidos nos consultórios de luxo o ídolo que lhes devolveu a possibilidade de
serem trogloditas à luz do dia. Para eles, o ser abjeto é o mito, só ele os
salvará do opróbrio do século 21.
Pois é sim, também exasperante, observar de fora as
tentativas de demonstrar euforia da claque que rodeia esse personagem tão ruim,
indigno do pior folhetim. As festas regadas a falsa alegria, pretextos para
selfies nas redes sociais, o desafio à ralé cuspido pelos novos-ricos
milicianos e suas loiras tingidas, botocadas, moldadas nas academias e nos
bisturis dos médicos da moda.
Porque não basta ser um perfeito idiota, tem que ostentar
sua idiotice em hashtags de mau gosto e bebidas contrabandeadas pelos
milicianos da vizinhança. Têm que esfregar sua ilusão de tudo poder na cara dos
que menos ou nada possuem. Porque esses são os supérfluos, os descartáveis,
como as garrafas long neck que vão largando pelo chão e os vírus mortais que
distribuem à mancheia. De onde vieram esses servir aos senhores que se creem
todo-poderosos, há todo um exército de mortos de fome à espera de uma boquinha.
O velho, ranheta e brilhante jornalista Paulo Francis dizia
que a ditadura
militar instaurada pelo golpe de 1964 só durou duas décadas por causa
da distância de Brasília dos principais centros do país. “Se a capital
continuasse no Rio”, afirmava, “duvido que o regime resistisse dez anos".
Em Brasília, no chamado forte apache, o isolamento em que alguns militares,
tipo general Frota, viveram deve tê-los feito ver demônios, que, na sede do 1º
Exército do Rio, assustariam tanto como Pluft, o fantasminha, e seriam
ridicularizados amavelmente por amigos civis.
A incestuosidade burocrática de Brasília é um dos nossos
maiores problemas”. A observação de Francis se aplica perfeitamente aos dias de
hoje, com um ligeiro acréscimo geográfico: se a república condominial da Barra
da Tijuca não tivesse sido ignorada pelas prefeituras cariocas como uma zona de
emergentes em busca de reconhecimento, rodeada de especialistas em crime
organizado com PhD na bandidagem dos morros que a circulam, capazes de
implantar e fazer cumprir suas próprias leis, não teríamos hoje que nos
preocupar com seres malignos tratados por números sempre iniciados por um
sintomático zero à esquerda.
A serpente talvez, e só talvez, estaria ainda dentro do seu
ovo, esperando pelo melhor momento da eclodir.
Luiza Pastor
Jornalista, escritora e "associated partner" do Copenhagen Institute for Futures Studies (CIFS)

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