Desde que o senhor veio com o “golden shower” — tem mais de
um ano — já deveria ter sido advertido nos mesmos termos que fez o rei da
Espanha, Juan Carlos, ao boquirroto e inconveniente caudilho venezuelano Hugo
Chávez, tempos atrás. Caberia adequadamente, ontem e hoje, a bronca no seu
caso: “Por que não te calas?”. A destemperança verbal na condição de inquilino
do Planalto, as ignomínias nos ataques sem propósito, a valentia fora de hora,
a tentativa de intimidação e constrangimento, hostilizando quem apenas faz o
seu trabalho, causam, no todo, repulsa. E vergonha alheia. Indistintamente.
Quem presencia ou toma conhecimento do espetáculo horroroso
fica desconfortável. Automaticamente. Sem necessidade. Vossa excelência,
repetindo um bordão conhecido do seu mais novo aliado da tropa de choque do
Centrão, Roberto Jefferson, desperta na maioria os instintos mais primitivos.
Combine com ele, Jefferson, o toma lá, dá cá, mas nos poupe de mais impropérios.
Para quem já falou em executar 30 mil pessoas, ameaçou mulheres de estupro,
saudou torturadores e se disse a própria Constituição, deveria bastar.
O vatapá de vitupérios da sua lavra passou da conta. Feche a
matraca, evitando tantas barbaridades e constrangimento público. Não dê mais um
pio. Para o seu próprio bem. Cala a boca o senhor, presidente! Coloque-se
devidamente no papel de chefe de Estado. Um líder que só fala besteira, difunde
asneira, agride e desinforma, não honra a faixa que recebeu. Veste a pitoresca
fantasia de um arlequim. Está fadado à condição de bedel do entretenimento e
shows de Ópera-Bufa, perdendo o respeito dia a dia. Cala a boca o senhor,
presidente!
A imagem de déspota autoritário, arrogante, de quem almeja
governar como rei absoluto, não cai bem nos dias de hoje. Como funcionário
público, alçado ao Palácio pelo voto popular, vossa excelência deve mesmo, a
cada um dos brasileiros eleitores, satisfação. Respostas que evita dar. Não
recebeu cheque em branco para fazer da presidência o que bem entende. Muito
menos para usar o poder de Estado como se fosse uma propriedade privada. Não é
assim. Ao contrário. Se não nos representa, se não sabe respeitar aqueles que
lhe deram a condição de mando e o posto, deveria abandonar a cadeira e ir
cuidar das milícias digitais, com as quais o senhor se sente tão à vontade e
onde a sua decantada escatologia verbal é bem-vinda. Poupe-nos dos desaforos.
Cala a boca o senhor, presidente! Nós não vamos nos calar,
apesar do desejo incontido que manifesta nesse sentido. Como já disse a antiga
cantilena, reprisada com propriedade numa sentença da ministra do Supremo
Tribunal Federal, Cármen Lúcia, “cala a boca já morreu”. Se existem anseios mal
velados nas suas reminiscências dos tempos da ditadura e dos podres porões da
tortura, vingados no regime de exceção, fique com eles para si. Não encontram,
pode ter certeza, mais espaço no nosso Brasil de hoje. Intimidar o livre
exercício da liberdade de expressão é crime previsto na Lei. E a lei,
presidente, rege todos nós. Paira acima, inclusive, do senhor. Muito embora as
suas tentativas de desobediência a ela sejam corriqueiras.
A extravasada ira contra aqueles que apenas lhe dirigiam
perguntas, postados num cercadinho miserável como gado a ter de aguardar as profanações
do feitor, dão conta de um mandatário que não possui o mínimo senso de
compreensão da atividade jornalística — cujo fundamento, precípuo, é o de
retratar fatos de interesse público, transmitindo-os à população, que tem o
direito de ser informada. Jair Messias Bolsonaro, que não se cala nunca e busca
fazer encenação politiqueira de qualquer circunstância, mesmo das tragédias
como a da Covid-19, tenta “moldar” os fatos a sua maneira. A verdade não se
pauta por subterfúgios recorrentes.
Quando mandou os entrevistadores calarem a boca, o capitão
repetiu uma cena marcante dos momentos mais insidiosos da ditadura militar, na
qual o então general Newton Cruz, nos idos de 1983, questionado sobre os
retrocessos democráticos, quis silenciar o repórter Honório Dantas, com um
“cala a boca” que descambou para a agressão física. A prepotência bolsonarista
— vendida também por intermédio das falanges de veneradores e do gabinete do
ódio — foi às vias de fato contra enfermeiros e jornalistas em dois episódios, na
véspera e antivéspera da admoestação presidencial.
Diferentes na forma, semelhantes no método. Inaceitável,
indecoroso, repulsivo. Cala a boca o senhor, presidente! Ninguém aguenta mais
tanto descomedimento. Vá com a sua incitação à desordem pública para lá.
Reserve o descaso do “e daí?” para a sua tribo. Quem está pensando que é? As
respostas que na ocasião não vieram à altura de suas agressões dão sinal da
cordialidade e educação do povo que o senhor não sabe conduzir. Deveria
aprender ao menos noções preliminares dessa natureza cordata. Não o provoque
muito. Tudo tem limite e o da paciência de seus eleitores, como mostram as
pesquisas, já transbordou.
Esbanjar braveza para quem não lhe oferece resistência é o
máximo da covardia. Cala a boca por que, presidente? O que aqueles jornalistas
estavam lhe questionando que tanto o incomodava? Por acaso as notórias
interferências na Polícia Federal, admitidas em seus próprios posts, eram
fábulas da carochinha? Não parece. Ofender pessoalmente é o recurso dos pobres
de argumento. Dos rasos de ideia. Dos sem noção. É o senhor dá demonstrações
incessantes de agir segundo esse manual. Cala a boca o senhor, presidente! Para
nos poupar desse ódio avassalador que faz tanto mal, das diatribes fora de
propósito, das sugestões irresponsáveis e inconsequentes sobre desobediência à
quarentena.
O senhor vocaliza que a “gripezinha” não mataria nem 800 e
quando ela mostra um número dez vezes maior vem com o seu debochado “E daí?”. E
daí, lhe diria presidente, que milhares de famílias estão agora chorando seus
mortos, desoladas no luto, sem qualquer amparo ou palavra de consolo daquele
que deveria se apresentar como comandante e não passa de um bufão de palanque.
Se quer silenciar o diálogo, cala a boca o senhor, presidente! Por que nós não
vamos nos calar.
A comunicação está nas nossas veias, na natureza da atividade, no nosso conceito de vida e democracia. E isso não se cala na marra. Nem com mordaças, como tentaram lá atrás. Cala a boca o senhor, presidente! Que precisa aprender o que é civilidade, princípios republicanos, decência e liturgia do cargo. Cala a boca já morreu, mas esses aqui servem apenas para mostrá-lo como eles machucam os ouvidos. Como atinge e dói fundo na alma. Não vamos nos calar.

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