Não tem nada mais inconveniente, mais inoportuno, mais
indelicado, mais desagradável, mais doloroso, mais sinistro, mais sombrio que a
morte. Bem, tem o Bolsonaro, mas esta coluna, excepcionalmente, não é sobre
ele.
Pessoas tendem a ser indiferentes quando a morte está longe
delas, de seus interesses, de seus amores. Não é por mal, é a vida. A exceção é
a morte de uma celebridade, de uma personalidade, de uma sumidade —ainda que
nem sempre.
Sem desmerecer o passamento de MC
Reaça, é sintomático que alguns o lamentem e ignorem o desaparecimento de
grandes artistas e de milhares de brasileiros. Sérgio Sant’Anna, Rubem
Fonseca, Moraes, Flávio, Aldir. Marias, Clarices, Josés, Antonios. Em
tempos de grosseria, morte virou commodity.
A morte também deu para ser menosprezada, como se viu na
entrevista da Namoradinha da Cultura, a atriz Regina Duarte. Pra
frente, Brasil, mas sem levar nas costas cordéis de caixões de vítimas
da ditadura e do coronavírus.
Cordel de caixão também deve ser mais ou menos assim: ele
pode ser de pínus/ de carvalho ou cerejeira/ depende se o cabra é rico/ ou se
não tem eira, nem beira/ seja lá que bicho seja/ tire logo da cabeça/ que
caixão é como história/ enterre fundo e esqueça.
Ainda sobre Regina, incrível a solução que ela propõe para a
secretaria não ficar assoberbada, prestando homenagem a quem morre nesses dias
tristes: abrir (sic) um obituário no site. Os notáveis que integram esse
governo foram convidados segundo critérios técnicos (arrã) ou políticos. Não
estará faltando um psicotécnico antes da nomeação no Diário Oficial?
A morte é desconsolada, é fria, é dura, é solitária, é
malvada. Com tudo isso, é justamente nos textos sobre a morte, aqui no
obituário do jornal, que é possível encontrar mais poesia. Muitos são assinados
por Patrícia Pasquini,
que olha com uma sensibilidade bem rara para todos os que se vão.
A primeira palavra que Bruno falou foi borboleta.
Em meio ao forró, ensinou aos filhos a felicidade.
Uniu a alegria à determinação de olhar para a humanidade.
Aventurou-se na vida com humor, amor e gentileza.
A generosidade dos textos de Patrícia deveria ser uma
inspiração para Regina Duarte, para o presidente, para quem insiste que o
distanciamento social é exagero e quer todo mundo na rua para fazer a economia
andar. Se com saúde, isso fica para depois. Quem se importa?
Claudia Tajes
Escritora e roteirista, tem 11 livros publicados. Autora de
"Macha".

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