Sergio Moro dormiu um sono tranquilo por 16 meses. Dias
antes de pegar as chaves do Ministério da Justiça, o ex-juiz disse não enxergar
“risco de autoritarismo” no governo de Jair Bolsonaro. Agora, ele afirma que a
reunião que precedeu sua demissão contém “inquietantes declarações de tom
autoritário”.
O ex-ministro demorou a sair do sossego. Moro foi
rotineiramente sabotado e humilhado pelo chefe desde a inauguração do mandato.
Mesmo assim, agiu como advogado de Bolsonaro e acobertou até as investidas mais
perigosas do chefe.
Em agosto de 2019, sob pressão do presidente, Moro trocou o
comando da Polícia Federal no Rio. Depois de engolir a mudança, ele espalhou a
versão de que tudo era um mal-entendido. No programa Roda Viva, em janeiro, ele
quis disfarçar: “Tentaram fraudulentamente colocar o presidente contra a
Polícia Federal”.
Àquela altura, o ex-juiz já sabia que o desejo de Bolsonaro
era derrubar o diretor-geral Maurício Valeixo —o próprio Moro reconheceu isso à
PF, há quase duas semanas. Ainda assim, continuou dizendo que Bolsonaro
respeitava a autonomia do órgão.
Os advogados de Moro afirmam que o ex-juiz foi ameaçado por
não endossar a campanha para “minimizar a gravidade” do coronavírus. Em março,
porém, ele ameaçou encerrar uma entrevista à Folha ao ser lembrado do
comportamento irresponsável do presidente na crise.
O ex-ministro também diz que se tornou alvo por não aderir
aos protestos golpistas a favor do presidente.
Em junho de 2019, ele festejou uma manifestação pró-Lava
Jato em que houve ataques ao Supremo.
Após romper com o presidente, Moro declarou ter se tornado
vítima de fake news. Meses antes, ele disse ao canal de Eduardo Bolsonaro que
havia “um certo exagero” em relação à máquina de mentiras governista.
Auxiliar do ex-ministro, o juiz aposentado Vladimir Passos de Freitas afirmou que o colega “não tinha nem ideia” de como seria trabalhar com Bolsonaro. Depois de conhecer o chefe, Moro preferiu ficar calado.

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