O interesse popular pelas campanhas eleitorais mostra-se
cada vez mais distante. Ao invés de despertarem entusiasmo, estimulam os
eleitores a se afastarem, evidenciando o descrédito do sistema representativo.
Em passado distante os candidatos se valiam do santinho,
passado de mão a mão, e do comício em praça pública. Papel importante era
desempenhado pelo cabo eleitoral, uma espécie de correia de transmissão com as
bases. Raros eram os casos de infidelidade. Quem se bandeava de lado perdia
credibilidade. No cenário nacional predominavam o Partido Social Democrático
(PSD), a União Democrática Brasileira (UDN) e o Partido Trabalhista Brasileiro
(PTB), cada qual com campo de representação definido. O Partido Comunista
Brasileiro (PCB), ressurgido da clandestinidade em 1946 (para a qual voltaria
logo depois), gozava do apoio de intelectuais marxistas-stalinistas, mas não
despertava interesse na classe operária.
Acuado por generais da “linha dura”, promotores do movimento
de 31 de março de 1964, o presidente Castelo Branco editou o Ato Institucional
nº 2, implantou o regime autoritário e dissolveu os partidos. Para
substituí-los inventou a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o Movimento
Democrático Brasileiro (MDB). O primeiro daria sustentação ao governo e o
segundo ficou encarregado de lhe fazer oposição. Passados 32 anos da
promulgação da Constituição de 1988, o cenário político permanece desalentador.
O Poder Legislativo, integrado por partidos volúveis e de baixa expressão, reúne
poucos atores de primeira grandeza, sufocados em meio à generalizada
mediocridade de simples figurantes.
Com a Nação dividida entre vaga onda bolsonarista e
debilitado petismo, resta pouco espaço para o exercício da razão. O “centrão”
comporta-se como sociedade limitada, criada para negociar alianças ao preço de
ministérios, empresas públicas, sociedades de economia mista, diretorias,
emprego. É o velho toma lá da cá de governos passados, que ameaça retornar.
O Poder Executivo está sob o comando do capitão Jair
Bolsonaro. Até meados de 2018 S. Exa era deputado pouco conhecido além do
prédio da Câmara dos Deputados. Tinha como característica agir qual lobo fora
da alcateia. Raras vezes ocupou a tribuna. Transitou por quase todos os
partidos. A punhalada em Juiz de Fora o colocou fora da campanha, circunstância
que o beneficiou. Como presidente da República comporta-se como “boina verde” à
caça de inimigos invisíveis. Governa com agressividade e dá a impressão de ser
refratário à ideia de aceitar oposição.
O presidente Bolsonaro é autêntico, porém destemperado.
Venceu graças à debilidade circunstancial dos competidores. O alvo era o
Partido dos Trabalhadores (PT). O binômio Lula-Dilma destruiu o País. A crise
se arrastava há mais de dez anos, com aumento substancial do número de
desempregados. Como era de se esperar, quem melhor incorporou o espírito do
antipetismo ganhou a eleição.
Aproveito a quarentena para reler “A Marcha da Insensatez”,
de Bárbara Tuchman e “O General em seu Labirinto”, de Gabriel Garcia Marquez.
Bárbara Tuchman relata a história de governos poderosos que fracassaram vítimas
de erros praticados no interior da cadeia de comando. Para qualquer governante
o maior dos perigos consiste em se recusar a ouvir a verdade, escreveu a
historiadora. Gabriel Garcia Marques descreve o último ano de vida de Simón
Bolívar, o Libertador. Aos 41 anos, após sangrentas campanhas militares que
resultaram na criação das repúblicas da Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia,
Peru, Panamá, foi encontrar a morte na quinta de San Pedro Alexandrino,
amparado pelos derradeiros amigos. Bolívar poderia ter sido, mas se recusou a
ser ditador.
Rejeito a divisão do Brasil entre bolsonaristas e petistas.
Lideranças renovadas se apresentarão no momento oportuno para disputar a
presidência e governos estaduais. Repilo a possibilidade de impeachment
ou de golpe. Jair Bolsonaro tem o direito de pleitear a reeleição. Terá pela
frente, todavia, cenário diferente daquele enfrentado em 2018. A crise
econômica, agravada pela pandemia, provocará aumento do desemprego. Os inimigos
a serem vencidos em 2022 serão o desencanto e a pobreza. Mais uma vez o eleitor
votará com o bolso. Durante a campanha Bolsonaro conviverá dia após dia com a
imprensa. Não poderá ordenar jornalistas a calar boca. Será chamado a
prestar contas sobre o combate coronavírus, as medidas adotadas em defesa da
saúde, a debacle econômica, o empobrecimento da classe média, a reconstrução.
Se sair-se bem, ótimo para ele. Se for mal correrá o perigo de humilhante
derrota.
2020 é ano perdido. Ao presidente restar-lhe-ão 2021 e parte
de 2022. Conseguirá governar na segunda metade do mandato, ou permanecerá
perdido no labirinto das acusações à China, à imprensa e à oposição? Veremos.
— Almir Pazzianotto Pinto é advogado. Foi Ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho.

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